sábado, 5 de janeiro de 2019

Cem Silvestre de Lisboa

A minha centésima prova! E um trocadilho à maneira para celebrar, que tal?

Vocês sabem lá o que isto custou! As 100 provas? Não, conseguir que a centésima fosse a São Silvestre só para poder fazer este trocadilho! Foram meses de treino, caramba!

Não é habitual demorar tanto tempo para escrever o relato de uma prova. Aliás, se não fosse a minha actual debilidade respiratória que mencionei no post anterior, teria hoje feito em Marvila a prova 101. Fica para a semana, espero eu.

A São Silvestre de Lisboa tem sido nos últimos anos uma prova obrigatória, mas sempre para o convívio. Desta vez não foi diferente. Éramos 26 no total e, fruto disso, enquanto responsável pela equipa, fui contactado pela HMS e tivemos o privilégio de receber os nossos kits mais de uma semana antes de serem distribuídos aos atletas em geral. Quando fizemos o treino de Natal da equipa no dia 22 de Dezembro deu para entregar quase todos os kits ao pessoal. A única recomendação era não partilharmos fotos da camisola nas redes sociais antes do dia 27. Fica aqui um agradecimento à organização pela atitude pro-activa e por este gesto para as equipas mais representativas na prova.

O ponto de encontro antes da prova foi na Fábrica dos Pastéis de Nata. E no final também, para manter a tradição iniciada no ano passado. Foi por lá que começou a festa que durou bem mais que os 10km da prova. Fotos e fotos antes de rumarmos até aos respectivos blocos de partida e, antes disso, fiz um pequeno discurso de agradecimento a todos os que estavam ali e que contribuíram para eu chegar às 100. Muitos mais deveriam estar ali, muitos mais estiveram comigo neste percurso que começou de forma oficial a 7 de Junho de 2012 na Corrida de Santo António, mas que só se desenvolveu a sério a partir de 2015. Fica a curiosidade de ter completado esta marca praticamente no mesmo sítio onde comecei.

Em termos de prova, num mundo ideal seria o palco para eu fazer um brilharete do caraças e bater o meu record pessoal. Sabia que isso era irreal, mas ia tentar começar forte nos primeiros quilómetros e ver o que aquilo dava. Deu para três e percebi logo que até ia ser difícil honrar o dorsal sub-50 que tinha. Reparei agora que já não fazia provas de 10km desde Agosto, em Tagarro, e até essa já foi na reentrada pós-verão numa altura em que o foco já estava todo na Maratona.

Comecei bem, sim, mas sempre acima dos 4:45 que era o ritmo sonhado até chegar ao Terreiro do Paço para depois ter folga na subida. Ao fazer o retorno tirei da cabeça quaisquer ambições fantásticas e fui a curtir a prova e a ver quem tinha em redor. Algumas caras conhecidas, obviamente! (Aliás, antes e depois da prova eu tive bastante dificuldade em andar sem me cruzar com amigos. Gosto tanto quando assim é!)

Fui sempre próximo do mesmo grupo de atletas e reduzi o ritmo. A certa altura fui em conversa com algum pessoal e vejo, de forma inesperada, o Duarte que foi um dos meus companheiros de pódio em Novembro nos 5km da Luzia Dias. Percebi que ele estava a fazer a prova em ritmo de treino porque o objectivo dele era a São Silvestre da Amadora. Fomos na conversa largos quilómetros e foi bom para ir tranquilo, sobretudo ao passar o empedrado após o Cais do Sodré. 


Nessa zona - e pelo Rossio acima até à Avenida da Liberdade - muitos eram os espectadores do lado de fora da estrada a ver os atletas a passar. Como habitual pedi palmas e barulho. Uns quantos "Toca a bater palmas, Lisboa!" e outros gritos semelhantes foram retribuídos com alguns "Animo, venga!". Foi um bom treino para Madrid, claramente! Salvam-se as crianças, sempre prontas a esticar a mão a quem passa!

A ideia ali era subir sempre abaixo de 6:00, objectivo que foi cumprido quase na íntegra. O Duarte ainda estava por ali, agora na companhia de um colega de equipa. Ele estava a guardar-se para o quilómetro final. Eu também estava à espera desse momento para me soltar e tentar recuperar alguns segundos perdidos. Comecei a descer a todo o gás por ali abaixo, mas nunca consegui manter um ritmo elevado. Também já tinha olhado para o relógio e sabia que o tempo ia ficar longe dos 50 minutos, portanto a única ambição que me restava era fazer o meu melhor tempo na prova, algo que consegui por larga margem. Valha a verdade, sempre tive marcas muito dispares na São Silvestre. No ano passado, por exemplo, fui a acompanhar uma colega a ritmo de 6:00 até ao Marquês e depois deixei-a sozinha no último quilómetro e voltei para trás.

O sprint final permitiu-me, pelo menos, fazer abaixo do minuto 52 e fiquei tranquilo com esse tempo. Na meta tinha alguns colegas à espera, o que permitiu logo fazer uma série de fotos, até porque naquele momento foram chegando outros que vinham no meu encalce. Depois fomos para lados diferentes. Um dos meus colegas teve, infelizmente, que ir embora; outros foram até aos carros e novamente até ao ponto de encontro no final e eu... voltei para trás. Fui praticamente até ao Terreiro do Paço ter com um trio de colegas que estava a fazer a prova a "corrinhar".

Ficaram surpreendidas por me verem ali, uma delas até me perguntou onde é que eu tinha arranjado a maça que levava na mão porque não tinha percebido que eu já tinha acabado. Só acreditou mesmo quando lhe mostrei a medalha! Fomos em amena cavaqueira até ao final, com umas pausas para fotos pelo caminho. Nesta brincadeira, acabei por fazer mais 4,5km depois de terminar. E foram fantásticos! Lembrei-me imensas vezes da minha chegada à meta em 2017, em óptima companhia. Queria muito ter repetido esse momento em 2018, mas ficará para uma próxima oportunidade!




No final, ainda fomos a tempo de chegar aos pastéis de nata, embora outro grupo de amigos me tenha tentado desviar para a ginjinha. Para o ano vou a ambos os lados, pronto!

Ficou assim acabado mais um ano de corridas. Com a centésima no bolso! Estou muito orgulhoso e em breve farei um ligeiro resumo do que foram estas cem corridas. Em relação à São Silvestre de Lisboa, fica aqui o meu histórico de participação na prova.



Prova nº 100 - São Silvestre de Lisboa - 10km - 00:51:54

2019

Quase um mês depois, volto aqui a escrever.

Nestes dias aconteceu tanta coisa, a nível pessoal, profissional e, obviamente, no que diz respeito a corridas. Nem tudo foram coisas boas, mas isso é algo para o qual temos que estar preparados em todas as alturas da nossa vida. Fiquem tranquilos, do mau não vou falar. Apenas uma curta referência ao facto da minha mazela do trail de Alcanena ainda não estar debelada a 100%. A ferida ainda não sarou na totalidade e por vezes sinto um ligeiro desconforto e dor no joelho. Há-de passar.

Estive atento ao que foram escrevendo pela blogosfera fora, mas só hoje comentei algumas das coisas que fui lendo. Estou, novamente, actualizado nesse capítulo.

Desportivamente, tivemos um final de ano repleto de emoção, com um treino de Natal bem porreiro e com uma São Silvestre que, de acordo com muitos dos presentes, nada ficou a dever às oficiais. E o abastecimento no final, com bolo-rei quentinho em barda oferecido por uma pastelaria local foi a cereja no topo do bolo que ninguém esperava e que caiu que nem ginjas. Para além disso, usando a expressão anterior, também havia cerveja no topo do bolo(-rei). Foram 80 pessoas, números redondos. Para o ano quero 100! É um evento que muito me toca, confesso, mas que não seria possível sem a fantástica equipa que me acompanha nestas aventuras.

Para terminar o ano desportivo, outro momento muito aguardado: a São Silvestre de Lisboa que foi a minha centésima prova. Ainda não consegui escrever sobre o assunto, mas será para breve!

A todos os que estão por aí, votos de um fantástico ano, a todos os níveis!

Assim que me passar a preguiça volto a treinar. Raio do frio e, sobretudo, da humidade que voltou a despertar o asmático que há em mim. Há-de passar, também, que há muitas provas pela frente e algumas têm "Maratona" no nome!

"We will be victorious" ouço enquanto escrevia esta linha final. Soa-me bem!

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Vida de um corredor

E não, não estou a falar dos corredores dos supermercados.
Pronto, vamos substituir por "atleta amador". 

É uma vida muito repetitiva e previsível. Estamos sempre a fazer o mesmo. Todos. Vou meter uma lista de coisas que fiz durante a última semana, por exemplo. Vejam lá bem e metam a mão no ar se  também fizeram o mesmo que eu num ou em vários dos seguintes casos:

- passear pelos sites de lojas online para procurar por material desportivo em promoção
- fazer a inscrição numa maratona
- participar numa prova durante o fim de semana
- procurar por fotos dessa mesma prova
- dar likes, kudos, palmadinhas nas costas e afins ao ver as provas que os nossos amigos fizeram e partilharam

E pronto... é isto!

Pedras no meu caminho?

Guardo-as todas, um dia construo um castelo.

Ora, hoje saí de Alcanena com um pequeno estúdio! Por onde começar a falar do meu regresso a uma prova de trail? Talvez pelo que aconteceu na última que tinha feito: há três anos e meio atrás.
Na altura "...pisei mal uma pedra...". Hoje dei um pontapé numa que me pregou uma valente rasteira!

Quando há uns meses, numa viagem de regresso a casa vindo do trabalho, me inscrevi na prova não sei bem o que me passou pela cabeça. Terá sido o facto de só ter participado em trails cuja inscrição é gratuita? Não sei, lembrei-me disso agora mesmo enquanto escrevia.

Entretanto alguém da equipa reparou que o meu nome estava na lista de inscritos e a partir daí foi uma festa. O N. ia fazer um trail! Passei estas últimas semanas a dizer que a minha ida estava dependente do estado do tempo e se estivesse a chover eu cancelava a inscrição. Até recebemos um SMS da organização para os contactar em caso de desistência... Ai, a tentação! Só que esteve sempre sol nestes últimos dias. Ontem ainda apareceu novo dorsal para o GP Natal e eu ainda insinuei que ficava com ele, mas sofri logo bullying no sentido de qualquer outra pessoa poder aceitar o dorsal, menos eu. Malandros, pá!

(Aqui entre nós que ninguém nos ouve, sabem que o mais provável era eu fazer um belo record pessoal hoje em Lisboa? Isto não é arrogância, é um feeling dadas as minhas provas recentes. Se estou arrependido de não ter feito o GP Natal? Nada!)

Antes do meu trail propriamente dito, o sábado foi passado a seguir a prova de duas colegas - e outros amigos - no Epic Trail Azores. E que orgulho senti com a prestação das nossas duas guerreiras  nos 63km da prova! Que lição de força de vontade e querer! Que stress a ver as horas a passar sem haver notícias da chegada ao próximo PAC. E que festejo foi quando terminaram a prova! Perante isto, o que são 14km?

Com tudo preparado para o dia seguinte lá fui dormir umas poucas horas que passaram rapidamente. Às 7 da manhã já estávamos a começar a viagem que se fez com muito sono. Felizmente hoje não precisei de conduzir. À chegada já tínhamos os dorsais levantados por um colega que tinha passado o fim de semana naquela zona e entrámos no pavilhão para aliviar alguma carga, para tirar umas fotos e para aproveitar a oferta de pequeno-almoço com café quente e pastéis de nata. Não, pessoal, não há disto em provas de estrada...

De ténis de trail e mochila de hidratação às costas lá partimos. E o início foi fantástico, num alcatrão fofinho que me fez soltar um "adoro trails assim!" Valha a verdade, o meu trauma com os trails são as descidas e o facto de ter muito pouca técnica e jeito. Por isso é que tento só me aventurar nos trilhos que conheço aqui na zona. Fora isso é sempre muito porreiro ir no meio da natureza, obviamente!

Ao entrar no primeiro trilho apanhámos logo uma poça de água gigantesca. Vá, grande. "Ehhh, tudo a passar ao lado. Não queriam sujar os ténis não viessem para um trail! Meninos!" - gritou-se lá do fundo, na brincadeira. Ri-me e gostei de ter visto muitos "meninos" como eu a passar à volta em vez de meter o pé na poça. Sem ser isto, os primeiros 5km foram super corríveis, mesmo com alguma lama. Tudo tranquilo que nem se dava pela distância passar. A minha distracção era ver onde metia os pés ao mesmo tempo que ia vendo os ténis da atleta que ia à minha frente gradualmente a mudarem de "cor de rosa vivo" para "castanho lama" passando por todos os tons intermédios.

O ritmo baixou consideravelmente quando chegámos à grande subida que durou uns bons dois quilómetros. Usei-a para pensar em como seria a descida e para perceber se me estaria a sentir tranquilo caso tivesse que descer algo parecido do outro lado da serra. E parecia-me confortável, apesar de TODA A GENTE à minha volta estar a falar da perigosidade que eram as descidas lá à frente sobretudo com as pedras tão húmidas e escorregadias. Fónix, era tudo o que eu não queria ouvir. Íamos com o sol de frente, pelo que raramente tinha oportunidade de olhar em volta devidamente, mas quando conseguia espreitar a vista era verdadeiramente linda. 

A subida foi toda num single track e feita a caminhar. Curiosamente eu vinha a pensar que o meu maior receio era descer num single track onde fosse toda a gente atrás de mim a queixar-se da minha lentidão e inépcia para a coisa. Sim, medos reais causados por acontecimentos reais. De vez em quando alguém perguntava se havia interessados em ultrapassar e em correr e confesso que não me ralava nada porque ia algo irritado por ir sempre naquela pasmaceira. Mal por mal, eu subo de forma bastante razoável e sentia-me com força para isso. Paciência, só deu mesmo para passar lá no topo e atrás de mim vieram logo bastantes outros atletas que afinal também queriam correr. Menos de 500 metros depois chegava o abastecimento.

À medida que íamos subindo, a minha temperatura corporal ia descendo. Estava a ficar cheio de frio, mesmo estando sol e eu indo de manga comprida por baixo. Arrefeci demasiado e precisava de correr para aquecer novamente. Parei um ou dois minutos no abastecimento e aproveitei a boleia de um grupo de atletas para ir com eles a um ritmo agradável. Havia muitas pedras no chão mas dava para correr, até que uma das pedras me pregou uma rasteira.

"Vai com cuidado e não caias!" - era a recomendação que eu trazia. Assim que dei um pontapé na pedra e me senti a meio caminho do chão pensei logo que só ia ficar com uns arranhões que iriam passar despercebidos. Pensei uma asneira cabeluda quando, já sentado no chão, olhei para o joelho e vi que afinal era mais chato. Quem vinha à minha volta parou logo, ajudaram-me a limpar a ferida com água e um rapaz voltou atrás para ir chamar os bombeiros que estavam ali a pouco menos de 300 metros porque tínhamos acabado de sair do abastecimento. Muita gente que passou perguntou como é que eu estava e se precisava de ajuda. Só lhes pedia para não tropeçarem em mim e desviei-me ligeiramente do caminho. Estava no chão mas bem disposto, ora essa.

Foi quando começo a ver alguns dos colegas de equipa que vinham em prova atrás de mim. Entre eles estava a nossa enfermeira que rapidamente avaliou a situação e quando os bombeiros chegaram tomou ela conta da ocorrência. Outros colegas davam-me força e uma achou que era um momento que tinha que ser registado e tirou uma série de fotos, algumas até bastante explícitas que mostram como ficou maltratada a minha perna e do quão bem disposto eu me mantinha. No final, a pergunta dos bombeiros? "Mas você quer continuar?" Tentava eu começar a perguntar o que é que eles me recomendavam quando a nossa enfermeira respondia logo que obviamente que eu ia seguir e outra colega me ajudou a levantar. Seguimos viagem!

Ficámos cinco, mas rapidamente nos separámos e eu fui para a frente mas outra colega ia endiabrada e não a consegui apanhar. Decidi ter calma, deixei-me apanhar e como começou um trilho a descer disse que ia esperar por companhia para me ajudar. Assim foi. Desci devagar e devagarinho. Fomos a puxar uns pelos outros e eles preocupados em saber se eu estava bem. Estava.

De repente, uma surpresa: alcatrão! Oh pessoal, isto é a parte do trail que eu mais gosto! "Cala-te, não digas isso assim, pá!" Com receio que alguém do staff da prova viesse atrás de mim decidi zarpar por ali fora, abri os braços e voei o mais que pude a 3:40m/km. Abram alas que lá vou euuuuuu!

Durou pouco, assim que voltámos ao trilho havia uma série de descidas (algumas feitas de rabo...) e os meus colegas apanharam-me num instante. Era obviamente bom voltar a ter companhia nesta zona mais íngreme onde ainda vimos passar os primeiros classificados do trail longo. Descidas finais feitas, era altura de abrir a passada até ao final. Agradeci o apoio importantíssimo dos colegas, eles mandaram-me seguir até ao fim e assim fiz porque o terreno era à minha medida. Ia sozinho com atenção às fitas e só perto do final encontrei mais atletas. Um casal que tinha passado por mim quando estava no chão e que muito contentes ficaram por me ver acabar.

E acabei, perante a alegria das colegas que me tinham ajudado quando caí e o alívio dos colegas que iam à frente e só ficaram a saber do que tinha acontecido instantes antes quando elas chegaram. Pouco depois chegaram os colegas que me acompanharam nas descidas e lentamente fomos rumando aos banhos. A malta dos 25km e da caminhada haveria de chegar a conta-gotas entretanto e o grupo ia ficando reunido novamente e com apetite para o almoço. Não só o da organização, como também o picnic que tínhamos levado.

Curiosamente, tanto nos balneários como nas mesas, tive bastantes atletas a perguntarem-me como é que eu estava por me terem reconhecido da queda. Ainda fui à ambulância trocar o penso e a ligadura e esqueci-me deste azar durante o resto da tarde. O convívio com a malta foi super porreiro, como era de esperar. A todos agradeço a atenção e a força dada antes, durante e depois da prova.

Agora tenho aqui um penso para mudar e uma pomada antibiótica para colocar para ver se isto volta ao sítio e se não fica infectado. Em princípio não, mas todo o cuidado é pouco. A nossa enfermeira está com algum receio até porque hoje também tenho algumas dores que podem apenas ser do impacto recente como podem ser sinal de mais qualquer coisa. É ir cuidando com juízo.

No meio disto tudo, qual é o veredicto final? Garantidamente que não vou trocar o alcatrão pelo trilho, mas revejo totalmente a beleza de correr pelo meio do monte. Mantenho a minha falta de prática nos trilhos. Para mim se é para correr é sempre a olhar para a frente sem medo de onde estamos a meter os pés. Gostava de ter feito um trail limpo, sem quedas, para ficar com uma memória melhor disto, mas longe de mim estar arrependido de ter feito a prova. Levem-me para o mato de vez em quando (oops, isto não soou tão bem como devia) mas de preferência em zonas que me sejam familiares para eu me sentir mais tranquilo.

Ia dizer que se calhar para o ano faço outro trail, mas com o calendário que já tenho pela frente não sei se isso será uma realidade.

Agora vou ver se recupero. Temos uma série de eventos importantes na equipa nesta altura do ano antes de terminar 2018 com uma festa em grande na São Silvestre de Lisboa. 


Prova nº 99 - Alcanena Trail - Serras de Aire e Candeeiros 2018 - 14km - 02:10:00

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Em boa companhia

Uma pessoa combina há semanas ir treinar com outras pessoas muito especiais. Marca-se um treininho de recuperação da Meia Maratona dos Descobrimentos, escolhe-se o lugar, combina-se o ritmo e fica tudo apalavrado.

Depois chega-se ao dia e... não, ninguém desmarcou! O que aconteceu foi que o treino foi feito com uns Adidas Solar Boost nos pés. Pura coincidência, mas uma coincidência daquelas boas.



O treino em si foi tudo menos calmo como idealmente planeado. Houve séries e escadas e cenas que me fazem recordar que sou pouco atlético, pouco flexível e muito desengonçado. Ainda estou a pensar se os glúteos só vão doer amanhã ou se eu fiz tudo de forma tão incorrecta que nem sequer chegam a doer.

A companhia foi agradável como esperado. É sempre bom passar para a vida real quem nos acompanha virtualmente. Obrigado! E sim, isto dos ténis foi fixe mas foi apenas a cereja no topo do bolo!

Mas... falando dos ténis... fiquei  logo agradavelmente convencido quando me foi dito que os Solar Boost são os seguidores dos meus Energy Boost - os tais que estão a pedir reforma do topo dos seus 1000kms - portanto se eu me dou bem com uns iria adorar os outros. E assim foi, gostei mesmo deles! Veremos o que se segue... O Natal está mesmo aí, não é? 

Por outro lado tenho ali uns Joma StormViper II que ganhei e que ainda não saíram da embalagem e que estava a contar serem os meus companheiros em Madrid. Já que a marca é espanhola e tal, pode ser que ajude. 

Mas... Adidas...!


segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Maratona de Valência

Não, caros leitores, não fiz a Maratona de Valência. Participo em muitas provas, mas ainda não tenho o dom da omnipresença, pelo que não conseguiria estar nos Descobrimentos e em Valência ao mesmo tempo. Notem que eu digo que ainda não tenho... 

O que foi omnipresente na minha semana foi o acompanhar dos dias finais de preparação para a prova e de todas as sensações boas e não só que isso acarreta. As borboletas no estômago, as ansiedades, o querer que a prova comece e não querer que ela termine para se desfrutar do ambiente e da festa, mas ao mesmo tempo querer terminar e cruzar a meta.

Acompanhei, sobretudo, a preparação do João Lima que foi a Valência concluir ontem a sua décima, juntamente com o Vítor e a Isa que atingiram a mesma marca. E estava no sábado à tarde a trocar umas últimas mensagens de apoio com ele quando entrei no Instagram e vejo... isto:


Ali está o nome do João no mural de atletas inscritos para a prova. Mas... Espera lá... 
Pois é, quis o destino que eu estivesse também a acompanhar o Fábio Lima e há a coincidência, na qual eu nem tinha pensado antes, de ambos terem o mesmo apelido e ali terem estado lado a lado.

Depois terminaram a prova bem distantes, um ligeiramente abaixo das 3:30 e o outro um pouco acima das 4:50, mas ambos verdadeiramente felizes e com muitos motivos para se sentirem orgulhosos com o seu desempenho. É essa também a beleza da prova rainha!

Ao João, ao Fábio, à Isa e ao Vítor deixo aqui os meus sinceros votos de parabéns por terem completado mais uma Maratona e um agradecimento por serem os atletas e as pessoas que são que nos inspiram para continuar neste mundo. Acompanhem-nos também nas suas aventuras. Prometo que não se vão arrepender!


O regresso às origens - Descobrimentos 2018

"Tu já descobriste a tua fórmula para o sucesso: é não treinares durante a semana!"

Foram estas as palavras que eu ouvi quando disse, ao telefone, qual tinha sido o desfecho da Meia Maratona dos Descobrimentos. Na verdade, apesar de não andar desmotivado para correr, ando super preguiçoso. Depois de amanhã faz um mês desde a Maratona do Porto e desde então eu fiz três provas (Luzia Dias, Meia de Évora e a Meia dos Descobrimentos hoje) e UM treino! Um mísero treino que me correu super mal. Isto é algo que tem obrigatoriamente que mudar porque já não me vai ser possível colher mais frutos do trabalho feito pré-Maratona - e que, já agora, continuo a dizer que foi algo incompleto para o que queria originalmente.

Continuando... Corria o ano de 2014 quando uma certa e determinada pessoa me disse que estava na hora de fazer uma Meia Maratona. Eu disse logo que sim, sem ter bem noção daquilo em que me estava a meter. Fui e terminei feliz da vida com um tempo acima das 2:17. Voltei lá no ano seguinte para ir bater o meu record pessoal na distância. E em 2016, quando me sentia forte para repetir a dose, apanhei uma chuvada tal que foi o ponto de partida para uma prova que me correu mal. Em 2017 fui apoiar alguns colegas e fiquei na meta a fazer reportagem fotográfica. Em 2018 voltei ao lado de dentro da estrada. Nota-se que esta prova, também por ter sido àquela onde me estreei na distância, me é muito querida.

A tal falta de treinos, aliada a uma forte dor no peito do pé desde 5a feira deixavam-me apreensivo. Por outro lado, tinha-me sentido confortável em Évora apesar de ter perdido gás na parte final. Sabia que ia precisar de chegar à zona da partida para entrar no espírito da prova e ver como me sentia. E assim foi. Levantei quase todos os dorsais da equipa, combinámos as boleias e hoje de manhã lá estava, qual Pai Natal, a dar sacos de prendas aos colegas que comigo foram nesta aventura. Um pequeno aquecimento desde o carro até à zona do CCB, uma longa espera na fila para o WC e um aquecimento final a caminho da partida. Por falar em WC, desta vez funcionou tudo na perfeição assim que acordei, ao contrário da semana passada. Muitos atletas chegavam também em cima da hora, mas ainda houve tempo para umas fotos. Como fomos estacionar em sítios diferentes, acabámos por só fazer foto da grupo no final e, mesmo assim, ainda faltaram dois elementos.

Comecei bem, a tentar impor o ritmo que tinha planeado para esta prova. Estava muita gente mas dava para circular bem sem grandes problemas de trânsito e foi uma altura onde me cruzei com várias caras conhecidas. O normal, portanto, ao mesmo tempo que também piscava o olho a quem encontrava em sentido inverso na prova de 10km.

Dois quilómetros até Algés e dois quilómetros de regresso até à zona da partida. E sabem porque fui tão rápido no km4? Havia imensa gente a assistir e a aplaudir. Neste primeiro retorno deu logo para ver a Inês nos 10km e a Inês nos 21km, para além da maioria da malta da equipa. Fiquei contente que para mim os retornos são quase sempre passados a olhar para o outro lado da estrada. A partir daí atentem bem no meu ritmo certinho a 5:25m/km que se haveria de repetir ao longo de vários quilómetros. Foi um misto de ter metido na cabeça que era o ritmo a que queria terminar a prova com o facto de ter apanhado boas lebres involuntárias ao longo do percurso. Uma delas é a... Inês que corre por uma das várias equipas dos bancos do nosso país e outra era uma atleta com a camisola dos Évora Night Runners, mas cujo nome não sei, sendo que também não a encontro na classificação final. Deve chamar-se Inês, de certeza. Lá fui, fui, fui... E notei que, tal como na Luzia Dias, estava menos comunicativo. Poucas eram as vezes em que interagia com outros atletas, mas ia sempre atento a quem me rodeava. Queria mesmo manter-me naquele grupo de atletas que iam a um ritmo semelhante ao meu e estava a cumprir à risca os planos que trazia, não na manga, mas na mão. Sim, na mão.



Ora bem, o meu record na Meia vinha do Douro Vinhateiro em Maio deste ano com um tempo de 1:54:56, o que dava uma média de 5:27m/km. Assim sendo, na noite anterior tinha escrito na mão os parciais aos 5, 10 e 15km para um ritmo de 5:25m/km e a comparação com o record do Douro. "E foste escrever na palma da mão que é logo um sítio onde transpiramos muito?" - perguntou-me um colega quando lhe mostrei uma espécie de borrão que tinha no final da prova. De acordo com o meu padrão de aprendizagem, escrever é uma boa maneira que eu tenho de assimilar conhecimentos. Acima disso, sou uma pessoa muito visual, portanto as 50 vezes que olhei para a mão antes de ir dormir fizeram com que tivesse acordado sabendo de cor e salteado que tinha que passar com 27, 54 e 1:21 para estar com tempo de record pessoal. Para minha agradável surpresa, passei sempre abaixo do que tinha escrito. Yes! A motivação estava sempre em alta!

Tive receio do empedrado a partir da zona do Cais do Sodré até ao Terreiro do Paço. Achei que estava a perder velocidade, mas percebo agora ao ver no Strava que até aumentei um pouco ritmo nessa zona. Ia super focado e com muito cuidado para não pisar em falso. O gel já tinha sido tomado pelos 9km e se calhar tinha um efeito psicológico positivo, para além de ter cumprido a sua função original. 

Passo a passo, quilómetro a quilómetro, as pequenas metas iam sendo ultrapassadas. Agora o foco era rumar a Santa Apolónia para novo retorno. Ouço gritar o meu nome algumas vezes, grito um ou outro nome também mas o mais natural era esticar o braço para dar uns high-5 ou simplesmente para acenar ou levantar o polegar. Ora agora vamos para trás e dar um saltinho ao Rossio. Até tive suores frios por me lembrar que foi lá que a minha prova "terminou" em 2016. Desta vez tudo correu pelo melhor e o quilómetro 14 mostra isso. Incomodou-me que numa zona tão cheia de gente apenas 4 ou 5 pessoas tivessem reagido à nossa passagem mas como já estava à espera que assim fosse segui viagem de olhos postos na estrada, no relógio e no que faltava para terminar a prova. Ansiava pelos 15km para confirmar que continuava com alguns segundos de margem até ao final. E estava! Agora a luta era cada vez mais intensa com as pernas que estavam a sentir-se muito massacradas. Tenho cada vez mais a confirmação que foi a última prova feita pelos meus Adidas Energy Boost que estão à beirinha dos 1000km. Falarei disso num post em breve. A cabeça, essa, sabia o que queria, sabia ao que ia e tudo iria fazer para cumprir com o objectivo. Estou a cinco quilómetros de bater o meu record pessoal na Meia Maratona! Percebi que tinha perdido uns segundos no abastecimento - não por ter parado, mas porque estava a tentar apanhar um gel da prova que é igual ao que uso mas acabei por apanhar uma barrinha. Meti-a no flipbelt e tirei de lá o segundo gel que levava. Não consigo correr destas barras enquanto corro. 

E agora? Consigo aguentar-me até ao final? Tive dúvidas porque o relógio marcava sempre o mesmo. 5:25m/km... Estaria avariado ou eu tinha metido o piloto automático? O grupo que ia à minha volta era diferente mas igualmente certinho no ritmo. Éramos quase sempre os mesmos pelo que as minhas referências estavam bem identificadas. A única vez que ia perdendo a concentração foi quando me deixei apanhar por uma conversa mesmo atrás de mim em que um atleta motivava duas outras colegas e a conversa girava em torno do seu eterno desejo de fazer striptease de forma profissional ao mesmo tempo que a ___ (inserir um nome feminino, imagino que seria a sua mulher) gostava de aprender a dança do varão pelo que ele ainda lhe ia oferecer um voucher para umas aulas. Eu ri-me por dentro, mas não por fora porque o oxigénio tinha que ser bem gerido.

Foi aqui que passou por mim o Fernando Andrade que eu tentei acompanhar durante umas centenas de metros mas não mais que isso. Ele "deixou-me" junto a um casal onde ele dizia à mulher que ela estava novamente com aquela respiração orgásmica que não era apropriada para correr portanto ela tinha que a controlar. Oh pá, não me façam rir! Mas obrigado pela distração, com isto tudo o ritmo continua igual. Já contaram o número de quilómetros feitos a 5:25m/km?

Eu já só pensava em chegar ao vigésimo quilómetro e ele aproximava-se a passos largos e decididos. Passando nessa marca com cerca de 1:48 era o ataque final à meta. Não me surpreende que o último quilómetro tenha sido o mais rápido. Lembrei-me de tanta coisa. Das lágrimas de alegria em 2014, do record em 2015, do sofrimento em 2016. E embalei pela Praça do Império até ao fim! Não havia cá dores de pernas nem as dores no pé durante a semana. Havia um querer enorme em bater o meu melhor tempo e, eventualmente, baixar para o minuto 53. Ali sim, num último ímpeto era o local ideal para puxar pelo público. Ainda vi os meus colegas de equipa que já tinham terminado. Na realidade, o grupo que foi é muito forte e só um terminou atrás de mim. Descobri entretanto que, tal como a atleta dos Évora Night Runners foi a fazer de minha lebre, também eu fui a lebre deste meu colega que me foi a seguir até aos 12km, altura em que não conseguiu aguentar o andamento. Agradeceu-me imenso no final porque conseguiu bater o seu record pessoal com a minha ajuda involuntária. Porreiro!

A passagem pela meta foi rápida. Lembro-me vagamente de festejar mas nem sei como. Fiz pose para o fotógrafo da praxe que lá estava e encostei-me ao gradeamento. Feliz, muito feliz. O tempo do cronómetro e o tempo do relógio confirmavam claramente o record pessoal, mas não me garantiam se tinha descido ao minuto 53. Seria à justa.

O reencontro com os colegas foi excelente. Quase todos levavam recordes pessoais para casa, podíamos ir festejar após o regresso e assim fizemos. O brinde foi com minis, mas o sucesso foi da Meia!

Foi a quarta vez que marquei presença na prova e o meu histórico é este:









Foi também a terceira vez - uma delas obviamente na estreia - que bati um record pessoal aqui! Só não o consegui em 2016. Hoje foi a minha 22ª Meia Maratona. Esqueci-me por completo de mencionar a efeméride dos vinte e um 21kms em Évora.

O último mês e meio tem sido um fartote de coisas boas: record em provas de 20km, record na Maratona, uma experiência num pódio de escalão em 5km e record da Meia Maratona. Agora era giro bater o record dos 10km no fecho do ano numa prova pouco propícia a isso como a São Silvestre de Lisboa. Tentar não custa e sonhar não paga imposto!

O resto do dia ficou marcado pelo rescaldo desta prova mas também pelo saber de notícias vindas de terras de nuestros hermanos! Sobre isso também falo noutro texto.

Já sabem... para a semana estou inscrito num trail em Alcanena. Wish me luck...! 
 

Prova nº 98 - Meia Maratona dos Descobrimentos 2018 - 21km - 01:54:02