"Força? Só se for para ti que estás no passeio. Desse lado é fácil falar, aqui dentro é mais difícil!"
Foi mais ou menos esta a reacção de um atleta ao meu lado, por volta do
sexto quilómetro, quando alguém no passeio - com camisola da equipa
Viseu 360º e com dorsal colocado - desejou força a uma colega que passava
a correr. O comentário foi meio entre-dentes e só terá sido escutado
por quem estava mesmo ali ao pé dele. Pode ter sido só um desabafo de
alguém a ter um dia mais complicado, mas não gostei do tom da resposta.
Também posso ter interpretado mal, mas não me pareceu de todo ter sido
uma resposta em modo brincalhão. Marquei aquele atleta.
Isto tocou-me também de forma particular porque tínhamos
acabado de passar pelo centro de Coimbra, zona cheia de público a
assistir... em silêncio quase absoluto. À entrada fiz o que faço sempre
que é pedir palmas e barulho e aquilo que ouvi foi o som de grilos,
seguido de um lamento do atleta que vinha atrás de mim. "Ninguém apoia,
ninguém disse nada." Ainda atirei para o ar se não era suposto ser uma
festa, respondeu-me uma das voluntárias a dizer que o barulho que faz é
para nos indicar que há águas ali à frente. É justo. Agradeci, continuei
e concentrei-me nos atletas à minha volta. A partir daí praticamente ignorei a hipotética existência de público, sobretudo porque sabia que saíndo da cidade raras seriam as pessoas que estariam a assistir.
Passa então por mim um grupo de 4 Viriathvs Runners (Viseu deve ser
a cidade do país com maior concentração de equipas por metro quadrado) e
fui na cola deles. Uma das atletas pareceu-me desconfiada porque olhou
para trás vezes sem conta. Eu não disse nada mas devia ter metido
conversa já que ainda fui quase dois quilómetros atrás deles até ao
abastecimento dos 10km. Parou tudo para beber isotónico e eu segui à
frente deles. Voltei a encontrá-los depois da meta. Um dos meus colegas de equipa conhece um deles e trocaram algumas palavras. Tão extrovertido que consigo ser e tão encavacado ao mesmo tempo!
Na segunda metade da prova vinha a parte que eu mais gosto: os retornos!
Vi muitos amigos que iam à minha frente, deu para perceber quem vinha
bem e quando virei vi os restantes elementos da equipa que vinham atrás
de mim. Uma festa cruzar-me com a malta, festa que durou até próximo do
abastecimento dos 15km. Ao meu lado ia seguindo quase sempre o tal
atleta, em amena cavaqueira com outros dois amigos. De entre tantas camisolas de várias equipas dei por mim a puxar pelos Vicentes com quem me cruzava. Desta vez não conhecia nenhum, mas não fazia mal. Apoio é apoio!
Pelo caminho já eram vários os atletas a fraquejar e a caminhar. Fui tentando dar alguma força e energia a quem ia ultrapassando. Passei por uma atleta em particular, do Correr Lisboa, com quem ainda troquei umas palavras. Vamos com 19 quilómetros, 'bora lá está quase, não dá para mais? Resposta negativa, já tinha rebentado. Infelizmente era sempre esta a reacção que tinha e não consegui trazer ninguém comigo na parte final. O que consegui foi ultrapassar o tal atleta, na recta que antecede a entrada na Ponte de Santa Clara. Ainda bem!
Não que o sucesso da prova dependesse disso, mas assim permitia-me concentrar na melhor parte: a chegada à meta. Em primeiro lugar foi preciso desviar-me de quem ia à minha frente para chamar a atenção da ET que estava lá do outro lado da ponte com a dupla tarefa de tirar fotos e de avisar a malta na meta de quem vinha aí. Depois entrando na meta foi ver onde estava a minha claque pessoal com quem tive novamente o prazer de atravessar a meta. Tem sido um hábito nas provas das Running Wonders e dá-me um gosto especial que assim seja.
A prova não terminava ali, ainda havia mais colegas de equipa em prova portanto estava na altura de voltar atrás. Rapidamente chegaram alguns, excepto uma que vinha um pouco mais atrás. Ainda nos preocupou a demora e lá íamos nós à procura dela quando a avistamos no horizonte com o seu maior sorriso. Tive direito a segunda passagem pela meta! Ou como ouvi depois: "Já sei porque quiseste passar a meta com a Maggie: foi para ires beber outra cerveja!" Tecnicamente não foi, mas como ela até não bebeu...
Completou-se assim a terceira presença na Meia Maratona de Coimbra. Infelizmente nunca deu para mais do que uma curtíssimo passeio antes da prova e um almoço sempre na Pastelaria Vénus onde se repõem os açúcares gastos apenas por olhar para a vitrine dos bolos. Seguiram-me mais 200kms de regresso a casa. Coimbra merece um fim de semana prolongado. E merece também uma ida à prova sem ser na antecâmara da Maratona do Porto para poder aproveitar ao máximo a altimetria negativa do percurso e não me retrair no ritmo. Para o ano, talvcz. Veremos. Foi a minha vigésima Meia Maratona e foi o meu quinto melhor tempo de sempre. Aproveitando a descida inicial para embalar e fazendo o resto em "ponto morto". Um dia que lá vá e acelere logo se vê o que acontece. Ou faço um tempo canhão - para as minhas possibilidades - ou rebento a meio e não acontece nada.
Faltam duas semanas para o grande dia. Senti-me melhor que na Meia da semana anterior, sobretudo na zona intermédia da prova nos locais mais "chatos". Repito aqui o que já disse hoje: estou confiante, mas sem nunca perder o respeito pela distância.
Próxima paragem: Almeirim!
Prova nº 93 - Meia Maratona de Coimbra 2018 - 21km - 01:57:48






