"Eu
vou devagarinho, vou só para curtir a vista e ficar a conhecer o
percurso. Vamos todos juntos e fazemos 1:40." - foi este o mote dado
pelo nosso amigo e colega de treinos que é uma flecha.
"Isso
são mais de 15 minutos abaixo do meu record pessoal (1:57:08 - Coimbra 2017), nem penses nisso."
E nem a mudança de planos para 1:50 me convenceu, se bem que ele tinha
razão quando dizia que às vezes é preciso um empurrão extra para sair da
nossa zona de conforto. "Eu quero ir a 5:30m/km, tudo o que for abaixo
disso é lucro." - rematei minutos antes da partida.
Meus
caros, eu estava empatado com esta prova e hoje era o dia D, de
desempate. E não ter treinado nas duas semanas anteriores não era grande
augúrio, pois não? Pois. Andar com desarranjo intestinal desde a
madrugada de 4a para 5a também não foi fixe. Em cima da barragem do
Bagaúste sentia o Flipbelt a pressionar-me essa zona... e ter que me
colocar de cócoras para voltar a apertar os atacadores dos ténis também
não ajudou. Felizmente esqueci-me disso assim que tudo começou.
O
pré-prova foi muito porreiro, sempre em excelente companhia e só por
causa disso já estava a prova ganha. Obrigado pela companhia, do fundo
do coração! Uma viagem longa mas que vale sempre a pena fazer quando
vamos bem acompanhados.
Já
na 6a tentei combater a coisa é acabei por ter uma pasta party caseira.
A oficial foi no sábado à noite e foi muito melhor que a do ano
passado. Na Régua, inspirados pelo tal colega que só ia passear, a coisa
teve Favaios em dose dupla, já depois de ter tido paragem obrigatória
pelo Bar 21 com um copo de branco. Isto explica a razão pela qual eu
ainda sinto a boca seca.
Voltando atrás, é por causa destes momentos que
vale a pena fazer estas aventuras.
Por falar nisso, assim que entramos no secretariado para levantar os dorsais, quem é que eu encontro? O
André, cuja página e desafios tenho andado a seguir desde o seu início. Reconhecemo-nos quase imediatamente e percebemos que ambos íamos à pasta party, portanto havíamos de voltar a falar.
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| Pasta Party caseira com massa integral na 6a |
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| Pasta Party oficial no sábado |
Dorsais levantados, "login" feito no hotel e regresso ao Museu do Douro para o jantar. Ao entrar descobrimos que ainda estava menos gente que no ano passado, mas que o espaço estava mais requintado. E a refeição não desiludiu. Estar pouca gente até foi melhor, foi tudo tão tranquilo que era o que estávamos todos a precisar depois da longa viagem. E já estava o André a a
Sofia, com quem estive à conversa. Foi um prazer conhecê-los e ter a oportunidade de transportar para a "vida real" esta malta com quem comunicamos apenas atrás de um teclado vale muito, porque são estas as medalhas e os recordes que ficam. E percebemos que no dia seguinte tínhamos autocarro marcado para a mesma hora. E, sem combinar, lá nos encontrámos à hora prevista.
Houve Favaios, disse eu. A meio da tarde com cerveja depois de levantar os dorsais e depois de jantar como digestivo com o café. A malta abusou? Diz que sim, um bocadinho, mas a ideia era fazer da prova uma festa e estávamos rodeados de muitos amigos.
Este ano mudámos de Hotel - a primeira opção era o Columbano, mas o meu colega que tratou disto já tinha estado no
Império Hotel. A escolha foi óptima, sobretudo pela proximidade da estação da Régua, local da partida dos comboios e autocarros. A noite passou depressa e nem sequer senti que tivesse dormido tão bem quando gostaria, mas acordei tranquilo, com aquela calma de "Este gajo sempre que diz que vem sem pensar em tempos faz sempre grandes resultados!" e foi assim que cheguei ao pequeno-almoço, não sem antes decidir à última da hora que não ia levar música. Dali até à Barragem do Bagaúste foi um tirinho, já com a equipa toda reunida. Felizmente optámos por partir mais tarde que em 2017 e assim o tempo de espera antes da partida foi menor. Após a típica separação da Mini e da Meia, estávamos todos nos locais certos para partir para as nossas provas. E nós estávamos bem mais à frente do que o habitual, o que vinha dar alguma razão à nossa ideia que estaria, possivelmente, muito menos gente este ano. É que na noite anterior o ambiente na cidade era quase inexistente, pelo menos na zona onde andámos. A chuva que começou a cair de forma acentuada e a final da Champions League explicavam tudo?
E se chovia na noite de sábado, a manhã de hoje acordou encoberta mas durante pouco tempo. O calor já se fazia sentir e eu estava todo contente, apenas pelo facto de poder justificar a minha nova aquisição e que ia estrear na prova: um boné de corrida! Eu sei experimentar coisas novas em dia de prova é um erro, mas como nesta semana não treinei (novamente) não tive oportunidade de o testar. Passou no teste com distinção, já agora.
Então e vamos correr? Vamos a isso. Sempre a 5:30m/km ou um pouco menos, se possível.
A prova para mim tem três partes: da Barragem até ao retorno, do retorno até à Barragem, da Barragem até à Meta.

O começo é sempre um momento onde tentamos ganhar a melhor posição no pelotão. Rapidamente perdi de vista os restantes elementos da equipa. Vi a flecha ir lá para a frente, pelo menos um colega ir com ele e os restantes teriam ficado para trás. Sem música, sem companhia conhecida, mas no meio de muitos atletas fui tranquilo, ao ritmo que a tabela mostra. Fui fixando outros companheiros de pelotão que também iam por ali ao mesmo ritmo e ia apreciando a paisagem. Tranquilidade era mesmo a palavra de ordem e os quilómetros iam passando com o relógio a dar-me boas notícias. A prioridade era mesmo refrescar-me e apanhar água em todos os abastecimentos porque o calor apertava a sério. Deixei-me ir quase sempre com as mesmas caras e camisolas por perto até começarem a passar os primeiros atletas vindos do retorno: primeiro os da prova de 21km em cadeira de rodas e depois os nossos onde eu procurava encontrar as caras conhecidas da equipa e não só. Não vi todos, nem todos me viram, mas é sempre dos momentos que me permitem esquecer algum eventual cansaço que, na altura, não sentia.

Logo após o retorno passei um dos meus colegas que me pareceu ter quebrado muito cedo - e comprovei isso pelo tempo final. Dei-lhe umas palavras de força e continuei. Chego ao décimo quilómetro exactamente com 55:00 marcados no relógio. Ritmo perfeito para o que queria, mas agora era preciso manter na segunda-metade-mais-o-km-final. Tomei o gel conforme planeado e o André passou por mim. Estes quilómetros do 11 ao 15/16 até regressar à Barragem são sempre os mais difíceis para mim psicologicamente e eu já estava a sentir que estava a ficar desgastado, mas seguir a poucos metros dele e ir mantendo o ritmo e a distância estavam a ajudar-me. O Strava explicou-me entretanto a razão pela qual achei que estava a custar-me mais fazer esta parte. Vejam lá bem. Confesso que no fim não sei se lhe agradeci ter sido a minha lebre sem saber, mas se não o fiz hei-de fazê-lo. Nem quis olhar muito para o relógio nesta fase porque tive receio de ver a média a piorar e isso ia deixar-me desanimado. Afinal...
E chegou o quilómetro 16 onde a coisa piorou... Perante a promessa de água fresquinha - o resto daquela que levava comigo estava quente - fiquei atento ao momento do abastecimento, mas a loucura para as garrafas era imensa. Acabei por ter que optar pelo Red Bull e no meio de tantos copos agarrei... numa lata! Que estava quase cheia. E super fresca! Tentei beber em andamento, tal como já tinha conseguido fazer com o copo de Isostar uns quilómetros antes sem ter que abrandar muito, mas engasguei-me ao primeiro gole, ao ponto de outro atleta se ter assustado e me ter logo perguntado como estava e recomendado cuidado. Parei uns 20 segundos, bebi e segui. Gostava de ter levado água para o resto da prova, mas paciência.

Era a entrada na última etapa. Nesta paragem perdi de vista o André, mas estava novamente com outro grupo que já me tinha acompanhado durante largos metros antes. Não fiquei ali muito tempo e zarpei para tentar recuperar os segundos perdidos. Acelerei tanto que quando dei por mim ia abaixo de 5:00m/km. Aguenta os cavalos, rapaz, que não consegues fazer isso até à meta. Estabilizei aos 18km, na tentativa de perceber se aquela paragem seguida de um esticão tinha feito estragos. Achei que tinha, ao ponto de me ter baralhado a matemática. E na viagem de regresso a minha malta mais próxima ainda gozou comigo porque eu sou certinho nestas coisas e, por alguma razão, naquele quilómetro achei que a continuar a um ritmo de 5:30 ia acabar com 1:58, algo longe do objectivo que tinha. Não sei que contas fiz, não faço ideia. Fiquei com isso na cabeça e pensei que fazer menos de duas horas é sempre um resultado simpático e ficava satisfeito na mesma. Entretanto vejo ao longe a Lúcia, de quem já aqui vos falei e que encontro sempre nas provas da Running Wonders. Decidi que a ia tentar apanhar e eventualmente fazer aqueles últimos quilómetros com ela. Trocámos umas rápidas palavras, percebi que eu ia com melhor ritmo e segui com a promessa de falarmos melhor no final. Estava finalmente na ponte pedonal que nos leva a entrar na Régua e perante o maior número de espectadores comecei a puxar por eles e a dar cinco a quem esticava a mão. A Lúcia passou-me mais ou menos nessa altura. Teria ido buscar forças para o quilómetro final, talvez. Disse-lhe para dar tudo até à meta que tínhamos tempo para descansar depois. Já só a vi logo a seguir à meta. Chegada ao quilómetro 20. E o relógio marcava 1:48 e qualquer coisa e... espera lá! Se é assim afinal estou melhor do que tinha pensado! Pernas para que te quero. Agora as contas eram fáceis, tinha que fazer o último quilómetro-mais-quase-cem-metros em seis minutos. Entrei em modo "faca nos dentes e coração na boca" mas aquela recta até à meta parecia interminável, mesmo comigo a tentar abstrair-me de tudo e a continuar a pedir apoio ao - cada vez mais - público. Foi brutalmente importante ver a nossa dupla da Mini ali no passeio próximas dos metros finais para dar aquele boost final e com tudo o que tinha e não tinha acabei e parei o relógio com 1:55:03! Gritei de alegria ao mesmo tempo que pensei "Estúpido, menos quatro segundos parado e era épico!"
Medalha na mão, ergui-a ao alto e fotografei na minha memória aquele momento só para mim. A não ser que alguém o tenha capturado em imagem, mas penso não haver fotógrafos naquela zona híbrida depois da meta e antes dos stands. Foi com muita alegria também que comecei a ver colegas e amigos - Sofia e André novamente incluídos neste lote - e que a malta da equipa estava prontinha a pedir cervejas. Não vos digo quantas bebi antes de irmos embora de regresso ao hotel.
Prova concluída e sim, record pessoal batido no Douro Vinhateiro pelo segundo ano consecutivo. Estou a ganhar 2-1. De volta ao hotel era hora de aproveitar o late check-out para tomar banho antes de se pensar num sítio para almoçar. O anho estava muito bom e foi regado com vinho tinto, que até é coisa que eu não costumo beber. À mesa conversava-se sobre a prova e dava uma preguiça aliada a uma vontade imensa de ficar mais uma noite. Repete-se a promessa de voltar noutra altura fora da prova para apreciar ainda mais e melhor aquela zona lindíssima do nosso país. E a promessa de regressar em 2019, naquela que é uma das duas provas - a outra é o Fim da Europa - onde eu disse que só ia uma vez para ficar a conhecer e onde já marquei presença pelo terceiro ano consecutivo. Curiosamente no restaurante estava alguém com uma camisola do Fim da Europa misturada com várias outras do Douro Vinhateiro. Agora comparem os slogans e vejam lá se não faz sentido.
Corrida Fim da Europa - "Dificilmente haverá corrida mais bonita"
Meia Maratona do Douro Vinhateiro - "A mais bela corrida do mundo"
Deixo-vos só com mais umas fotos, antes de perceberem a razão pela qual dei um salto de alegria ainda maior do que na meta quando já estava em casa, de pijama vestido, e abri o site das classificações.
Prova nº 87 - Meia Maratona Douro Vinhateiro 2018 - 21km - 01:54:56
Yesssssss!!!!! Tempo oficial dentro do minuto 54!!!
E alguém ainda se lembra que eu andei - e ainda ando ligeiramente - com desconforto intestinal? É que nem eu me lembrei (excepto em cima da barragem), a avaliar por tudo o que comi e bebi neste fim de semana!
Acabaram as provas em Maio. A próxima será apenas nas Fogueiras, em Peniche. Agora já posso pensar nos planos de 5a feira e nos outros que estamos a preparar internamente.