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segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Maratona do Porto 2018

Concluí ontem no Porto a minha terceira Maratona, mas fui menos feliz que no ano passado. Seis minutos e quarenta e um segundos menos feliz, para ser mais preciso, pois foi esse o tempo que tirei ao meu record que trazia de 2017! Nem vale muito a pena guardar suspense até ao fim, tendo em conta que já tinha partilhado o resultado nas minhas restantes redes sociais. E mesmo que não o tivesse feito, no domingo quando a malta se sentou para almoçar e eu tive finalmente disponibilidade para ligar o wi-fi no telemóvel já tinha recebido duas mensagens de parabéns pelo record! Obrigado por isso! Quem corre sabe bem a importância do apoio que vem de fora, mas vocês não têm noção do quanto isso me ajudou ontem a chegar ao fim. Obrigado, 42,195kms de obrigados!

Seis minutos e quarenta e um segundos menos feliz? Claro, quanto mais tempo corro mais feliz fico!

A aventura para o Porto começou praticamente na altura em que tinha terminado a Maratona do ano passado. Já sabia que iria voltar e aproveitei a típica promoção de fim de ano para fazer a inscrição, mesmo que o preço fosse um pouco superior e que a pasta party tivesse sido à parte em vez de estar incluída. Sabia também que iria comigo à prova um grande amigo e colega de equipa, pelo que o fim de semana iria ser em excelente companhia e com muito apoio das respectivas famílias do lado de fora do gradeamento!

Ultrapassando algumas questões logísticas inesperados com o hotel - este ano foi tudo muito estranho - lá chegámos à Alfândega para levantar os dorsais, beber daquele espírito e acabar com o reforço de hidratos de carbono. Foi também aí que comecei a ver muitas caras conhecidas o que ajuda sempre. Aliás, a primeira cara conhecida que vi até foi o João Lima na estação de serviço da Mealhada. 


Muita brincadeira e boa disposição, muita ansiedade e lá fomos até Matosinhos fazer o check-in, relaxar um pouco, jantar e dar um curto passeio antes de regressar à base para preparar tudo para as emoções do dia seguinte. Eu não dispensei a tradicional foto nocturna à Anémona.



A minha preocupação era sobretudo uma: a que horas ia começar a chover? Isso ia fazer toda a diferença! Fazer 10km à chuva é bem diferente de fazer 42. As previsões iniciais diziam que só chovia a partir do meio-dia, depois a actualização dizia ser a partir das 9h e eventualmente a partir das 7h. Já sabia que não ia escapar a uma boa molha.

A manhã acordou sem chuva, mas ela apareceu durante o pequeno-almoço. Já agora, o hotel que é pequeno estava carregado de atletas como nunca vi nos últimos anos! Fomos os últimos a sair, mas ainda a tempo da prova. Tínhamos marcado foto de equipa às 8:30 com a restante malta presente, mas à hora que chegámos não estava lá ninguém portanto tirámos nós e acabámos por nos cruzar com o restante pessoal durante os retornos da prova. E lá fomos, uma dupla da maratonistas, a nossa ET na Family Race e o resto da falange de apoio na caminhada, mas a fazer uma maratona por fora e a dar high-5 sempre que possível a quem passava enquanto esperavam por nós.

O plano que tínhamos era mais ou menos simples e ia adaptar-se ao longo dos quilómetros. O meu colega, Gajo da ET, é um gajo com pouco juízo no que diz respeito a gerir esforço portanto estipulou que se ia agarrar a mim até meio da prova e depois logo se via como se iria sentir para a segunda metade. Eu agradeci a companhia - e o elogio relativamente ao meu juízo - e aproveitei também para ir ligeiramente mais rápido do que planeado nessa fase, mas nada que fosse ter grandes implicações negativas no cansaço final. Relativamente à companhia, fiz as contas e nas três maratonas que tenho no currículo apenas fiz cerca de 32 quilómetros sozinho. Ou seja, sem nenhum colega de equipa ao lado.

O ritmo que eu tinha em mente era a rondar os 5:50m/km, mas se fosse a 5:45m/km também não era mau de todo. Depois de uma fase inicial a ganhar posição no pelotão passou por nós a bandeira das 4:15 e fomos confortavelmente atrás dela até que quase sem querer a ultrapassámos com relativa facilidade. Percebemos que ou fomos nós que aceleramos um pouco ou ela tinha reduzido o ritmo e estava também a estabilizar o andamento. O que é certo é que fomos bastante tempo à frente e sempre de olho no outro lado da estrada quando apareceram os primeiros retornos. Conseguimos ver parte da malta da equipa, para além de mais malta amiga. Rapidamente estávamos nos 5kms à procura da nossa claque que encontrámos sem problemas apesar da quantidade de gente ali presente. Tudo tranquilo, ambos a um ritmo saudável para as nossas ambições. E quando acelerámos na descida até foi ele a comentar isso, ao que eu respondi que sabia mas que já voltávamos ao planeado. A ida até ao porto de Leixões e regresso à rotunda da Anémona fez-se num ápice, novamente entre bom ambiente, procura de amigos e colegas e sorrisos. Recordo-me que a certa altura ouço algo - que já nem me lembro o que foi - vindo de dois atletas atrás de mim e a minha reacção imediata, sem olhar, foi: "Temos Pernetas por perto, chegou a festa!" "É isso mesmo!" ouvi em resposta. Bem antes disso também já tinha visto o Carlos nos quilómetros iniciais. Outra cara que é sempre um prazer rever. Mais tarde haveria de encontrar a Dora a quem desejei força, sem ela fazer ideia de quem eu era, suponho eu. Mas essa é uma das belezas disto de correr, sobretudo numa Maratona. 
Encontrámos a ET, seguimos em direcção à Anémona, o João Lima passou por nós e desejou-me força para me tornar tri-maratonista. Pequenos momentos que muita importância teriam lá mais para a frente. Chegámos ao ponto de separação das provas, vamos lá fazer mais 30 quilómetros que os primeiros 12 passaram a voar.

Como habitual, nota-se logo que algo mudou. Menos atletas em prova, menos público na estrada. Não que o apoio tivesse desaparecido, mas as zonas de Matosinhos, Parque da Cidade e Anémona têm sempre uma moldura humana brutal. Agora a interacção era mais com colegas de estrada. A chuva - sim, já tinha começado a chover - afastou naturalmente algum pessoal, mas o Porto nisto não desilude e quem lá estava fez sempre os possíveis para dar força aos atletas. Portugueses, estrangeiros, não interessava!

Nós continuávamos ao nosso andamento, nada de novo. Mesmo. Ele ainda me perguntava se não estávamos a ir muito depressa para o que eu queria e eu ia olhando para o relógio para confirmar que aquilo que ele marcava batia certo com o que as pernas sentiam. Um pequeno início de cansaço era amenizado com o segundo gel, também dentro do planeado. Ele também tinha uma estratégia de gel que correu bem. À beira da estrada havia malta num café a quem eu pedi imperiais. Não tinham, mas havia finos! Esqueci-me de onde estava e ele corrigiu-me no imediato. À nossa frente um atleta tinha o telemóvel no bolso dos calções com a luz do flash ligada. Quando o alertámos ele solta um "Fogo, tenho um pirilampo no rabo, carago!" Agora metam sotaque do norte nesta frase e estamos no ambiente certo. Carago! 
Em sentido contrário vimos os primeiros classificados, batemos palmas e comentava-se o ritmo frenético a que vão. E recordámos o vídeo da passadeira a simular a velocidade do record do mundo da Maratona batido em Berlim e a impossibilidade de fazer sequer um quilómetro àquele ritmo, quando mais 42!

A segunda fase da prova estava a terminar. Passagem aos 20km, a confusão habitual naquele abastecimento que é o primeiro a ter reforço sólido. Consegui tirar duas embalagens de gel para substituir os que tinha tomado. O facto do gel oficial da prova ser exactamente aquele que tomo facilitou esta questão e deixou-me muito mais tranquilo. A passagem pela ponte Dom Luís é sempre um marco da prova. É preciso algum cuidado na zona antes da ponte porque o empedrado a descer pode causar alguma escorregadela inadvertida, sobretudo com as condições climatéricas de ontem. Já disse que estava a chover? Ele avançou um pouco e eu tive cuidado extra ali. Depois começo a ver o mar de gente habitual e não me contive nos gritos, nos pedidos de palmas e de barulho. Tive imenso retorno, malta a gritar o meu nome, malta a dizer-me que quando eu passar de regresso ao Porto ali estarão para apoiar novamente. E fiz um sprint tão grande para o apanhar no meio desta loucura que fiquei sem fôlego, mas valeu muito a pena. Nem eu sabia o quanto, naquela altura! Agora era uma altura em que teríamos que tomar uma decisão e ela aconteceu sem sequer falarmos. À passagem pelo pórtico da Meia Maratona eu abrandei ligeiramente o ritmo e ele seguiu no mesmo andamento. Isto foi tão natural que ele nem se apercebeu. O nosso trabalho de equipa em conjunto terminava aqui: ele tinha mantido o juízo durante metade da prova para não rebentar muito cedo e eu tinha feito uma meia maratona em boa companhia e ia agora fazer a outra meia até à meta a tentar continuar a gerir o esforço. Ele só rebentaria aos 33km, mas a marretada foi bem mais suave do que ele temia. Eu rebentei aos 26/27km. Pois.
Ainda antes disso vieram momentos engraçados. No espaço de um ou dois minutos tive um atleta do Correr Lisboa a desejar-me força e chamando-me pelo meu apelido! Logo a seguir alguém que me incentivou através do nome da equipa e atrás dele outro atleta que me chamou pelo primeiro nome. Confesso aqui que não reconheci nenhum destes três atletas e fiquei à nora enquanto ia ouvindo estes incentivos "anónimos". Da mesma forma, vi também o outro maratonista da equipa que ia bem, juntamente com outro amigo nosso que estava a lutar contra uma gripe e posteriormente o André que fez uma marca excelente na sua prova!

Decidi também dar uma de apoiante anónimo e quando vi a Susana passar gritei-lhe um "Força Unicórnio!" Apoio nunca é demais, pois não?

Com isto vinha o abastecimento dos 25km onde fiz uma pequena pausa para hidratar, respirei fundo e segui!

E quebrei. Foi um misto de muita coisa: pés frios, esforço extra por causa da chuva e do empedrado, não sei, foi tudo junto. Gelou-se-me tudo, desde o coração à cabeça, passando pelo resto do corpo. E o pior foram os fortes espasmos que comecei a sentir no joelho direito. Tentei continuar a correr, mais devagar, mas em breve tive que caminhar pela primeira vez. E os espasmos iam e vinham. Quando desapareciam ganhava forças e esquecia, mas quando voltavam ficava assustado. E ao quilómetro 27 da minha terceira Maratona pensei pela primeira e única vez que não iria conseguir acabar.

Só pensava em voltar a atravessar a ponte e logo se via o que ia fazer depois disso. Caminhei um pouco, alternei com corrida ligeira e ia dizendo ao joelho que estava a ser parvo. Decidi que não iria passar a ponte a andar, porque aquilo havia de ter imensa gente ainda a apoiar. E assim foi. O que eu não esperava foi ter-me sentido tão emocionado com o apoio do público nessa altura. Tentei conter as lágrimas - que haveriam de cair um pouco mais à frente - e cerrei os dentes! Esta Maratona era para acabar! E quase sem dar por isso estava no abastecimento dos 30km. Excelente! A minha meta já era pensar de abastecimento em abastecimento e ir fazendo o resto em blocos de 5kms. Ganhei ainda novo ânimo ao ver o marcador de ritmo das 4:15 a passar do outro lado e o meu colega de equipa logo atrás, com talvez um quilómetro de vantagem para mim. Não estou assim tão mal, pensei! Siga...! Siga durante um quilómetro, porque os dois seguintes foram praticamente a caminhar depressa. Tempo suficiente para apanhar uma conversa entre dois atletas, uma das quais polaca e que completou no domingo o seu 42º aniversário tendo decidido celebrá-lo a correr precisamente uma Maratona. Agarrei-me a exemplos de motivação como este para me manter focado. Ao meu lado passavam dois atletas e um deles dizia que "se isto fosse fácil qualquer pessoa fazia".
Voltar a passar junto à ponte Dom Luís deixou-me novamente emocionado com o apoio contínuo que existia e o cheque-mate deu-se no túnel da Ribeira. Podia estar a passar o Chariots of Fire ou a música do Rocky como nos anos anteriores, mas estar a passar o Don't Stop me Now dos Queen fez-me soltar as lagrimitas que eu andava a conter. Malandros, pá! Ganhei força, ganhei alento! Os espasmos no joelho direito tinham desaparecido, mas agora era a perna esquerda que estava com queixas, talvez a compensar. Nada que me impedisse de continuar a correr. Não era a 6:00m/km, era a 7:00m/km! Não ia era parar! Don't stop me now!

Quando percebi que já via o abastecimento seguinte no horizonte nem acreditei. Eram só mais 5 quilómetros, porque na minha cabeça os dois últimos iam ser feitos com o coração e não com as pernas. Voltei a hidratar com o isotónico da Prozis. Fora dos abastecimentos andei sempre com uma garrafa de água na mão que ia trocando ao chegar a um novo. Foi aos 35km que vi a Dora. E quando retomei a corrida passa o marcador de ritmo das 4:30. Ora, apesar dos vossos desejos e previsões de 4:15, a minha ambição era terminar próximo das quatro horas e meia e seguir ali com companhia parecia-me perfeito para me aguentar. Até pensei que se estivesse bem depois no final ainda ia acelerar mais para acabar à frente.

Está bem, está... Um quilómetro e pouco junto à bandeira e não aguentei mais. Vamos caminhar novamente e esquecer esta coisa do tempo final. Na verdade, desde os 27km que eu nem sequer sabia se ia acabar, portanto estar ali tão perto já era uma vitória. Se tivesse que fazer em 5 horas, fazia. Maratonas há muitas! Seja como for, foi um balde de água fria ver fugir com a bandeira de tempo os objectivos propostos, independentemente do meu sub-consciente saber que me falharam muitos quilómetros na preparação. Voltei a quebrar psicologicamente e meti na cabeça que ia a caminhar o resto que faltava e que se lixe. 

Olhei para o relógio e fiz contas só para ver quantas mais horas ia deixar o pessoal preocupado na meta. A chuva forte que caia deixava-me em pânico. Comentei no final que esperava até que não estivesse ninguém à minha espera e que eu só queria é que estivessem abrigados e/ou no conforto do hotel. Eu haveria de ir lá ter depois. Mas ter olhado para o relógio deu-me o click final de motivação que me faltava. Contas rápidas ao quilómetro anterior diziam-me que se fizesse os restantes quilómetros até à meta a um ritmo de 8:00m/km iria terminar com 4:40! Como era possível quando a bandeira dos 4:30 já tinha ido embora há tanto tempo? A bandeira dos 4:45 devia estar a apanhar-me a qualquer instante. Olhei para trás e não vi nada que indicasse isso. Então ainda consigo fazer um tempo bom? 
Ao mesmo tempo que fazia estas contas pensava que tinha o pessoal a seguir-me pela aplicação e que um quilómetro tão lento ia deixar todos preocupados - confirmou-se, aquele quilómetro deixou o pessoal na meta em pulgas! E não era só o pessoal na meta, era toda a gente que tanto apoio me deu ao longo destes meses! Não era uma questão de desiludir ninguém, não queria nem podia era deixar ninguém apreensivo. Agarrei-me a toda a gente que conheço, a todos os amigos do mundo das corridas, levei-vos a todos comigo! Estavam ali ao meu lado!

E quem é que apareceu também ali ao lado? Um casal no passeio a dar força aos atletas. Na altura eu ia isolado e lá veio a senhora gritar por mim e pelo nome da equipa com uns valentes "Vamos lá"! Era a mesma senhora que há dois anos exactamente naquele sítio me disse que eu ia com demasiada roupa e o senhor que estava ao lado foi o que no ano passado nos gritou por ali que chegar tão longe era para campeões. Foi incrível! E foi novamente com a lágrima a querer cair que lhes gritei energicamente que "Vocês são os maiores, carago! São os maiores!"

Impossível parar depois daquilo! A partir dali foi sempre a correr, excepto por uns segundos no abastecimento dos 40kms. Mais dor, menos dor, mais cansaço, menos cansaço, tinha uma meta à minha espera. E eu só pensava que se fosse ver o pessoal junto ao gradeamento então ia cruzar a meta a chorar copiosamente porque não ia aguentar. Olhava de relance para o relógio para confirmar que a matemática não me tinha enganado. A chuva tornou-se intensa a certo ponto mas nem isso me ia parar, já tinha transformado todos os infortúnios em entusiasmo, todas as dificuldades estavam a uma curta distância de serem ultrapassadas! Para ajudar ainda há um atleta de uma equipa da zona de Sintra que se meteu comigo para dizer à colega que ele ia a rebocar até à meta que isto agora era um tirinho. Olha aqui o N. fresco e fofo ao fim destes quilómetros todos. Eu sorri e disse-lhe que comparado com as provas do troféu das localidades, isto da Maratona era uma brisa.

Passar o quilómetro 40 foi o melhor momento daquela epopeia até ao final. Os dois últimos quilómetros são para fazer sem parar e sempre a acelerar até ao fim. Dei um high-5 à placa dos 41kms e o meu rosto já era todo ele um sorriso rasgado! Ouvir os sons que vinham do speaker naquela zona e ver o recinto da chegada ali tão perto não deixava margem para qualquer dúvida: aquele tipo que teve medo aos 27kms ia conseguir terminar a Maratona! E em grande parte graças ao apoio que veio de fora!

Subida até à meta, quase sem ninguém junto ao gradeamento, mas isso não me fazia esmorecer. Ali à frente consegui ver a claque de apoio que se tinha acabado de colocar estrategicamente segundos antes depois de verem na aplicação que eu estava a chegar. Não houve lágrimas! O que houve foi um grito de satisfação onde libertei tudo aquilo pelo qual passei nesta epopeia. Curva final rumo à meta, novo grito, agarro-me ao símbolo da equipa na camisola e passo a meta em euforia total com um libertar final de emoções de braços bem erguidos no ar. Consegui! Consegui, carago! E agarro-me ao gradeamento a chorar durante uns segundos. Bateu forte, mas passou rápido.

Fui buscar a medalha e ainda soltei um YES de alegria que fez com que a senhora que me ia dar a medalha me tivesse dado os parabéns e pedido um abraço!



A chuva era intensa, ainda fui buscar uma cerveja que nem bebi na totalidade. Agarrei nas ofertas, na t-shirt de finisher e fui ter com o pessoal que estoicamente aguardava por mim. O meu colega fez menos 15 minutos que eu e decidiu que não queria ir andando até ao hotel antes de eu chegar. Obrigado!

No final, depois de um banho quente, tivemos uma muito merecida refeição de francesinhas que nos encheu o estômago. A alma, essa, já estava bem cheia! 



O regresso a casa foi tão ou mais atribulado que a prova em si. Quatro horas de viagem pela auto-estrada debaixo de um dilúvio tal que nos tirava qualquer visibilidade e nos obrigou a vir a não mais que 70km/h durante mais de metade da viagem. Felizmente tudo correu bem no final.

Está feita a terceira Maratona, cheia de altos e baixos, tal como tem que ser. Depois da emoção há-de chegar a altura para analisar mais a frio tudo o que correu bem e mal durante estes últimos meses para depois afinal a estratégia para a quarta.




Prova nº 95 - Maratona do Porto 2018 - 42km - 4:33:49

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Maratona do Porto 2017

Tal como no ano passado, vou demorar bastante tempo a escrever este post. Se por um lado as emoções estão ainda todas à flor da pele, por outro lado ainda me dói a mão esquerda graças ao senhor - um dos muitos, diga-se - que estava a apoiar os atletas à beira da estrada ali por volta do km 37/38. Ele aplaudia e eu, como fiz com outros espectadores activos, estiquei-lhe a mão para lhe dar 5. Ele não só deu 5 como me agarrou a mão com toda a força enquanto gritava o meu nome e o do colega que ia ao meu lado e nos chamava de campeões e dizia que estávamos quase a acabar. E isto prolongou-se por o que me pareceu uns bons 500 metros. Ele parado no passeio a agarrar-me a mão e eu a correr e a deixá-la - juntamente com o resto do braço - para trás. Eventualmente consegui ir lá buscá-la.

A preparação para a segunda Maratona teve altos e baixos. As leituras, o início do plano de treinos e a motivação para repetir a experiência do ano anterior contrastaram com um corte feio no dedo (a cicatriz ainda cá está) e com um acidente de carro (o carro ainda não está cá) ao qual se juntou uma desmotivação de três semanas e uma consequente perda de ritmo que me fez também perder os dois treinos mais longos que o plano indicava. Isto fez com que este treino de 25km tenha sido o meu mais longo. Mesmo assim foi muito melhor que no ano passado onde fiz imensos treinos de 20 e de 21kms mas nunca fiz distâncias maiores. Eventualmente deu-se o click para regressar aos treinos e no meio de tantas palavras de incentivo que recebi a inspiração chegou daqui numa altura em que eu estava a um passinho de tentar meter o meu dorsal à venda. Agradecimentos públicos feitos.

Mas como esta Maratona parecia estar enguiçada na 6a feira começou a desenhar-se outro contratempo que se veio a confirmar no sábado de manhã. A partida foi adiada das 9:00 para as 10:30 e arranquei incompleto rumo ao Porto na companhia de um colega de equipa - estreante na prova - e da namorada. E lá fomos... Tendo já a experiência do ano anterior acabei por ser o cicerone e definir eu os passos a dar. Primeira paragem: Alfândega do Porto.



Assim que entrámos damos de caras com o outro maratonista da equipa que tinha ido de autocarro e que estava de saída depois de já ter almoçado. Segundos depois chega o quarto elemento da equipa, o que ia fazer a Family Race. Combinado não tinha corrido melhor e deu para tirarmos algumas fotos de equipa ali. Levantar os dorsais foi bastante fácil e todo o espaço está muito bem organizado, algo que não me surpreendeu. E isto começou a deixá-los muito entusiasmados. Comentavam comigo que ali se vivia e respirava desporto, se sentia um ambiente único e que toda a gente caminhava orgulhosa de saco e dorsal nas mãos como se estivessem a preparar-se para vencer a prova. Foi o primeiro embate com a grandeza e a emoção da Maratona.


A Pasta Party também foi novidade para mim porque não tinha lá estado em 2016 e cumpriu a 100% com as expectativas. Fosse pelo adiantado da hora ou pela qualidade e quantidade do repasto, ficámos muito satisfeitos e cheios de hidratos de carbono. Pelo meio fomos vendo o que oferecia a Feira da Maratona, recebemos uns brindes e ainda deu para me cruzar com alguns amigos, mas muitos outros ficaram por encontrar nesta altura. Era hora de rumar a outras paragens: eu para o hotel em Matosinhos, eles para casa de um amigo no Porto.

Foi nesta altura que tentei não ficar deprimido. No ano passado esta parte do fim de semana foi passada com imensa companhia, no sábado fiquei sozinho. Até no hotel acharam estranho! Check-in feito foi altura para descansar um pouco e preparar as coisas para o dia seguinte. Notei então que na mochila não estava o meu mini envelope onde guardo os alfinetes de dama e quando levantei o dorsal não tirei nenhuns. Felizmente tinha os Go Grip que foram oferecidos na Scalabis e desta vez até achei muito mais simples colocá-los. Mini stress resolvido. Apesar de ter almoçado tarde decidi que ia jantar relativamente cedo. Antes disso dei uma volta pela cidade a tentar recordar-me das ruas e acabei por jantar um belo peixe assado antes de percorrer a zona junto à praia de Matosinhos rumo à rotunda da Anémona. Foi ali que tirei um momento de reflexão, à luz da lua, enquanto conversava com quem estava à distância e com quem ia fazer a prova no dia seguinte. Sozinho, mas sempre acompanhado dentro do possível.



Na manhã seguinte cheguei bem cedo ao pequeno almoço e como era de esperar encontrei outros atletas e rapidamente metemos conversa uns com os outros. A boa disposição reinava. O meu colega de equipa avisou-me que já estava próximo da partida e lá fui eu ter com ele. Últimos detalhes, um ligeiro engano porque entrámos na onda da Family Race mas rapidamente fomos para o sítio certo. Antes das últimas despedidas perguntei à namorada dele se ela estava pronta. Disse-me que sim, que ia procurar uma esplanada e que seria muito tranquilo ficar à nossa espera. Ela nem tinha noção do que seriam as próximas horas. E lá vamos nós, por capítulos novamente.

Capítulo 1 - dos 0 aos 12kms

Mesmo antes da partida vi umas camisolas familiares e ainda consegui rapidamente cumprimentar o Carlos o que fez com que perdesse momentaneamente de vista o meu colega. Encontrei-o à passagem do primeiro km ao mesmo tempo que vi o nosso outro colega dos 15km. Fomos todos juntos e isso ajudou imenso a passar esta fase inicial. Não havia nervos, havia boa disposição e um lema que ele gritava de vez em quando: "Hoje ninguém desiste!" Também foi bom vermos caras conhecidas nos primeiros retornos. Era um mar de gente ainda atrás de nós e uma moldura humana enorme a apoiar. Ele também gritava "Façam baruuulhoooooooo!" e acabou por perceber que - palavras dele - fez a prova com alguém que ainda faz mais barulho que ele. Ah pois é, a partir de certa altura quem puxava pelo público - mesmo sem ser preciso - era eu.

Não tínhamos combinado nenhuma estratégia. Ele - algo ingenuamente - disse-me que podia ajudar-me a manter o ritmo até meio da prova para eu depois seguir sozinho. Também dizia que queria chegar aos 35km em 5 horas o que lhe deixava uma hora para fazer o resto a caminhar. Eu a única vez que falei de tempos foi quando vimos a bandeira das 4h30m atrás de nós num retorno e lhe disse que era porreiro não deixarmos que eles nos apanhassem. E assim fomos os três até aos 12km. Só havia uma breve separação nos abastecimentos e a seguir reagrupávamos. Ao chegar à rotunda da Anémona a namorada dele lá estava pronta para umas fotos e foi um bom bocado a correr por fora do gradeamento para nos apanhar. Decidimos abrandar e demos um grande abraço de grupo antes da separação das provas. O nosso colega dos 15km ia muito bem e em homenagem à nossa companhia fez a parte dele nos kms finais e manteve o ritmo que íamos a fazer.

Capítulo 2 - dos 12kms aos 21kms

Eu não queria repetir o texto de 2016, mas a verdade é que há muitas semelhanças. A partir dos 12km começa outra aventura e lá não há "misturas" entre atletas que competem por objectivos diferentes. O volume de apoio na estrada também é menor, mas mantém-se constante e volta a atingir um pico ao chegar à Ponte Dom Luiz. Dei por mim a dar-lhe imensas das dicas que tinha recebido em 2016 e ele ia ouvindo com muita atenção tal como eu o tinha feito na altura. Senti-me bem com isso. Disse a um espectador que estava no passeio para não sair dali que nós íamos só até à Afurada e já voltávamos. O ritmo mantinha-se estável, ambos tranquilos, nem sempre muito conversadores entre nós mas a apreciar tudo à nossa volta e a interagir qb com outros atletas que também se metiam connosco. Rimos com alguns cartazes de apoio mais personalizados e aguardávamos por ver os primeiros classificados a passar em sentido contrário. Quando isso aconteceu deu para perceber que o eventual vencedor tinha uma distância brutal para o segundo classificado. Nos retornos em Matosinhos também fiz questão de dar força à malta do Correr Lisboa que via do outro lado e também havia uma claque à beira da estrada nesta zona. A certa altura íamos lado a lado e ele desvia-se para deixar passar uma atleta pelo meio de nós. Ela muito timidamente disse que não queria passar, estava só a aproveitar o nosso ritmo. Pediu desculpa e depois sim passou por nós. Mal sabíamos que ainda haveríamos de fazer mais de 10km juntos. Ontem tínhamos feito esta zona de carro e dizia-me ele que o reconhecimento do percurso estava a ajudar. Porreiro. Também me ri quando passamos pelo primeiro abastecimento em que havia esponjas: "Esponjas? O N. disse-me que não, portanto não!"

Na passagem pela ponte peço palmas e alguém grita o meu nome - lido no dorsal - e depois grita o meu nome completo - lido nas costas da camisola. É disto que eu gosto.


E toca a fazer mais barulho que hoje ninguém desiste!
Apesar deste lema à passagem dos 21km - em 2:07:30 - ele diz-me para eu seguir que ele ia começar a correr mais lento a 6 e qualquer coisa. E eu segui pela primeira vez sem o meu companheiro de aventura.


Capítulo 3 - dos 21km aos 32km 

Nem 500 metros depois ele aparece ao meu lado. E ao nosso lado está também uma cara familiar: a Natasha que há uns quilómetros atrás nos tinha ultrapassado. Lá se quebrou o gelo e ela perguntou se não nos importávamos de a ter ali. Claro que não. "Vamos a um ritmo tranquilo, vem connosco!" dizia ele. E veio. Em conversa disse que estava a fazer a primeira maratona e que tinha receio de estar a dar um passo maior que a perna. Curiosamente ele falou mais que eu sempre no sentido de a acalmar e de lhe dizer que "hoje ninguém desiste"!

Do lado de Gaia o empedrado é uma chatice e muitos tentamos fugir para o passeio sempre que possível. É claramente a zona mais complicada em termos de piso e é desgastante quando já vamos com metade da prova nas pernas. Eu comecei a sentir o vento frio e desesperava por qualquer raio de sol por mais ínfimo que fosse. Fora o vento a temperatura esteve bastante agradável a rondar os 15 ou 16 graus mas nas zonas de sombra a diferença notava-se. Do lado de lá da estrada passava o nosso maratonista-quase-queniano/etíope que se mantinha estável à frente dos marcadores de ritmo das 3h30m. Um high-5 e uma rápidas trocas de palavras de incentivo. Nesta altura já só pensava em sair dali e voltar ao outro lado do rio e aqueles quilómetros custaram bastante. Ainda me cruzei também com o João Lima e mais à frente com os restantes membros dos 4 ao KM: a Isa (primeiro) e o Vítor (depois). Penso que havia outro elemento em prova, mas não me cruzei com ele ou não o reconheci. Também o João me deu palavras de ânimo e disse-me que eu ia com bom andamento.

De facto, só fiquei um pouco para trás mesmo antes de sairmos de Gaia numa altura em que tomei o segundo - e último - gel. Foi um pelos 16km e outro pelos 28km. Tinha em mente um último aos 35km mas prescindi dele. Logo a seguir já estava à frente do duo dinâmico de estreantes que foi a certa altura a marcar o ritmo à minha frente. Que fique registado que toda a prova foi feita em total entre-ajuda e a única vantagem que eu tinha era a experiência de já ter completado uma Maratona e consegui reagir de forma mais ponderada em alguns momentos de maior quebra, daí que depois da ponte já estivesse eu novamente à frente a tentar puxar por eles. Só depois do abastecimento dos 30km me apercebi que já éramos quatro. A nossa companheira de viagem tinha um amigo à espera dela após a travessia da ponte para o lado do Porto. Pelo que nos disseram ele não faz mais que 20km portanto ficou decidido que ele a iria acompanhar dali até ao final da prova. E lá fomos os quatro até aos 32km. "Agora é um treininho até à meta!"

Capítulo 4 - dos 32kms aos 42km

A passagem pelo túnel da Ribeira é um marco da prova. Ali vamos com 32km mais coisa menos coisa. Lá dentro temos várias televisões e colunas a bombar música inspiradora, no caso a theme song do filme Chariots of Fire. Aproximei-me das imagens e tentar absorver aquele momento para me dar força para a parte final da prova. Pouco depois tivemos mesmo que caminhar pela primeira vez. No meu caso o problema nem eram as pernas, mas sim as costas. Estava com dores num misto de má postura provocada pelo cansaço com o vento frio a bater-me na camisola transpirada e que me causou umas pontadas. No caso dele eram mesmo as pernas que já estavam a dar as últimas. Passámos a adoptar definitivamente a estratégia de chegar ao próximo abastecimento e reavaliar a situação. Foi quando passa por nós o grupo que vinha com as bandeiras das 4h30m. Olhámos um para o outro e decidimos tentar ir atrás deles, algo que conseguimos durante um quilómetro, talvez. Eles seguiram à sua vida e nós continuámos até aos 35km. A paragem aqui terá sido mais longa do que o ideal. A mim não me custou mas a ele já foi mais difícil voltar a correr. O conselho de nunca parar mantém-se mas isto na teoria é sempre mais fácil, não é?

A partir daqui a estratégia foi correr um quilómetro e caminhar outro. Ou pelo menos caminhar o suficiente para recuperar energia. Foi também por causa disto que decidi que já nem valia a pena tomar um gel porque iria fazer parte do percurso até ao fim a andar. A certa altura vejo-o a coxear e pergunto-lhe se tinha começado só agora. "Achas? Eu já venho todo fodido desde lá de baixo, pá!" responde-me ele mas sempre a sorrir.

Eu via lá à frente um quarteto com camisolas do Correr Lisboa. Queria tentar apanhar essa boleia porque sabia que seria impecável para seguirmos até ao fim. Não deu, mas não fez mal. Nesta fase era só gerir o esforço, ambos concordámos que demorar mais 10 ou menos 10 minutos era secundário. E ele já tinha chegado aos 35km bem antes das 5 horas de prova, já estava feliz da vida por ter cumprido esse objectivo.

Daqui para a frente o pessoal à beira da estrada bem como os outros atletas que estavam na mesma luta que nós foram importantes para dar apoio, para motivar, para conversar um pouco. Aos 38km, já nem sei se antes ou depois do meu incidente com a mão, um outro senhor dizia que chegar aqui já era para campeões. E numa altura em que íamos a andar passam duas atletas que puxam por nós. Eu respondo que era poupança de esforço para caminharmos ali e correr mais próximo da meta onde toda a gente estava a ver! Ele já se estava a arrastar um bocado mas com estes momentos de interacção ia animando e rindo com os meus comentários. No final da prova uma coisa que ele disse invejar de forma salutar foi a quantidade de pessoas com quem falei e/ou que me reconheceram nos retornos. E também ele ganhava ânimo com isso e tomava a iniciativa de aumentarmos o passo.

Decisão final: caminhar até ao km 41 e correr no último. Já era eu que tinha que o mentalizar que a meta estava mesmo ali. E que a namorada dele estava lá à espera. E que para além disso tínhamos todo um grupo a seguir a nossa corrida na app e ansiosos por nos "ver" chegar ao final. Ele só acreditou nesta parte algumas horas depois. O forcing final também coincidiu com a passagem por uma claque do Correr Lisboa que estava à entrada do último quilómetro. Foi fantástico! Para além disso ele sabia que íamos terminar a subir, mas eu disse-lhe que podia ignorar esse parte porque do lado de fora das grades viria barulho suficiente para nos levar ao colo. Fiz questão de começar a pedir barulho logo ali e o melhor estava para vir quando vemos a namorada dele do lado de dentro do gradeamento a 500 metros do final, de telemóvel em punho a filmar-nos. Se ela tinha visto crianças, esposas e até animais de estimação a terminar com os atletas então quis fazer o mesmo. Não sei se o sprint maior foi o dela ou o nosso, mas só a 50 metros da meta é que ela não nos conseguiu acompanhar. Tempo suficiente para darmos um high-5 e um forte abraço antes de saltarmos para a meta e terminarmos a prova em êxtase total. Este final livrou-me de boa porque a minha ideia era tentar pegar no telemóvel e filmar eu em directo e sabia que isso significava um final em lágrimas. Assim o soluçar de choro ficou apenas do lado de lá da linha no telefonema que fiz segundos depois de acabar. Eu estava feliz, ele estava morto, ela estava mais eufórica que nós! E ainda nem sabíamos a versão dela que foi tudo menos tranquila.

O único momento calmo foi desde que nos viu passar aos 12km até estarmos na zona da Meia Maratona. Nessa altura as solicitações já eram tantas que ela estava entre a rede social e a app sem nunca tirar os olhos da estrada. E nós ainda tínhamos só entrado em Gaia e já lhe pediam notícias da meta! Gente louca esta que nos acompanhou - sem nunca deixar queimar o almoço - e que ainda teve tempo para fazer um treino de manhã. São os maiores! 42,195 obrigados! E alguns estarão no Porto para o ano, é certinho!

Depois disto vinham os momentos habituais, mas colocarem-nos a medalha ao pescoço foi o mais especial. Começámos e acabámos juntos e embora ele me tivesse dito algumas vezes nos quilómetros e até nos metros finais que eu podia e devia acelerar para ainda fazer um tempo melhor isso nunca me passou pela cabeça. A amizade aqui era o mais importante, tal como tinha acontecido comigo no ano anterior. E, já agora, recordo que na altura ter ficado sozinho foi a melhor opção!

Brindes recebidos e o ponto alto da gravação da medalha - ambas as medalhas neste caso. Não sei se ele vai voltar a fazer uma Maratona. Isto é uma prova que depois de fazer ou se adora ou se odeia.

No regresso a casa foi altura de contar todas as 1001 histórias de quem viveu a prova por dentro e por fora. Foi altura de rir com muito do que foi escrito por quem nos acompanhou, foi altura de começar a ver fotos e tempos de muitos amigos. E reacções e comentários e mensagens de parabéns. Foi altura de recordar os bons e maus momentos que ficarão para sempre guardados na nossa mente.

Tenho a certeza que já me lembrei e esqueci de muitos detalhes com que vos iria continuar a aborrecer e que prolongariam este texto até à Maratona de 2018 - ou pelo menos até à abertura das inscrições. Por falar nisso, já nos podemos voltar a inscrever? Eu não sei se ele vai voltar a repetir uma Maratona. Aceitou o desafio para esta mas não é a praia dele. No meu caso não tenho dúvidas que voltarei a estar na linha de partida, corrigindo erros do passado e aceitando que nem sempre a preparação corre como nós gostaríamos mas sempre com a certeza de correr feliz durante a maior parte da prova e de terminar orgulhoso do que farei independentemente do que marcar o relógio.

Desculpem, acho que falhei a promessa que fiz em 2016 de não escrever tanto na Maratona seguinte.

Seguem-se uns dias de recuperação activa que já incluíram subir até ao 5º andar do escritório onde trabalho por problemas nos elevadores e uma boa caminhada depois do trabalho por problemas da Carris. O regresso aos treinos está marcado para 5a feira. O regresso à escrita está marcado para breve com uma pequena curiosidade - ou mais se me lembrar entretanto - sobre a Maratona. Lembram-se da Lúcia que tenho encontrado nas Running Wonders? Pois.

Próxima paragem: Meia Maratona de Évora, dia 26 de Novembro!

Prova nº 70 - Maratona do Porto - 42km - 4:40:34  

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Ainda o Porto

Como era de esperar já li e reli o meu próprio relato. Faço-o quase sempre que venho ao blog ou que tenho um comentário novo no post. Eu sei, chega de narcisismo, pá!

Mas foi por ler o post na totalidade há pouco - e como o escrevi por fases tinha sempre que ver o que já tinha escrito antes para não perder o fio à meada - que percebi que me esqueci de relatar um fait-divers importante. Ou pelo menos curioso.

Naquela fase complicada pelos 35km cada quilómetro parecia ser uma maratona e olhei para o relógio mais vezes que nunca na esperança que ele já marcasse mais do que aquilo que eu já tinha corrido. Numa dessas vezes o relógio tinha uma mensagem. Não era de motivação, não era de alento, não era de força. Era uma mensagem que dizia: LOW MEMORY!

O quêêêêê?!? No dia da Maratona?!?!?

Então fui alegremente durante uns bons 10 quilómetros - pensava eu - a correr e a procurar nas opções do bicho o menú certo para apagar treinos. E quando dei por isso e resolvi o problema já ia a chegar aos 37kms - afinal aqueles 10 quilómetros na minha cabeça foram no máximo dois.

Há uma boa explicação para isto ter acontecido. Eu descarrego religiosamente todos os treinos para o Strava, mas não os tenho apagado do relógio. Da última vez que tinha o relógio cheio de actividades apaguei-as todas. No dia seguinte fui fazer os 20km de Cascais e ele nunca apanhou GPS. Nem nesse dia nem nunca mais. Felizmente estava na garantia e deram-me um novo à troca. Com o relógio novo nas mãos disse que só voltava a apagar treinos depois do Porto, não fosse dar-lhe outra travadinha. Felizmente não foi o caso. Nem sei se o problema do GPS esteve relacionado com o facto de ter limpo os treinos todos ou se foi apenas coincidência. O que é certo é que toda esta longa história me ajudou a fazer dez dois quilómetros da Maratona de forma mais descontraída e numa altura crítica.

Isto continua a ser aquela coisa do destino?

(Tenho uma epifania - sobre a Maratona, imaginem só! - mais antiga para partilhar, mas isso fica para outro post. É da maneira como já tenho assunto para escrever amanhã ou depois.)

domingo, 6 de novembro de 2016

Maratona do Porto

(Yeahhhhhhhhh!!!
Vou demorar algum tempo a passar todas as emoções que sinto da cabeça para a escrita. Aguardem, por favor.)

POST CONCLUÍDO!
DEMOREI MAIS TEMPO A ESCREVER DO QUE A CORRER!

Já li e reli muito daquilo que eu escrevi em relação à preparação para a Maratona do Porto. Já li e reli muitas das palavras de ânimo e de motivação que fui recebendo ao longo destes meses, desde o abençoado dia 23 de Dezembro de 2015, dia em que me inscrevi para a prova. Foi a minha prenda de Natal para mim mesmo, inscrevi-me no dia em que recebi e fi-lo sem partilhar com ninguém. (Mentira: partilhei no Facebook em jeito de mistério e a coisa correu mal e ia dando para o torto, mas adiante!) Já escutei novamente na minha cabeça todas as recomendações e conselhos que amigos e família me deram ao vivo e a cores, desde as excelentes dicas até aos receios de que eu fosse parar ao Hospital mais próximo. Tudo me ajudou a chegar à meta. Tudo contribuiu para o meu sucesso nesta primeira maratona. Tudo, desde a conversa "secreta" entre duas pessoas que levou à concretização desta inscrição (e só uma foi ao Porto) até à conversa segundos antes da partida onde o meu amigo e mentor (daqui em diante conhecido por LS) me dizia que eu não tinha nada que provar a ninguém, nem a mim mesmo e que não ia correr com ninguém às cavalitas porque isso era peso indesejado sobretudo numa prova tão extensa. Foi incrível a tranquilidade que ele me transmitiu, não só ali mas também em toda a prova.

Vamos então por partes.

Capítulo 0 - Antes da prova

Tudo arranjado na 6a feira à noite para sair de casa pelas 8h rumo ao Porto. Material visto, revisto, trivisto, sei lá quantas vezes foi visto para garantir que nada faltava. Equipamento, gel, relógio, comprovativo de inscrição, da reserva do hotel, etc. Com alguns atrasos, várias paragens obrigatórias pelo caminho e, sobretudo, sem pressa nem horários, chegámos ao Porto pouco antes das 13h. Primeira paragem: estádio do Dragão. (Sim, teve que ser...) No exterior muitos grupos pareciam já preparar "algo" relacionado com o jogo de domingo. Dali fomos até à Alfândega e agora sim começava a sentir o bichinho da Maratona, começava a entrar no espírito, começava a sentir a pressão da prova. Mas era uma pressão boa, era o sentir cada vez mais perto o momento e a responsabilidade do momento. Dorsal na mão - o primeiro arrepio na espinha. Nessa altura também nos cruzámos com outros companheiros de aventura, os nossos vizinhos e amigos daqui do lado chegavam também e foi no meio de muitos cumprimentos e abraços que estava dado este passo. Pelo meio fiz na feira da Maratona algo que já tinha visto no Facebook da prova: adquiri por 5€ o serviço de gravação do nome e tempo no verso da medalha no final da prova. Recebi uma pulseira em troca para apresentar no stand depois de concluir. Foi um compromisso, um investimento a fundo perdido. Se o quisesse fazer no domingo, pagava 10€. Se não concluísse a Maratona, não ia recuperar os 5€. Meio forreta como sou, era mais uma motivação para chegar ao fim! 

Rumámos ao Hotel, a residencial Senhor de Matosinhos,um espaço modesto mas com excelentes condições, bons preços e onde fomos muito bem acolhidos tendo inclusive sido facilitada a questão do late check-out para conseguirmos tomar banho no hotel depois da prova. Outra vantagem era estarmos afastados do centro do Porto e estarmos a 1,5km da zona da partida. Perfeito!
Tinha que haver francesinhas no fim de semana e o almoço de sábado era a melhor altura para isso - porque ao jantar era loucura e porque no domingo queríamos regressar a Lisboa o mais cedo possível. Uns momentos de descanso, um passeio pelas redondezas com direito a vermos o mar e com passagem pela zona da partida. As conversas iam, inevitavelmente, parar ao assunto principal do fim de semana. E não, não estou a falar do Porto vs Benfica. Foi um fim de tarde super tranquilo e agradável, muito descontraído, o que contrastou com o resto do serão que não foi tão sereno como se desejava (mas adiante). Antes do fim da noite afinámos horários para a manhã seguinte e fomos todos descansar. 

A noite passou num ápice e acordei bem disposto. Já tínhamos percebido que havia mais malta ali hospedada que também ia participar na Maratona (e também na Family Race) e ao pequeno-almoço o stress chegava devagarinho. Estava na hora de sair e levámos connosco parte da nossa "claque" que nos acompanharam até à partida. Assim que chegámos perto da Anémona já estava um mar de gente, num misto de fotografias e aquecimento. Segundo grande - enorme - arrepio! Este não foi na espinha, foi no corpo todo. E não era de frio, era de excitação! Não estava nervoso, até final da prova só por uma altura estive verdadeiramente nervoso. Fotos finais, despedidas finais, um abraço "que até parece que vais para a guerra!"

Ficámos os dois, a avançar o mais possível dentro da nossa caixa. Ele a transmitir-me toda a calma do mundo e eu à procura de mais caras conhecidas para me ir distraindo e para ir absorvendo toda aquela energia. Nunca me senti preocupado com a distância, mas isso não significa que estivesse demasiado confiante. Estava tranquilo, como se fosse partir aqui do jardim rumo a mais um treino de equipa. Tranquilo como desejava, como precisava. Dei-lhe um abraço e um high-5 com votos de boa prova. Foi ritual que implementei sempre que vamos correr em equipa - e sinceramente não me lembro da última vez que fui a uma prova sozinho - e enquanto caminhávamos até passar debaixo do pórtico da partida quis agradecer-lhe por tudo, desde o primeiro treino até àquele momento, mas não quis armar-me em lamechas. No fundo, a amizade é algo que não se agradece, retribui-se!

Começou a Maratona!

Capítulo 1 - dos 0 aos 12kms

(viram como ainda agora começou a prova e eu já escrevi quilómetros de texto? Sejam pacientes, eu prometo acabar antes de fazer a próxima)

A prova começou de forma surreal, comigo ainda a tentar colocar correctamente os phones. O LS que vai sempre a ouvir música desta vez não tinha phones - ou pelo menos não aparentava ter - e como íamos os dois também não liguei o mp3 com a minha playlist. Mais ainda, o mp3 diz ter autonomia para 4h e apesar de eu ter confiança em mim mesmo, sabia que ia demorar mais que isso para concluir a Maratona - que fique já registado que naquele dia nunca me passou pela cabeça outro desfecho! - portanto até isso tinha que gerir não fosse necessário ter esse apoio extra mais tarde.
Ao começar a subir a Avenida da Boavista íamos comentando o facto dos atletas da Family Race terem partido depois de nós e terem um ritmo diferente, pelo que teriam potencialmente mais dificuldades por terem que nos ultrapassar. Como os primeiros quilómetros foram em direcção a Matosinhos sentia-me muito confortável porque ainda no fim da tarde de sábado tínhamos andado a passear naquela zona. Olhando com alguma distância, até isso deve ter ajudado a esquecer algum eventual nervosismo. Sentia-me a correr "em casa", como se conhecesse bem aquelas ruas. Começam os primeiros retornos e isso permitia ver quem estava atrás de nós e ir cumprimentando colegas e amigos. Ao mesmo tempo também ia passando malta conhecida por nós e havia energia mais que suficiente para trocar algumas palavras. Aos 5km ele pergunta-me pelas primeiras impressões. Eu digo-lhe que vou perfeitamente, que se me sentir assim a 5km do final estarei muito feliz. 

Tinha metido na cabeça que não queria fazer nenhum km abaixo dos 6:00 e sempre que ia olhando para controlar o ritmo estava a cumprir. Vá, mais ou menos. Mas sentia-me bem e isso era o mais importante. Aos poucos o LS foi-me dizendo que ia comigo até à Meia Maratona e ao vermos quem estava atrás de nós ia também vendo que companhia é que eu poderia ter para a segunda metade da prova. Deixei-o sempre à vontade para seguir quando quisesse porque eu nunca ficaria sozinho no pelotão e encontraria companhia ao meu ritmo caso necessário. Foi também nesta altura que passámos pela primeira vez pela nossa claque que estava do lado esquerdo da estrada numa altura em que íamos do lado direito. Foi um breve encontro que iríamos repetir aos 12km, na rotunda da Anémona, do lado certo da estrada. Até aos 12km ainda houve mais alguns retornos e eu sempre de olho no outro lado para ver quem lá vinha. Gosto muito de percursos que proporcionam este tipo de encontros imediatos porque são uma boa distracção e permitem que os kms passem quase sem darmos por ele. A certa altura até me encostei ao lado esquerdo para ver melhor e ele, mais contido, ficou do lado direito. Íamos afastados, mas paralelos um ao outro. Foi aos 8km que tomei o primeiro gel, dentro da estratégia que tinha planeada. Falando em estratégia, quando estudei o percurso dividi-o em quatro etapas distintas que se vieram a concretizar. Ao mesmo tempo, pensava sempre em olhar para o próximo abastecimento como meta e recebia o conselho de trocar sempre de garrafa de água e, naqueles onde havia, trazer um gel. Eu já levava quatro no Flipbelt, mas não fazia mal ir renovando o stock. E assim, de forma descontraída, chegámos aos 12km, à rotunda da Anémona, onde ele aproveitou para deixar os "manguitos" que levava porque o frio da manhã já tinha sido substituído pelo calor do sol que brilhou durante toda a manhã. Eu optei por manter a camisola de manga comprida debaixo da camisola da equipa e ir arregaçando as mangas sempre que necessário. E ainda tinha muito que as arregaçar até ao final! Foi também na rotunda que passámos por amigos de outra equipa amiga que, por lesão, ficaram a ver a prova de fora a dar apoio e a tirar fotografias. E eu não sou eu se não fizer uma palhaçada qualquer para a objectiva. Para terminar este capítulo, era ali que se fazia a divisão entre a Family Race e a Maratona. Seguimos pelo caminho certo, já não havia volta a dar. "Olha, 25% da prova já estão feitos!" - disse, radiante.

Capítulo 2 - dos 12kms aos 21kms

Passada esta fase de maior adrenalina era altura de acalmar e estabilizar o andamento. Olhava para o relógio e via que o ritmo total estava ligeiramente abaixo do planeado e a continuar assim iria pagar a factura mais tarde. Era altura de gerir a energia e de abrandar o LS sempre que ele se entusiasmava e ia quase naturalmente para os 5:30/km. Já nos treinos longos era a mesma coisa, ele a dizer que é para irmos com calma a "5:60/km" mas a tendência era sempre para acelerar um pouco mais e irmos todos na onda, até alguém recordar o grupo do ritmo estipulado. No domingo não foi preciso muito. O ímpeto inicial estava ultrapassado, tínhamos muito que percorrer até ao fim e, como dissemos vezes sem conta um ao outro, não tínhamos pressa. Por aqui havia menos público na estrada mas também havia mais animação e música ao vivo - nem sempre com um estilo musical que eu achasse apropriado, mas pode ser só embirração minha. Atrasei o segundo gel o mais que pude e tomei-o cerca dos 18km em vez dos 15km que era o que andava a testar nas meias. O que fiz aos 15km foi ter agarrado numa esponja molhada no abastecimento. Usei-a para molhar a cara e limpar o suor mas não gostei da sensação de ficar com a cara tão fria. Para além da cara, sentia os braços e parte do corpo encharcados com a água algo gelada da esponja. Estando numa zona de sombras e com um vento que soprava, tive tremores de frio. Não voltei a pegar em esponjas até ao fim.
Fora isto, continuava a sentir-me bem, solto, descontraído, sem sentir o peso da prova nos ombros. Longe parecem ir os tempos em que as pernas soluçavam ali entre os 15/17kms. No domingo terminei a Meia Maratona com 2:08, perfeitamente dentro do ritmo que queria e com a leveza de que estava a começar. Foi uma frase e uma ideia repetida várias vezes nos treinos e consegui - conseguimos - cumprir. Antes de chegarmos a essa fase, várias curiosidades, a começar pelo facto de nos termos cruzado com os primeiros classificados e termos percebido a enorme vantagem que o eventual vencedor já tinha em relação à concorrência. Alguns sorrisos por vermos um atleta asiático no meio dos africanos, embora fosse em 6º ou 7º e muitas palmas para o atleta português que passou na peugada dos primeiros. Foi com surpresa que vimos que ambos acabaram por recuperar bastantes lugares nos kms finais e completaram os lugares do pódio. Como fait-divert pessoal, ficou o momento ali pelo quilómetro 17 em que não havia banda ao vivo mas havia música a sair pelas colunas, com umas meninas da EDP a dançarem. Assim que eu passei tocou esta música. Tanto tempo a escolher uma playlist para quê? Obrigado, destino.

Não sei se ia absorto nos meus pensamentos, mas o LS toca-me no ombro e de forma assertiva diz-me para curtir a paisagem da Ribeira e para desfrutar do momento. Do lado esquerdo o Porto, do lado direito o Rio Douro e na outra margem o Cais de Gaia onde já corria um enorme número de atletas. Rapidamente passámos a Ponte Dom Luiz, entrámos em Gaia e chegámos a meio da prova. Em cima da ponte novo momento de contemplação de tudo o que nos rodeava, mas também uma chamada de atenção para não repetirmos a paragem num abastecimento como aconteceu no km 20. "Ok, combinado."

Abri os braços ao passar o pórtico da Meia Maratona e disse-lhe que a Meia do Porto estava feita, agora estava na altura de fazer a Meia de Gaia.   

Capítulo 3 - dos 21km aos 32kms

Na verdade, sabia que estava mesmo a começar outra prova completamente diferente a partir daquele pórtico. Não era só o cenário que mudava, a partir daqui era a tentação de começar a contar os quilómetros "ao contrário", olhando erradamente para quantos faltavam em vez de contar aqueles que já estão feitos. Consegui escapar a isso e como se tratava de nova zona de retorno foi altura de espreitar novamente para quem já vinha em sentido contrário e novamente muitas foram as caras amigas que passavam. A prova também mudava a partir deste ponto porque eu sabia que a qualquer altura o LS ia seguir a sua prova e eu já não podia pedir mais dele, mas nem ele dava mostras de querer ir embora nem eu o mandava ir. Eu não queria fazer a prova toda ao lado dele. Não me levem a mal, estamos a falar de um grande amigo, de uma pessoa que me deu uma ajuda fundamental, não só no Porto mas também durante estes anos todos! No meu subconsciente eu ia começar a atrasá-lo e embora ele não estivesse minimamente ralado com o tempo final - ele nunca, mas nunca se preocupa com isso, mas sim com acabar bem e correr puramente por prazer - era desnecessário ele fazer um tempo muito inferior ao habitual dele. Para além disso, eu não queria terminar com a sensação de ter tido uma muleta a amparar-me durante o percurso todo. Recordam-se do que ele me disse antes da partida? Aquilo de eu não ter que provar nada a ninguém, nem a mim mesmo. Pois o psicológico começava a dizer-me o contrário. Mais sobre este assunto mais à frente. Como se pode ver pelos ritmos, comecei a fraquejar e a reduzir o andamento em Gaia. Até aos 28kms ainda não se notou muito, ele meteu conversa com pessoal e eu, que vinha uns metros atrás, percebi que eles eram do Cacém e como morei lá ao lado durante anos acabei por acelerar para os apanhar e participar da conversa também. Pequenos nadas que nos ajudam a passar mais uns metros, mais um quilómetro. A zona de Gaia também foi complicada por causa do piso e era constante a fuga para o passeio para tentar apanhar zonas mais planas e sem aquele empedrado chato.

Instantes antes de sairmos de Gaia novamente rumo ao Porto tive necessidade de me queixar pela primeira vez. Começava a sentir algum desconforto e algum cansaço nas pernas e verbalizei. Ele continuou tranquilo e aconselhou-me a levantar mais as pernas em cada passada. Acrescentou: 
"Já percebeste que agora não te largo mais até ao fim?"
"Acho que sim, mas podes ir descansado. Macacos me mordam se não acabo esta m....!"
"Mas tens dúvidas? É garantido que acabas, mas com algumas dicas para minimizar o sofrimento!" 

Já disse algures lá para trás: no domingo nunca tive dúvidas!

E para confirmar que ainda precisava de ir acompanhado, aos 29kms ele foi novamente assertivo e pergunta-me porque raio não estou a ouvir música! "Não vais demorar 4h daqui até à meta, mete lá isso a bombar e relaxa!" Como ele também não estava e fomos sempre na conversa um com o outro, nunca mais me lembrei e até me parecia mal se de repente o deixasse a falar sozinho. "Mete é só um dos phones, senão deixas de me ouvir."

Até à próxima, Gaia! Regresso ao Porto, viragem à direita até ao ponto mais distante da prova e retorno. Os 30km já ficavam para trás. O subconsciente lembrava-me que não tinha feito nenhum treino longo de 30km na preparação para a Maratona. O LS lembrava-me que eu tinha andado a tomar magnésio neste último mês para evitar câimbras a partir daqui, ao contrário da malta que eu ia começar a ver a parar pelo caminho e a fazer alongamentos à beira da estrada. Curiosamente, não vi tanta gente em más condições como tinha visto em Lisboa a partir do momento em que o percurso da Meia se juntou ao da Maratona. Ele também me lembrava que a partir dos 30km não se pára, caso contrário fica mais difícil recomeçar. Eu estava a ouvir e a tentar assimilar tudo, mas era cada vez mais difícil aguentar o desconforto. Comecei a andar pela primeira vez aos 32kms. E agora?


Capítulo 4 - dos 32kms aos 42km

Tinha tomado um gel antes dos 25km, salvo erro. Tenho a ideia que tomei outro aos 30km, mas já não consigo precisar. Mesmo que tivesse escrito este texto logo a seguir à meta, já não me lembrava bem. Ele bem me tentava motivar, mas já não funcionava. Não por culpa dele, mas porque a luta agora era outra. Acompanhou-me meio a andar, meio a correr, até ao túnel. Nem o Rocky Balboa me conseguiu dar forças, caramba! Ia correndo mas pouco e já andava mais do que corria. Aqui deu-se um momento chave: ele seguiu e eu fiquei "sozinho". Antes de seguir disse-me que a prova estava feita. Fomos uns metros abraçados, novo high-5 bem sonoro e ele seguiu. Pedi-lhe para que assim que chegasse transmitisse a mensagem que eu estava bem. Mesmo ele já ia chegar à meta com algum atraso em relação ao tempo que costuma fazer (acabou uns segundos abaixo das 4:30 quando em condições normais faria entre as 4:10 e as 4:15) o que também provocou alguma ligeira preocupação.

Última fase da corrida: eu contra a estrada! Faltavam uns 8kms até ao fim e eu disse para mim mesmo que depois de ter passado pelo retorno mais longínquo da meta eu tinha agora três hipóteses para acabar a prova: a correr, a andar ou de ambulância. E obviamente que a última estava fora de questão!

Eu disse que só por uma vez estive verdadeiramente nervoso: foi pelos 32kms quando tudo o que ele me dizia me passava completamente ao lado. Tentava assimilar e não conseguia reter informação nenhuma. Preocupei-me a sério, não sabia se estava bem. Naquela fase só queria ouvir uma voz: a minha. Percebi no final da prova, quando conversámos, que ele já tinha estado na mesma situação que eu quando fez a primeira maratona e a melhor coisa que lhe aconteceu foi ter ficado sozinho. Foi o melhor que me aconteceu a mim também. Lutei contra mim mesmo até chegar ao abastecimento dos 35kms. Comecei a cruzar-me com amigos e conhecidos, mas agora já não era altura de retorno, agora estávamos todos no mesmo barco a fazer a gestão do esforço até ao final, como o João me disse quando se cruzou comigo.

Quando recomecei a correr senti outro arrepio! Uma dor constante acima do joelho direito. Durou uma, duas, três, quatro passadas e depois... passou. Continuei a medo, mas a dor não voltou. Aqui a ideia era chegar ao abastecimento dos 40km. Dos 40km em diante já era tranquilo, pensava eu. Fui correndo de forma lenta, depois aumentei o ritmo e estava novamente confortável - acho que meti um último gel algures por aqui. Quando cheguei ao tal abastecimento já ia bem. Ajudou ter metido conversa com outros atletas e até ter ouvido uma senhora à beira da estrada dizer que "o menino está a fazer esta prova com demasiada roupa vestida." Calma, não era nenhuma sugestão mais ousada, era apenas porque com as mangas compridas para baixo novamente. Arregacei-as, literal e figuradamente!
Por mim também passou por duas vezes um rapaz, chamado Luís, a quem eu também ultrapassei duas vezes neste vaivém de "agora corro eu um pouco mais, agora corres tu". À terceira vez que eu o ia passar ele quase me parou e disse que era proibido! Fomos na conversa um bocado, ele - que até tinha dorsal de sub 3:45 - estava a fazer de lebre e a dar apoio a uma amiga que ia em silêncio para poupar as energias. Disse-me que era a boa acção do ano. Eu sorri e respondi-lhe que boas acções dessas são muito importantes. Entretanto "vou seguir" - disse-lhe eu - "porque ainda vou bater o meu record pessoal hoje!"
"Boa, achas que ainda consegues?"
"Consigo de certeza, é a minha primeira maratona!" - rematei assim com um grande sorriso nos lábios. Já tinha feito a mesma espécie de piada com o João e fiquei muito satisfeito quando ele me respondeu que também estava a ir para record (algo que acabou mesmo por acontecer!)

Com isto, vieram os 40kms! Parei um pouco no abastecimento, bebi mais powerade, agarrei numa garrafa de água, respirei fundo e parti sem parar para o fim da prova!

#dontstopmenow dizia a hashtag do tal post que meti no Facebook a 23 de Dezembro de 2015 quando fiz a inscrição. Era isso que sentia naquela altura. E a playlist, embora tardia, ajudava.

A adrenalina agora era brutal. Eu passava a correr por toda a gente, tinha ganho força extra para terminar em grande. Atirava palavras de ânimo para todos os que sentia em dificuldades, passava de mão estendida para toda a gente que no passeio aplaudia os atletas, enfim, as coisas habituais quando estou a ficar eufórico numa prova!

Placa dos 41km - o momento que quase me fez chorar. Quase! Contive as lágrimas, ao contrário do que tinha acontecido na estreia na Meia Maratona quando, na altura, vi a placa dos 20km e entrava na recta da meta. Quero lá saber se a entrada para o Parque da Cidade é feita numa subida! Eu só vejo gente dos dois lados do gradeamento, gente que já terminou a prova, gente que espera por quem termina. Puxo eu pelo público, eufórico como nunca, corro aos saltos e peço palmas. 42km, última curva! Já só faltam aqueles 195 metros. Sempre disse que iam ser os mais fáceis! Difícil era chegar até eles. Já vejo a meta, já vejo as meninas dos pompons a fazerem uma espécie de mini-corredor para passarmos no meio delas. Ouço gritar o meu nome - percebo entretanto que tinha mais homónimos naquela prova do que nunca. Ouço vozes familiares, viro-me para elas e ergo os braços em festejo! Yeahhhhhhhhhhh! Um som capturado - percebi hoje - por uma das câmaras que recolheu os vídeos da chegada. Ergo as mão ao alto, vou conseguir, vou cruzar a meta! Um último momento antes disso - também capturado em foto - em que olho para o símbolo que trago na camisola, agarro-o com uma mão e aponto para ele com a outra. Naquele símbolo estão todos aqueles que me ajudaram, não só os membros da equipa, mas também pessoas fora dela. Foram todos comigo, passaram todos aquela meta comigo! Está feito, está feito, terminei a Maratona!

Não me lembro de metade das coisas que fiz depois de acabar. Felizmente há vídeos da organização que me refrescam a memória. Levei as mãos à cara, quase incrédulo, estiquei a mão para alguém (da organização, talvez) que estava mesmo ali ao meu lado e fui até às barreiras onde sou recebido com um abraço, um forte abraço e lágrimas. Tinha saído para a guerra há umas horas atrás, mas voltei são e salvo! Outro e outro abraço! Do outro lado das barreiras quase que se desfalecia. Correr a Maratona daquele lado da barricada é, aparentemente, mais desgastante e cansativo. O LS aparece-me à frente, radiante e até surpreendido porque tinha a certeza que eu ia acabar mas desde que tinha seguido sem mim presumiu que eu fosse demorar mais tempo. Ah, e mete-me uma cerveja na mão. Ainda agora tinha acabado e já estava a festejar como deve ser!

Agora só queria a medalha. Pegar nela e ir ao stand para gravar o meu nome e o meu tempo! Nem sabia quanto tinha feito, lembro-me de desligar o relógio já durante os festejos. Fiquei a saber o tempo de chip precisamente quando agarrei na medalha depois da gravação. Até foi mais saboroso e algo épico assim.

Regresso ao hotel para um merecido banho e para arrumar tudo para regressar a Lisboa. Fui o último a despachar-me portanto quando chego aos carros sou recebido quase como um herói. E venho com um sorriso rasgado, sorriso que ainda mantenho hoje ao olhar para todas as fotos e vídeos disponíveis, mas também ao fechar os olhos e ao imaginar cada quilómetro, cada passada, cada metro percorrido. No regresso a casa dissecou-se muito sobre a prova, vista por dentro e por fora. A entreajuda, os momentos chave, o suplantar das dificuldades, tudo. 

O último ponto: o tempo final da prova. Sempre disse - e fui aconselhado a pensar assim - que o mais importante era terminar. Sendo a primeira e sendo a prova rainha era impossível de pensar de outra forma. Mas eu sou ambicioso e, modéstia à parte, tenho alguma noção do meu razoável valor dentro das minhas capacidades, se estiver num dia bom. Tinha apontado a um tempo a rondar as 4 horas e 30 minutos, mas sempre disse que até às 5 horas ficava muito satisfeito com o resultado. Balizei estes tempos também para quem está de fora poder ter alguma noção . Felizmente acertei, fiquei mais perto do tempo mais baixo e, se não tivesse tido necessidade de andar alguns kms até teria ficado em boas condições para o atingir. 

Pronto, fim do texto.
Obrigado a todos por lerem. Escreveria sempre este texto, mesmo que fosse só para mim. Sei que de vez em quando hei-de cá vir recordar e reler.

E prometo que para a próxima Maratona não vou escrever tanto.
Sim, porque vai haver próxima!


Prova nº 47 - Maratona do Porto - 42km - 4:40:54