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terça-feira, 13 de março de 2018

Meia Maratona de Lisboa 2018 - uma prova única

Vamos partir do pressuposto que dificilmente se vão repetir as condições climatéricas recentes nos próximos anos e que obrigaram a organização a accionar o Plano B e mudar o ponto de partida da Meia Maratona de Lisboa. Isto fará com que daqui a largos anos muitos de nós nos possamos sentir privilegiados com a possibilidade de termos feito uma prova única e de termos tido a sensação de fazer este novo percurso. É certo que choveram críticas à organização e que fazer a "Meia da Ponte" sem passar pela ponte tira parte do brilho da prova. Muitos são os que querem participar pela experiência de atravessar a ponte a pé e a Ponte 25 de Abril é atravessada na totalidade, o que não acontece, por exemplo, na Meia Maratona da Ponte Vasco da Gama. Também é verdade que bastava um atleta sofrer uma fatalidade em cima da ponte por causa do vento forte para choverem ainda mais críticas e se julgar a falta de responsabilidade por não se ter alterado o percurso. 

Qualquer decisão que uma organização tome é sempre sujeita a descontentamento, mas neste caso parece claro que foi a opção certa. E para quem reclamou outras opções, há que perder um pouco de tempo a ler o regulamento. Para mim e para a minha malta a grande diferença foi termos dormido mais um pouco e apanhado o comboio uma hora depois da ideia inicial. Só tive pena de alguma desorganização à chegada a Lisboa que me fez não ter conseguido encontrar a Nádia e a Inês que foram, já agora, responsáveis por eu ter estado naquela linha de partida. Antes de eu ganhar um passatempo já elas me tinham colocado um dorsal nas mãos, fruto de outro passatempo. Fica também o convite para seguir as respectivas páginas

Agora chega a altura das minhas críticas. Se não fosse com passatempo nunca teria voltado a fazer esta prova. O preço de inscrição esteve demasiado caro desde o início e a discussão sobre a camisola já vai longa em tantos sítios que nem sequer vou abordar esse assunto. Na prova em si o que mais me queixo é uma coisa tão banal como a inexistência de pórtico de partida. Eu sei que estava vento, mas nem que fossem dois membros da organização a levantar uma cartolina. E, já agora, o speaker que estava a tecer largas críticas - justas, pareceu-me - ao facto de haver atletas a atirar peças de roupa que não iam usar pela ponte abaixo também podia ter anunciado o início da prova. Eu e o colega que partiu ao meu lado só percebemos que era ali a partida por termos tropeçado nos sensores no chão. Relógio a contar e vamos a isso antes que chova.

E choveu logo ao fim de 10 minutos, mas foi coisa passageira. Eu que tinha deixado o impermeável junto da malta da caminhada não me arrependi da decisão. Ia bem disposto, sem pressão, rumo à marca das duas horas que tinha prometido, mesmo que ainda tivesse ouvido que "ah e tal, este gajo quando faz estes comentários é quando depois acaba melhor e com tempos record e mais-não-sei-o-quê." Confirma-se... a certa altura pensei em record. Devia ter chovido mais.

Encontrei a Inês, dei-lhe um abraço e desejei-lhe boa prova. Disse-me que a Nádia tinha saído dali agora mesmo, portanto fui à procura dela. À minha frente já tinha desaparecido o meu colega, outro que ah e tal, vou nas calmas. Foi tanto nas calmas que só o voltei a ver hoje à noite. Para trás ficaram outros colegas e amigos, um dos quais tinha dito que ia comigo mas acabámos por nos perder na confusão da partida e do arranque no início da prova. Curiosamente já falei com ele, mas ainda não o voltei a ver. E foi num ápice que saímos do Eixo Norte-Sul rumo a Alcântara.

Brilhava o sol, ia em bom ritmo e nem dava pelos quilómetros passarem. Porque raramente olhava para o relógio e porque raramente os encontrava marcados no percurso. Meia crítica aqui, porque não ter essa referência estava a ajudar-me a ir tranquilo. E quando vi um placa, ela estava virada para o lado errado e eu julgava já ter feito 9km e até disse à Isa e ao Vítor que os 10km e a metade da prova estavam já ali. O balde de água fria veio a seguir quando se deu a viragem no Cais do Sodré e ainda só íamos com 7km. Mais água fria chegaria volvidos mais 7kms.

Como era natural fui-me cruzando com várias caras conhecidas pelo caminho, fui metendo conversa, fui cumprimentando pessoal aqui e ali. Tudo coisas que ajudam a passar os quilómetros sem se dar por eles. Antes de chegar ao retorno lá estava a Nádia do outro lado. Uma rápida mensagem de força foi o que conseguimos desejar um ao outro. E depois do retorno um dos momentos pelos quais eu esperava: reencontrar ao vivo e a cores o João Lima a correr. Já tinha visto umas fotos e lido uns relatos, mas aquele curto abraço e troca de palavras foi essencial. Rumo aos 10kms onde passei com 55:30 aproximadamente. Foi aqui que fiz as contas habituais: faço o resto numa horinha e é sucesso garantido. Esqueci-me é que para isso funcionar tenho que fazer os primeiros 11kms em 55 minutos e depois sim os restantes 10 numa hora. Não faz mal, ia dentro do tempo previsto.

Ainda antes de chegar a Belém o percurso da Meia juntou-se ao da Mini, separados pelo gradeamento. Desviei o olhar para o lado de lá e encontrei imediatamente quem queria ver. "Então boa tarde e tal e até já que eu vou ali até Algés e já venho!" Pronto, o reencontro só se deu quase uma hora depois de eu ter terminado. Parecia um dia pródigo para perder pessoas de vista. Felizmente tinha outra repórter na meta à procura das nossas camisolas para fotografar.

Em 2015, da única vez que tinha feito a prova, o meu maior problema foi ter passado em Belém junto à meta e depois ter ido e ido e ido e ido e cada vez que me afastava mais cansado me sentia. Psicologicamente afectou-me, mas na altura era apenas a minha segunda Meia Maratona e eu não sabia fazer bem este tipo de gestão psicológica da prova. No domingo ia tentar inverter esse sentimento e estava a conseguir. E depois o céu escureceu e eu arrependi-me de ter dito algures lá atrás que durante a prova já não chovia mais. E não choveu, granizou!

Chuva forte, granizo, tocada a vento que soprava de frente. O mesmo vento que nos estava a impedir de correr e nos empurrava para trás. Baixei a cabeça, cerrei os dentes e fiz o meu quilómetro mais rápido da segunda metade da prova. Devo ter ultrapassado uns 20 ou 30 atletas nesta fase e a única coisa que tentava era ver por onde ia para não tropeçar em ninguém. Que chuvada! Meteu a um canto o dilúvio da Meia Maratona dos Descobrimentos de 2016. Ainda vi um amigo a passar já em sentido inverso. Confessou-me ele horas mais tarde que levar com o granizo por trás tinha sido como ter agulhas a espetarem-se nas costas. Eu continuava a não sentir saudades do impermeável. Foi um quilómetro, uns 5 minutos brutais. Senti-me a correr contra o mundo, contra todas as adversidades. E não neguei o desafio. A roupa ficou colada ao corpo e os ténis encharcados de forma instantânea e aquilo foi tudo mágico e surreal ao mesmo tempo. Agora que olho para trás ainda nem consigo ter a noção exacta do que foi correr debaixo daquele temporal. Só queria ter uma fotografia para guardar. E digo isto sem desejar nenhuma pneumonia a nenhum dos fotógrafos - amadores ou profissionais - que lá estiveram naquela manhã.

Passada a intempérie e já com dois terços da prova feita aguardava o retorno em Algés. Mas ele nunca mais chegava. E Algés não era ali atrás? Já estava todo baralhado e a trocar as provas. Tinha dito ao pessoal que íamos até Santa Apolónia, mas isso é nos Descobrimentos. E depois pensei que se não tínhamos ido tanto para aquele lado, então estávamos a compensar agora neste retorno. Tudo errado, o percurso era exactamente aquele com retorno na zona do Dafundo/Cruz Quebrada. Enfim, meia crítica a mim que devia ter olhado devidamente para o percurso em vez de achar que ainda me lembrava dele de cor e salteado. Chegado ao tão desejado retorno comecei a fazer contas ao que faltava até à meta. Próximo objectivo o abastecimento de água, depois o da fruta. Ou era ao contrário? Não interessa, há dois abastecimentos e primeiro quero chegar a um e depois a outro. E há malta para ver do outro lado da estrada para me fazer pensar noutra coisa sem ser o cansaço acumulado. E deixa cá espreitar para o relógio que continua a marcar a média dentro do que quero.

Agora era só rolar até ao fim sem precisar de acelerar, mas ali aos 19km entrou-me nos ouvidos uma das músicas da playlist que me dá pica e aqui o vosso amigo começou a abanar o capacete. Literalmente. E a fazer "air guitar" e "air drums" e cenas assim. Felizmente que os fotógrafos estavam abrigados porque a chuva tinha voltado ou estavam já concentrados na meta.

E a meta chegou rapidamente, não sem antes fazer um sprint final para ultrapassar alguns atletas e garantir que não ficava escondido atrás de um dinamarquês alto e espadaúdo que me fosse tapar ao cruzar a chegada. Uma pessoa tem que ter objectivos definidos, independentemente da zona da classificação onde termina. E consegui. Não fiquei tapado por ninguém e acabei 13 segundos abaixo do objectivo. Não podia pedir muito mais. Na verdade, a razão principal pela qual me inscrevi - e repito que nunca o faria se tivesse que pagar a inscrição - foi para melhorar o meu tempo nesta prova. Foi aqui que fiz a minha pior Meia Maratona de sempre (a desistência no Douro Vinhateiro não entra nestas contas) e jurei a mim mesmo que havia de voltar apenas para melhorar essa bela marca de 2:20:39 feita em 2015. E atenção: não tenho nada contra quem faz estes tempos! Na altura foi uma prova mal calculada e muito mal gerida da minha parte e com mais maturidade e experiência corrigi esses erros. Três anos depois tirei aproximadamente 21 minutos a essa marca. Um por quilómetro. (Mas tendo em conta que foi neste percurso único, será que conta na mesma ou tenho que voltar em 2019?)

No fim veio a medalha, o gelado, ainda mais fotos e uma curta caminhada até ao carro com direito a uma chuvada e a vestir o impermeável - afinal ainda o usei! - enquanto estávamos todos abrigados numa paragem de autocarro a 200 metros dos carros e onde tínhamos quase todos uma muda de roupa. Caramba que até aqui foi preciso lutar contra o Félix que me deu mais problemas que o temporal da Meia Maratona dos Descobrimentos, prova que me correu mal e que foi feita em modo de birra com o impermeável vestido.

Foi a minha 15ª Meia Maratona e foi a 5ª que terminei abaixo das duas horas. E se a ideia é apagar resultados menos conseguidos do passado, então alguém avise a Meia das Lampas que em Setembro conversamos.

O meu colega que partiu comigo disse-me antes de desaparecer por entre a multidão de atletas que começava aqui a preparação rumo ao Porto. Ainda faltam demasiados meses para pensar nisso, mas como dizia o Prof. Moniz Pereira: "Há treino todos os dias!" 

Próxima paragem: Corrida dos Sinos, Mafra.     


Prova nº 79 - Meia Maratona de Lisboa (Ponte 25 de Abril) 2018 - 21km - 1:59:47

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Évora, Évora, Évora

Então já passou quase uma semana da prova e tu não te dignas a escrever sobre o assunto?
Na verdade esta falta de tempo deve-se não só às obrigações pessoais do dia-a-dia, mas também a outros projectos que têm merecido a minha atenção.

Disse várias vezes nas semanas antes da prova que Évora era para fazer nas calmas e que o mais importante ia ser o convívio. A prova é dura, mas aquele duro de ser desafiante ao ponto de uma pessoa querer sempre lá voltar. Porque se fosse fácil qualquer um fazia, porque uma pessoa queixa-se das subidas nos treinos mas também são elas que nos fazem chegar mais longe e melhorar o nosso desempenho.

Juntando ao facto de ainda estar em período de esvaziamento da bolha da Maratona e de estar a fazer menos treinos - mas não estou letárgico como fiquei por esta altura em 2016 - sabia que ia ter um fim de semana bastante agitado ainda antes de chegar a Évora. 6a feira tive o jantar de Natal da minha empresa. Este ano foi tão antecipado que estávamos a celebrar o facto de faltar um mês para o Natal! Tendo em conta que na noite de 5a feira tive uma chatice que até me fez desligar por um dia do mundo virtual, passei esse dia algo irritado e em modo de birra portanto foi um jantar onde afoguei algumas mágoas e onde só cheguei a casa pelas 4:00 da manhã

Gin e capirinha e mais gin




No sábado deu para tentar recuperar um pouco, mas ao fim da tarde/início da noite tive uma festa de anos. Mais tranquila e sem os excessos da noite anterior, mas mesmo assim cansativa. E domingo toca a acordar às 6:00 que a viagem é longa e é para chegar cedo a Évora para estacionar sem stress.

Correu tudo bem, sobretudo pelo facto de um casal da equipa ter lá ficado de véspera e ter levantado os dorsais da equipa no sábado. Foi uma ajuda preciosa. E domingo pouco antes das 9:00 já estávamos estacionados no local do costume e pouco depois era hora de tirar a foto de grupo antes de rumar à partida. Éramos 15 no total: 3 na Meia, 2 nos 10km e os restantes na caminhada. Percebi que ia ser o último da equipa a chegar porque em condições normais seria o menos rápido do trio de elementos que faziam a Meia Maratona. Já imaginava a equipa em peso a acompanhar-me na subida final até à Praça do Giraldo!

Da prova havia uma novidade já anunciada pela organização: o percurso era diferente. Foi uma inversão do que tinha sido feito nos dois anos anteriores e depois do início dentro de Évora faríamos a zona dentro da cidade em vez de sairmos para o IP2 e para a EN354. Isso significava que a parte mais complicada do percurso seria na primeira metade e a segunda parte tinha tudo para ser mais tranquila por ser em alcatrão plano em vez de empedrado com sobe e desce que só voltaríamos a apanhar na reentrada em Évora por volta do km19. Quem fez a prova de 10km também achou este trajecto mais duro mas onde a participação do público era muito mais activa por estarem sempre em zona urbana.

Assim sendo decidi dar o tudo por tudo para fazer esta parte enquanto tinha energia e força nas pernas para depois gerir na segunda parte. E isso correu às mil maravilhas! Senti-me muito bem nesta fase e os quilómetros iam passando com a dificuldade esperada mas com alguma confiança. Foi bom ver muita gente nas ruas a apoiar, mesmo que um senhor de um grupo a quem pedi palmas me tenha dito, a sorrir e com sotaque alentejano: "Ah amigo, palmas? Agora na temos tempo p'ra isso!"

A zona que era crítica nos anos anteriores tornou-se super interessante este ano: do lado esquerdo da estrada vinham os atletas a fazer o retorno e do nosso lado direito começávamos a ver os participantes da caminhada a vir na nossa direcção. Não sabia para onde olhar, não sabia se havia de tentar encontrar os meus colegas dos 21km ou o grupo da caminhada. Percebi entretanto - porque não vi ninguém - que o grupo tinha ficado bastante para trás no início e que eu ainda estava a ver a parte da frente. Consegui ver quem ia à minha frente e quando fiz eu o retorno cruzei-me com as colegas dos 10km. E ainda tive o bónus de ter encontrado um grupo de malta amiga - incluindo a minha chefe de trabalho - que estava em passeio de fim de semana por Évora e onde um deles estava a correr. Curiosamente é um amigo que encontro em todas as provas sem nunca combinarmos e desta vez vi o grupo de apoio mas não estive com ele. Aliás, foi mais uma prova onde encontrei algumas caras conhecidas e muitas outras ficaram por cumprimentar pessoalmente.

Ao passar pela divisão entre os 10km e os 21km também reparei que se tivesse ido para o outro lado teria feito um tempo muito simpático para o tipo de prova e percurso. Seguindo para o lado da Meia Maratona dou por mim a entrar no Complexo Desportivo de Évora onde estava o abastecimento dos 10km e voltei a pensar que bonito era darmos uma volta pela pista de tartan em vez de apenas a vermos ali tão perto e tão longe. Aos 11km tinha exactamente 60 minutos de prova. Se fosse de propósito não tinha conseguido. Fiz contas, obviamente. Tal como em Coimbra pensei que agora era só fazer mais 60 minutos nos 10km restantes e chegaria ao objectivo de fazer um tempo final dentro das duas horas. E agora era um percurso maioritariamente a rolar! A diferença para Coimbra era que aqui não tínhamos começado com um tal percurso sempre a descer.

Vamos a isso! Para ajudar tinha umas camisolas conhecidas de um grupo vizinho ali à frente a marcar o ritmo e podia aproveitar essa espécie de boleia. E até aos 15km fui a um ritmo mais ou menos estável a rondar os 5:30m/km mas a começar a sentir algum desgaste e senti necessidade de fazer uma paragem um pouco maior no abastecimento dos 15km. Tentei voltar a um ritmo tranquilo e baixei para os 6:00m/km. Sabia que não precisava de ir mais depressa portanto não valia a pena forçar. Lá está, já tinha feito o pior, tinha tomado um gel há instantes e agora era só gerir.

Mas... há sempre um mas... Se esta zona era calma em termos de dificuldade também era calma em termos de ambiente. Na realidade, à excepção de um café cheio de gente a aplaudir e um bairro com muitas pessoas à beira da estrada todo o resto era uma pasmaceira e a única companhia que havia era a de outros atletas. Tendo optado desta vez por não levar música senti imensa falta dela nesta fase para me distrair, mas lá fui a um ritmo mais lento, a ritmo mais ou menos de treino. Ora se o percurso não tivesse sido alterado esta fase teria sido feita ainda dentro dos primeiros dez quilómetros portanto ainda haveria muita energia e pouco desgaste. E o pensamento estaria nas dificuldades que estavam para chegar. Também senti um pouco de Coimbra aqui porque já só queria voltar a entrar na cidade e esse momento estava a aproximar-se.

Novo abastecimento aos 18km e o momento chave da minha prova foi aqui porque depois de passar por ele e de ganhar novas forças perdi-as rapidamente no momento em que não me consegui desviar devidamente de uma garrafa de água que estava no chão, pisei mal e torci o pé esquerdo - aquele que torço sempre. Na altura soltei um grito e quem ia à minha frente ainda olhou para trás. Fiz sinal positivo com o polegar e continuei. Estando quente e a menos de 3km da meta pouco me estava a doer e pouco podia fazer a não ser continuar até ao fim. Aqui sim tive que optar pela minha segurança e estando novamente nas ruas de Évora e de volta ao empedrado alternei entre correr devagar e caminhar em algumas zonas. Aquilo que menos queria era que o mesmo me voltasse a acontecer agora por causa do chão sinuoso. Muito pessoal que passava ia puxando por mim, muitas pessoas novamente na berma da estrada e algumas caras conhecidas. Ia timidamente explicando que tinha torcido o pé, mas estava ok e só não queria forçar até ao final. A minha cara de esforço a correr devia contrastar com o sorriso que ia fazendo ao falar.

Quando chego finalmente à subida final até à meta encontro duas colegas de equipa que me começam a acompanhar. Não me recordo se lhes falei na altura do susto com o pé, mas era a altura de esquecer isso naqueles metros finais e só voltar a pensar no que tinha acontecido quando estivesse do outro lado da meta. E a partir dali foi uma alegria imensa com a malta toda, sobretudo a minha claque pessoal que me leva ao sprint final. Meta atingida, prova superada. Percebi antes da partida que esta foi a terceira edição da prova, o que faz de mim um dos totalistas do evento, estatuto que quero manter até onde me for possível.

Felizmente o que se passou com o pé foi mesmo um susto e à medida que ia arrefecendo a caminho do carro não sentia qualquer dor, para além daquelas mazelas normais de quem completa uma Meia Maratona. Durante o resto da tarde e agora que já passaram alguns dias confirma-se que não tenho qualquer mazela no pé, mas é cada vez mais óbvio que depois da primeira vez este vai sempre ser o meu pé preferido para torcer.

Estava longe de saber que o momento mais mágico da prova ainda estava para acontecer. Depois de voltarmos dos carros e quando estávamos a caminho do restaurante que tínhamos marcado para almoçar íamos novamente começar a subir a recta que nos levaria até à meta. Sentimos uma imensa algazarra nas nossas costas e quando olhamos percebemos que o último estava a chegar fortemente acompanhado por um grupo de atletas que vim a perceber serem dos Évora Night Runners. Foi memorável! Quem me conhece sabe o quanto eu me emociono com momentos destes e o quando isto me toca. Há largos anos atrás o senhor Reinaldo que estava ali a correr devagar mas imensamente feliz era eu e se eu não tivesse tido apoio semelhante não seria nem metade do que sou hoje.

Lembrei-me de tantos momentos. De Peniche, do Autódromo do Estoril e depois da Scalabis conforme já estava prometido, de Alverca, de não ter conseguido fazer isto em Coimbra este ano. Foi um momento muito bonito e um final perfeito para o circuito das 7 Running Wonders de 2017. Já tinha ficado prometido que para o ano só iria fazer Coimbra e a Évora com muita pena por Guimarães ser sempre no mesmo fim de semana das Fogueiras. Mas sem esperar abriu-se meia porta para o Douro Vinhateiro. E há sempre uma porta aberta para Castelo Branco.

Resta falar do tempo. Estava frio de manhã e imenso calor que foi aumentando durante a prova. Ah, não era esse tempo? Ok, dos três anos em que fui a Évora era aquele em que ia melhor lançado para o tempo que queria e acaba por ser o meu tempo mais fraco. Só hoje é que reparei nisso, mesmo antes de começar a escrever este texto. Sabem o que isso significa? Que apesar de querer fazer um tempo específico e desse tempo ter estado perfeitamente ao meu alcance isso sempre foi a menor das minhas preocupações.

E comer no Alentejo? Que maravilha! Que valente almoço!

Prova nº 71 - Meia Maratona de Évora 2017 - 21km - 02:04:09

Participações anteriores na prova: 2015 e 2016

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Coimbra, take 2

Take 2 precisamente por duas razões: segundo ano consecutivo a marcar presença nesta Meia Maratona e segunda tentativa de escrever este relato porque o rascunho que fui escrevendo quando vinha no carro de regresso a casa não ficou gravado no Blogger e está perdido para sempre. Resta-me agora tentar-me lembrar das notas que fui escrevendo para poder desenvolver agora ao fim da noite.

Muito do que aconteceu hoje foi semelhante ao que aconteceu no ano passado. Aproveito para pegar naquele texto e fazer apenas alguns ajustes: a hora de acordar desta vez foram umas pornográficas 5:00 da manhã e às 6:30 já estávamos todos os 15 elementos da equipa dentro de três carros para rumar a Coimbra. No total fomos 5 para a Meia Maratona, 2 para os 10kms da Mini Maratona e 8 participantes nos 5kms da caminhada. Infelizmente ainda tivemos algumas pessoas que não puderam comparecer à última da hora e na Meia Maratona havia duas estreias, uma das quais daquela colega que no ano passado não conseguimos convencer a fazer a Meia. Foi hoje e a nossa amiga e enfermeira não nos deixou ficar mal. Confesso aqui que quando ela estava a chegar à meta eu estava a aplaudir e a gritar por ela ao mesmo tempo que fazia um esforço brutal para não chorar. Foi uma chegada emocionante de uma das pessoas que eu mais estimo neste grupo. Emocionei-me tanto ou mais do que na minha própria chegada - e acreditem que a minha foi muito simbólica.

Também em relação ao estacionamento e ao café onde fomos antes da partida tudo foi igual a 2016. Fotos finais, palavras de ânimo e lá fomos nós. Estava mais contido que o habitual e sentia isso. Nos minutos antes da partida até já tinha ligado a minha playlist - também pelo facto de estar a usar uns phones bluetooth e de ter as músicas no relógio, daí não querer mexer nele depois de passar o pórtico inicial. Já tinha feito experiências em treino mas ainda tinha receio de parar o relógio se carregasse numa opção errada. Mantém-se algo a ponderar para o Porto: usar estes phones que têm autonomia para a prova toda ou usar o mp3 do ano passado que "só" se aguenta 4h. A outra hipótese é tentar fazer a Maratona abaixo desse tempo.

Dos cinco da Meia Maratona sabia que, em condições normais, seria o elemento do meio, portanto deixei dois colegas mais para trás e vi outros dois afastarem-se gradualmente até deixar de os ver no horizonte. Também tinha dito durante a semana a várias pessoas que, em condições normais, podia perfeitamente ir a Coimbra e tentar bater o meu record na distância, embalado pelos treinos para a Maratona e pelo percurso igual a 2016 onde se desce bastante de início e depois enfrentamos mais de dois terços da prova praticamente em terreno plano. Infelizmente a paragem recente amolgou-me a forma e também a confiança. Mesmo assim, deixei-me ir nos primeiros 5km até passarmos pela zona da meta. Até aqui os quilómetros iam passando em boa média, a rondar os 5:00m/km ou abaixo disso.

Tentei estabilizar a velocidade a partir daqui, até porque já me estava a senti cansado e ainda tinha muito pela frente. Deu para ir olhando em redor com mais atenção, sendo que nem sequer as tentativas de me meter com o público tinham corrido bem. A coisa melhorou quando desejei boa prova a uma atleta do Correr Lisboa e aplaudi veementemente uma menina de - não sei, 7 ou 8 anos talvez? - que ia a correr pelo passeio ao ritmo do grupo onde eu ia naquele momento. "Grande atleta" - gritei-lhe eu.

Uns quilómetros mais à frente, já depois de deixarmos os atletas dos 10km seguirem o seu percurso até à meta deu-se uma feliz coincidência. Lembram-se da Lúcia com quem partilhei um pouco da Meia Maratona de Castelo Branco? Pois bem, encontrei-a novamente. Ela admitiu que não se lembrava bem de mim mas seguimos à conversa sobre as provas das Running Wonders. Ela já fez as sete e ficou "prometido" novo encontro para Évora! Segui viagem perante a insistência dela que sentia que me estava a atrasar o ritmo.

E encontrei-a novamente aos 10km quando parei no abastecimento por uns segundos para beber um copo de isotónico. Ela passou por mim e fui quase até aos 15km atrás dela. Foi uma boa lebre. Já antes disso senti um outro atleta a colar-se a mim e foi um bom bocado ao meu lado, mas sem nunca falarmos. Acho que havia ali uma entreajuda silenciosa e ao passarmos por outro pequeno grupo ele acabou por ficar com eles. E, de repente, a minha cabeça de matemático escondido atrás de um curso de Letras começou a trabalhar: se eu tenho 55 minutos à passagem os 10,5km então se mantiver o ritmo faço 1:50 no final! Ah, mas agora não vou ter aqueles quilómetros a descer para ajudar a média, esquece lá isso. Mas calma, se passei aos 11km com cerca de 57:30 basta-me fazer uma hora nos 10km finais para acabar com um tempo interessante. Não, esquece lá isso.

E esqueci. Nesta fase havia um ponto de retorno e o meu interesse era saber onde estavam os restantes colegas da equipa. Não havia surpresas e isso era bom sinal. E entre o quilómetro 14 e 15, depois de tomar o único gel da prova (levei dois, mas optei por retardar ao máximo para tentar só tomar um) ultrapassei a Lúcia. E voltei a fazer contas. E à falta de público naquela zona do percurso dei por mim a agradecer aos voluntários nos abastecimentos dizendo que nós sem o apoio deles não conseguíamos fazer as provas. Já estava a ficar cansado, apesar de contente por estar a conseguir manter um bom ritmo. Já só queria voltar a entrar em Coimbra, já só queria ver a Ponte de Santa Clara, já só queria acabar. Felizmente tive uma visão e encontrei lá ao fundo a camisola azul de um dos meus colegas de equipa e tentei encurtar distâncias para, quem sabe, terminarmos juntos porque ele teria, eventualmente, quebrado. Não consegui e vim a perceber mais tarde que era uma miragem. Esse meu colega acabou a prova 9 minutos antes de mim! Era claramente outra camisola parecida.

Foi já em quebra que entrei no último quilómetro - o mais lento de todos, feito a 6:00m/km - e nem o facto de ter a meta à vista me conseguia ajudar a reagir. Até que na última curva antes da meta vejo uma das colegas de equipa que fez os 10km e faço a minha melhor pose sorridente para a foto. E a partir dali foi uma festa em toda a recta da meta que só terminou depois de concluir a prova. E caso não haja fotos oficiais pelo menos já há um vídeo que imortaliza o momento! Pouco depois chegava a Lúcia.

Era altura de partir para outro objectivo, ir atrás buscar a nossa colega. E eu não consegui. Disse aos meus dois outros colegas que já tinham terminado antes de mim que fossem porque eu estava completamente rebentado e sem forças. Acabei por esperar junto à meta e também por isso me emocionei. Felizmente o espírito da equipa faz com que quando não podem uns, podem outros e ela lá vinha com uma guarda de honra. Quando lhe dei os parabéns também lhe pedi desculpa por não a ter ido buscar. 

E pronto, mais uma aventura terminada, regresso aos carros não sem antes passar pelas famosas escadas do Quinchorro. O almoço foi no mesmo local do ano passado, o que significa que houve doçaria a seguir viagem com a malta no regresso a casa. Dos cinco que fizeram a Meia houve duas estreias na distância e dois recordes pessoais batidos, um deles o meu.

Repete lá isso? Sim. Quando cruzei a meta não olhei para o relógio nem o parei logo. Não sabia exactamente o tempo que tinha feito e acabei por me esquecer disso até ao momento em que estávamos a beber café depois de almoço e me lembrei de ir ver à net se já havia resultados oficiais. E havia. Tirei 8 segundos ao tempo que tinha feito no Douro Vinhateiro.

Agora é ver como recupero. Claro que o início rápido da prova ajuda, mas este resultado surpreendeu-me. Não sei bem o que pensar até porque apesar das contas que fiz a meio da prova nunca fui à procura da marca. Acabei exausto mas por outro lado nunca tive momentos a meio em que tivesse quebrado mentalmente. É estranho um record pessoal deixar uma pessoa com dúvidas. Não foi um "treino longo" ao ritmo da Maratona, mas foram 21km nas pernas - a  última vez que farei tantos antes do Porto.

Estou feliz, claro que sim. Foi um dia cheio de emoções! Mas acreditam que estou confuso?

Prova nº 69 - Meia Maratona de Coimbra 2017 - 21km - 01:57:08

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Corrida da Felicidade

"Duas horas"

Foi a minha resposta vezes e vezes sem conta à pergunta: "Vais para fazer quanto tempo?" E disse isto também ao meu colega de equipa vezes suficientes para o recordar que não estou nesta fase a atacar os tempos da Meia Maratona, mas sim a usar estas provas como treinos longos mas em ambiente de competição para afinar a máquina para a Maratona. Isso ajudou a tirar alguma eventual pressão de cima, mas sem esquecer que também hei-de querer melhorar a minha marca na distância e em condições ideais procurar aproximar-me o mais possível dos 1:50.

É sempre impossível prever o que vai acontecer numa prova. Há dias em que a pressão faz falta para nos manter com a adrenalina em alta e focados num objectivo. Noutros dias não ter qualquer pressão faz com que se aprecie da prova pelo simples prazer de correr. O ideal estará, sempre, em conseguir o balanço perfeito entre ambas as situações.

Indo sem pressão, com o objectivo de fazer a prova em duas horas e depois de uma semana de férias que foi tão boa que pareceram duas - hei-de falar sobre isso - o dia tinha tudo para correr bem. Mais ainda, tínhamos dito uns dias muito agradáveis de convívio e boa disposição por termos começado o fim de semana logo na 6a à tarde e passado o tempo até chegar a Castelo Branco no domingo em passeio e descontracção, curiosamente pelas mesmas zonas onde tinha estado de férias em Julho: Portalegre, Castelo de Vide e até, novamente, Espanha.

Há anos que não ia a Castelo Branco, apesar de ter ligações familiares àquela zona do país, pelo que pouco me lembrava da cidade. O que já tínhamos visto é que a altimetria do percurso era "jeitosa" - confirmou-se com cerca de 300 de acumulado. Para além disso havia algum receio do calor (safei-me) e até do facto de estarmos a correr numa zona 400 metros acima do nível do mar. Nunca tinha pensado nesta última parte, mas também não senti dificuldades acrescidas por isso. A bomba da asma - que até ia ficando no carro - nunca saiu do bolso dos calções.

Na véspera, uma novidade: fomos dormir antes das 22:00 porque fizemos contas a sair da zona de Portalegre pelas 6:30 para fazer a viagem até Castelo Branco nas calmas, estacionar sem stress pelas 8:00, levantar os dorsais e descontrair depois. Foi tudo feito ao bom estilo de um relógio suíço: partida às 6:35, entrada num café na zona da prova às 7:55. Pelo caminho, sempre o espectro devastador dos fogos que assolaram aquela zona, para além das nuvens de fumo que já tínhamos sentido desde o fim de tarde de sábado por causa dos incêndios que lavravam lá perto. Desolador...

Fomos sentindo o ambiente da prova e o número de atletas a aumentar, mas tínhamos noção que não estava muita gente e íamos conversando sobre os motivos para isso: a data da prova que chocou com imensas outras pelo país fora, o facto de ser a primeira edição, a proximidade com a próxima prova das Running Wonders (o Dão dentro de duas semanas), a localização que obriga a uma logística mais exigente para muitas das pessoas com que nos cruzamos habitualmente, etc. Por outro lado gosto de correr mais longe da zona de Lisboa para ter contacto com outras equipas e outras camisolas que normalmente não se encontram. E isso faz com que a festa seja maior quando durante o percurso vemos malta do Correr Lisboa (grande Brigitte que foi segunda classificada no sector feminino nos 10km), dos Brr Night Runners do Barreiro, da equipa de Leião (sim, vi por lá um representante), etc. Já agora, números oficiais na classificação terminaram a Meia Maratona 343 atletas e a prova de 10kms 375 atletas.

O início da prova levou-nos a uma passagem junto ao parque da cidade, começando depois a subir por ruas estreitas e de empedrado. De seguida fomo-nos afastando gradualmente do centro da cidade sempre a descer até próximo dos 6km de prova. Nessa altura cruzei-me com o meu colega de equipa que levava uns 700 metros de avanço. Fiz contas e parece-me que ele ia bem lançado para fazer 1:50 como pretendia. Não havia muita gente nas ruas e quem estava apoiava, por vezes timidamente e por vezes após responder ao meu apelo de palmas. Sim, o meu estilo nunca muda e passei a prova toda a puxar pelo público. Depois veio o retorno e estávamos a subir o que tínhamos descido até chegar aos 9kms onde se fazia a divisão dos 10kms e da Meia. Pelo meio também fomos algum tempo ao lado da malta da caminhada, mas nessa altura não consegui encontrar caras conhecidas. Estávamos próximos da meta, mas ainda não era a nossa altura de terminar. Passei aos 10kms com 55:05 e por brincadeira pensei que era possível fazer os restantes 11kms numa hora, mesmo sabendo que ainda havia muito carrossel pela frente. Devem ter sido os 10kms mais fáceis que fiz nos últimos tempos. Não dei por eles a passar, ainda troquei umas palavras com o "Super-Homem" que fez a prova toda (não sei se fez a Meia ou os 10kms) a empurrar a filha num carrinho. Ri-me quando ela lhe pediu encarecidamente para não a largar na descida ele lhe disse que tinha que descansar um pouco nessa zona para depois subir no regresso. Ainda lhe perguntei se a certa altura do percurso iriam trocar para ser ela a empurrar e ele ir sentado, mas penso que isso não era opção.

Sabia que na segunda parte do percurso iríamos ter muitos pontos de retorno e isso agrada-me porque me permite ir distraído q.b. em quem vem em sentido contrário sem nunca perder o foco no que estou a fazer e sem perder o ritmo. Pelos 12km aproveitei uma subida mais pronunciada para mais tranquilamente tomar um gel - o único que tomei durante a prova - e isso também foi diferente do habitual porque normalmente em Meias Maratonas tomava um entre os 7 e os 8kms e depois um segundo aos 15kms. Era uma altura em que se estivéssemos a descer sabíamos que daqui a um ou dois quilómetros havia um ponto de retorno e faríamos o percurso inverso a subir (ou vice-versa) e isso ajudou-me a gerir o esforço. Quando me cruzei novamente com o meu colega de equipa não tive noção da distância que nos separava mas não seria muito maior que aos 6kms.

Havia diversão pelo percurso, entre tunas, bandas e outro tipo de animação e por estarmos mais próximos do centro da cidade senti mais algumas pessoas na rua que apoiavam dentro do possível. Acho que bati palmas a toda a gente que nos dava uma força extra e desviei-me algumas vezes para a berma para dar "high-5" às crianças que eu sei que gostam sempre deste tipo de interacção. Chamei campeão a vários, tive sorrisos de volta e fiz tudo o que estava ao meu alcance para dar justiça ao nome da prova: Corrida da Felicidade! Eu estava verdadeiramente feliz a correr naquelas ruas, muito zen, muito confiante. O meu momento alto foi ali pelos 13,2kms (fui ver ao Strava porque sei exactamente em que curva estava) quando me desviei ligeiramente do lado direito da estrada para ir dar umas palavras de ânimo e bater palmas a um jovem veterano que vinha em sentido inverso cansado da subida que tinha acabado de fazer. Ele sorriu - não tinha fôlego para mais na altura - e à minha volta houve palmas dos restantes atletas que iam junto a mim. Por falar em jovens veteranos, acabo de ver na classificação geral que dos 11 atletas com mais de 60 anos - dez homens e uma mulher - apenas 4 homens fizeram mais tempo que eu. Os restantes 6 homens fizeram tempos que eu não sei se vou algum dia atingir e a única senhora no escalão V60 chegou uns segundos à minha frente. Malta, continuem assim que daqui a 25 anos eu já vos apanho, ok?

Até aos 15km tive a companhia de um pequeno grupo que se foi formando e íamos a rolar entre 5:30 e 5:40. Uma dessas pessoas foi a Lúcia do Centro de Treinos Municipal de Vila Pouca de Aguiar. Nunca tinha ouvido falar da equipa, não a conhecia de lado nenhum, mas durante uns largos metros fomos ali lado a lado e trocámos algumas curtas palavras. Acabei por me distanciar deste grupo, ainda lhe dei uma força final quando a voltei a ver já perto da entrada para o último quilómetro e no final voltei a encontrá-la na zona de abastecimento de cevada logo a seguir à meta. Agora o mais provável é não me voltar a cruzar com ela, mas esta interacção entre atletas - aqueles que correm pela simples felicidade de correr - deixa-me sempre alegre. (Afinal "reencontrei-a" aqui)

Foi também perto do fim que voltei a cruzar-me com o meu colega - ele junto à placa dos 20kms que tínhamos visto ao entrar de carro em Castelo Branco e eu do lado oposto da estrada junto à placa dos 19kms. Queixou-se do calor e eu percebi pelo tempo de prova que ele ia ficar acima do objectivo, sendo que acabou com pouco menos de 1:52. Achei que estar apenas um quilómetro atrás dele não era nada mau. Nem sequer achei que estivesse assim tanto calor na altura, mas passado 500 metros quando fiz o retorno naquela estrada comecei a apanhar com o sol de frente na cara e depressa percebi o que ele quis dizer. Pouco importava, depois da placa dos 20km uma pessoa ganha o último ímpeto, apenas travado pelo facto de ser praticamente todo a subir. Ao chegar à recta da meta estava cansado - mas não exausto - e consegui ter a cereja no topo do bolo com uma chegada memorável à meta que sei ter sido capturada por fotógrafos mas cujas imagens ainda não encontrei - ou provavelmente ainda não foram publicadas.

Era o culminar de uma prova, de mais uma Meia Maratona. Foi a décima segunda da carreira, foi o meu terceiro melhor tempo na distância. E nunca é demais repetir, foi uma prova onde me senti feliz! Para os mais atentos, há exactamente um ano estava aqui, exactamente com o mesmo espírito descontraído mas a fazer o meu terceiro pior tempo de sempre!

Estava com imensas saudades de fazer uma prova. Já tinha passado demasiado tempo desde as Fogueiras. Curiosamente o plano de treinos mandava fazer uma prova de 10km no domingo para testar a evolução até àquela data. Oops, estiquei-me só um bocadinho...

Agora resta manter uma ideia que eu já aqui falei há tempos: domingo a prova ficou feita, 2a feira começou tudo outra vez!


Prova nº 67 - Meia Maratona de Castelo Branco 2017 - 21km - 01:58:53

segunda-feira, 29 de maio de 2017

A mais bela (e longa) corrida do Mundo

Apaguei o post que tinha pré-escrito para fazer o relato da prova. Ou melhor, editei-o e transformei-o no post anterior. Não ia escrever mais nada, mas tenho que o fazer.

Ontem durante a viagem até à Régua saltou a pergunta:
"Olha lá, este fim de semana e esta prova são uma espécie de fecho de ciclo, certo?"

Estava, finalmente, feito o click e dado o mote para voltar ao Douro Vinhateiro. Não era só ter desistido no ano passado, era tudo o que aconteceu em Maio do ano passado. E tudo o que Maio desde ano está a fazer para apagar de vez as más memórias que ficaram.

Eu disse - mais que uma vez - que não sou vingativo. Diverti-me imenso ao ler há pouco os comentários destas publicações, tal como me emocionei ao ler as palavras de força e ânimo que me deixaram recentemente aqui (e ali ao lado na rede social também). Obrigado, esta vitória também é vossa!

Esta prova tinha tudo para correr bem, após a lesão no início do ano regressei de forma bastante ambiciosa e recuperei a forma que tinha perdido entretanto. Bati record dos 10km em Santarém, dos 15km no 1º de Maio e até dos 5km também em Maio, embora em circunstâncias diferentes do habitual. O problema foi a falta de treino nas últimas semanas. Andava quase a correr de prova em prova e quando na semana passada consegui finalmente voltar a treinar duas vezes por semana acontece-me um daquelas coisas que nunca é boa mas que há alturas em que é mesmo horrível: pisei uma pedra e torci um pé a meio do treino de 5a. 

Assustei-me, enervei-me, estava a rir - de nervos! - e quase a chorar ao mesmo tempo. Felizmente o destino tem destas coisas e no meio das 20 pessoas que apareceram no treino eu estava ao lado da nossa colega que é enfermeira. Ela não me disse absolutamente nada que eu não soubesse "Vais para casa, fazes gelo, tomas anti-inflamatório e usas uma meia elástica. Repousas o pé ao máximo e vais ver que isso não há-de ser nada." mas disse-o de uma forma tão calma e confiante que me tranquilizou imediatamente. Ossos do ofício. Muito obrigado, esta vitória também é tua!

Ainda me passou pela cabeça continuar o treino e fui meio a andar, meio a correr ter com o resto do grupo que tinha parado à nossa espera. Como nós íamos na cauda do grupo mais ninguém sabia o que tinha acontecido. Também assustei e enervei a minha colega que me confortou no ano passado. Aquela que me deu a medalha e que não a quer de volta e já me explicou porquê. E eu percebi e aceitei a justificação. Assustei-a ao ponto de ter corrido mais depressa quando foi à nossa procura do que no resto do treino todo! Muito obrigado, esta vitória também é tua!

Depois tive o apoio todo do resto do grupo. O treino continuou - the show must go on! - e enquanto uns colegas foram buscar o meu carro à outra ponta da cidade (às 3as os treinos começam quase à minha porta, mas às 5as não e eu nem sempre me despacho a tempo para ir a fazer um aquecimento até lá) outro ficou a fazer-me companhia e fui a andar devagar até casa. Este carinho da equipa vale ouro. Ninguém ficar para trás também é isto. Obrigado malta, esta vitória também é vossa!

Felizmente foi mesmo mais o susto que outra coisa. Passei 6a e sábado sem dores e apenas com uma ligeira impressão na zona torcida. No sábado até deu para fazer parte do caminho até Peso da Régua a conduzir, o que me deixou bastante confiante. Hotel, levantamento dos dorsais, passeio pela cidade, fotos, selfies, relax total e... pasta party. Era a primeira vez que ia a uma e primeiro estranhou-se e depois entranhou-se. Será algo a repetir no Porto. Com tudo pronto de véspera, era hora de ir descansar e domingo chegou rapidamente. Acordar cedo, tomar pequeno almoço, confirmar que dava para fazer late check-out até às 14:00. Tudo correu às mil maravilhas no Hotel Columbano e quando é assim, fica a referência.

Feita a divisão entre comboio e autocarro, entre Meia e Mini, era hora de embarcar. À chegada à Barragem do Bagaúste ainda nos voltámos a cruzar até que fiquei com a companhia de amigos de outra equipa com quem estive até à partida. Poucas caras conhecidas, equipas e camisolas menos familiares do que em provas por Lisboa e arredores. O tempo estava encoberto e era perfeito continuar assim. Levantou e abriu o sol 20 minutos antes da partida e senti-o bem até ao retorno aos 8kms. Antes de partirmos, uma das pessoas que estava comigo lembrou-se de me falar do ano passado. Confirmou que eu tinha desistido à passagem pela barragem, a cerca de 5 ou 6 quilómetros do final. Chamou-me estúpido - assim a frio e com todas as letras. Eu ri-me e disse-lhe que tinha toda a razão. Disse-me que sabe bem que a cabeça é que manda, muito mais que as pernas e que percebia o que tinha acontecido mas que sabia que este ano não ia ser assim. Ela tinha a certeza, disse-me que eu estou mais forte, fisicamente e não só, disse-me tudo o que eu precisava de ouvir e que eu não esperava que fosse ela a dizer. Obrigado! Todos os elogios que trocámos naqueles abraços depois da meta foram sinceros e sentidos.

Mas vamos começar a correr ou nem por isso? Já vamos com um testamento e ainda nem passei a partida! Vá, vamos lá correr! Não sem antes dizer que passei debaixo do pórtico de partida com esta música a tocar nos altifalantes da organização. A minha power song. E por falar em música, ao fazer o primeiro quilómetro o leitor de mp3 foi-se abaixo. Eu já tinha percebido que isso era capaz de acontecer na noite anterior. Devo tê-lo deixado ligado depois de o carregar. Paciência. Guardei-o tranquilamente no bolso dos calções e fui a cantarolar na minha cabeça todas as músicas da playlist até que me esqueci disso e a música não me fez falta.

Decidi que a prova era só para acabar, que ia meter um ritmo "de maratona" a rondar os 6m/km e sempre sem stress. Vi que não era isso que estava a acontecer de início, fartei-me de olhar para o relógio nos quilómetros iniciais e aquilo marcava quase sempre o mesmo ritmo. Vejam bem este relógio quase suiço até ao quilómetro 9! Na verdade estava a sentir-me muito bem e sem dores. Senti-me a destilar até ao retorno, mas ia-me sempre hidratando nos abastecimentos tanto a beber água como a molhar a cara e testa. Assim que se deu a volta deixei de sentir esse problema. Tinha dividido a prova em 3 partes: até ao retorno aos 8kms, de regresso à barragem aos 16km e os últimos 5kms que não fiz no ano passado e que não conhecia. Passei aos 10km com 55 minutos e comecei a fazer contas que assim iria terminar com cerca de duas horas. Esqueci-me logo disso porque sabia que ia quebrar na segunda metade, para além de ter o efeito psicológico da chegada à barragem. Mas não quebrei, antes pelo contrário. Apenas no km 12, exactamente onde comecei a quebrar e a andar na prova de 2016. respondi da melhor maneira: aumentei o ritmo! Foi de forma involuntária e foi o sub-consciente a falar mais alto. Se no ano passado comecei a quebrar aos 12km, hoje comecei a ganhar a prova no mesmo sítio.
Já via a barragem ao longe, estava a aproveitar todos os abastecimentos tanto de água como de isotónico - também ajudou num deles o staff estar a colocar garrafas inteiras em vez de dividir por copos, porque assim trouxe uma para ir bebendo - e segui à risca o plano do gel: um no retorno aos 8km, outro na barragem aos 16km.
Algo que eu tenho que tentar perceber é a ilusão de óptica do percurso. Tanto na ida como no regresso parecia visualmente que ia a descer, embora o gráfico de altimetria confirme que nem sempre foi assim.
Os quilómetros continuavam a voar e eu sem nunca sentir cansaço, nem dores, nem quebras de ritmo, nem quebras psicológicas. Estava bem, muito bem. A partir dali era o desconhecido, era completar duas provas ao mesmo tempo. Mas eram também os quilómetros mais fáceis por serem os mais próximos da meta. (tem sido uma frase que eu digo muito ultimamente)
Fui ver que no ano passado desisti aos 15,3kms. Este ano parei exactamente nessa mesma altura, mas foi apenas para beber um copo de isotónico que neste abastecimento estava mesmo em copo e não em lata. Depois segui e nessa altura já estava a ver bastantes atletas em dificuldades, sobretudo pelo calor. Tenho sorte que historicamente não me dou mal com temperaturas altas. Nem senti que estivesse abafado, mas aparentemente estava.
Começou a fase em que tentava perceber os nomes dos colegas que estrada se tivessem na camisola ou se tivessem o dorsal nas costas e puxava por eles pelo nome quando os passava. E eu ia passando bastantes. E ia aumentando ainda mais o ritmo naqueles quilómetros. Já era impossível não fazer contas. Se fosse a x minutos por quilómetro ia ficar abaixo das duas horas. Se mantiver vou para record. Na verdade, a primeira vez que pensei em record foi aos 5kms mas decidi ignorar esse pensamento por ser absurdo.

Estando cada vez mais perto de entrar em Peso da Régua começavam a aparecer cada vez mais espectadores e/ou membros de staff no percurso. Comecei a minha saga de puxar pelo público, a pedir palmas, a pedir barulho, a pedir apoio. Normalmente faço isto quando estou a começar a fraquejar e preciso de motivação ou quando estou feliz na estrada. E eu estava radiante a transpirar de alegria por todos os poros! A malta retribuía os meus pedidos. Ouvi palmas, muito barulho. Ouvi alguém de fora gritar "És grande, Nuno!", ouvi outra pessoa dizer "Calma jovem, não te canses tanto!" Mas eu não estava nada cansado! Nada!

Passagem pela ponte pedonal, mais apoio, mais barulho, mais gente a meter-se comigo. Acho que deixei a minha marca bem vincada naqueles quilómetros finais. Acho que também assustei um ou outro atleta que ia à minha frente.

Meta à vista, nem me preocupei em olhar para o relógio do pulso, mas vislumbrei o relógio da meta que me garantia o record (batido por 31 segundos) e nunca mais pensei nisso. Metros finais emotivos, olho para as barreiras, para quem me apoiava da parte de fora. Braços no ar, sorriso estampado no rosto e... acabei! Já vi algumas fotos da chegada e nunca, nunca me vi tão feliz ao passar uma meta.

Soltei um grito, um sonoro "YES!" onde estavam contidas todas as emoções. Atirei tudo cá para fora. Vi quem estava lá, pensei em toda a gente que não estava mas que gostava de estar, em toda a gente que eu sabia que estava à espera de notícias. Continuei a correr e só parei quando me meteram a medalha na mão. É minha, é nossa!

Depois foi a descompressão, sacos de ofertas, imperiais que tão bem me souberam, garrafas de vinho também oferta. Fotos finais e festejos. Muitos abraços e mais palavras reconfortantes que me encheram o coração. Já só queria voltar ao hotel para tomar banho e partilhar o resultado com o mundo. Depois foi almoçar e fazer a viagem de regresso que ainda é longa e foi preenchida com muitas mensagens de parabéns. Agora é o voltar à normalidade do dia-a-dia e pensar na próxima, a Corrida de Santo António no próximo sábado à noite.

E porque há coisas que não vale a pena mudar, também este ano o Benfica deu uma alegria durante o regresso a casa. No ano passado foi o campeonato, este ano foi a Taça.
Estou exausto e feliz. Já devia ter ido dormir há 3 horas atrás.
Parecendo que não, terminei duas meias maratonas no mesmo dia. O ciclo está fechado.


Prova nº 63 - Meia Maratona Douro Vinhateiro 2017 - 21km - 01:57:16
Prova nº 36 - Meia Maratona Douro Vinhateiro 2016 - 21km - 378 dias, 2 horas e 4 minutos, mais coisa, menos coisa

domingo, 28 de maio de 2017

Meia Maratona do Douro Vinhateiro

A prova da letra R. A começar por (Peso da) Régua
Dedico esta prova:

- à Rute
- à Raquel
- a todos os Runners que me deram umas palavras de incentivo e de carinho. Não só os da equipa, mas todos os outros com quem me cruzei.
- à Rita
- bati um Record ao concluir a prova de 2016 378 dias depois de a ter começado.
- bati outro Record, ao concluir a meia em 1:57:18

O relato há-de surgir quando eu processar tudo. E tem mais de duas linhas, garantidamente!

domingo, 4 de dezembro de 2016

Desleixo

Ponto prévio: o meu relógio marcou o seguinte resultado hoje.

Dizia o Strava que vim da China até Lisboa.

Posto isto, estamos conversados em relação à minha sorte com o material de apoio... O que aconteceu - percebi entretanto - foi que eu tinha posto o relógio a contar em Évora, mesmo sabendo que estava sem bateria. Ele desligou-se rapidamente e hoje quando o liguei foi buscar o tempo que tinha contado nesse dia e juntou-lhe uns dados estranhos de GPS. Ao fim do 1º km percebi que ele hoje só me ia ajudar a medir o ritmo instantâneo e que não teria dados certos da média da prova. Seja como for, com a chuvada que nos acompanhou esta manhã sempre que eu olhava para ele só via gotas de água - ou no visor ou nos óculos. 

Voltemos agora atrás no tempo. Em Fevereiro um ex-colega de treino completou os 111kms de Sicó e na semana seguinte conseguimos arranjar uma pequena sala para juntar quem quisesse ouvi-lo a partilhar as suas aventuras. Acho que éramos uns 30 membros da equipa a ouvir a sua história e a fazer perguntas de todo o género. A minha pergunta foi simples: "E agora?" No fundo, perguntei-lhe como é que se geria o pós-prova, sabendo eu que ele tinha andado a preparar-se à séria para esse grande objectivo. A ideia seria fazer ainda mais quilómetros? Fazer provas diferentes, mesmo que não tão longas? Etc, etc, etc...

A pergunta não foi inocente, eu já estava inscrito na Maratona do Porto e ia começar em breve a gerir as provas e treinos com base nessa meta e já me perguntava na altura como seria o pós-Maratona. Quando se esvaziasse o balão, quando a prova estivesse feita, quando a euforia tivesse passado. O que fazer a seguir? Como gerir? Que metas definir?

A verdade é que tenho alguns objectivos - que giram quase todos à volta de melhorar os meus tempos, dentro do possível - mas a verdade é que estou numa fase de autêntico desleixo. E isso nota-se. Na terça-feira faz um mês desde a Maratona e neste período de tempo tive uma semana de descanso, depois fiz dois treinos e fiz 3 provas (aquele trilho do troféu das localidades e duas Meias). Sim: dois treinos e três provas! Não preciso dizer mais nada...

A Meia Maratona dos Descobrimentos é uma prova que me diz muito. Foi onde me estreei na distância em 2014 e onde fiz em 2015 o meu record. Era onde tinha apontado tentar melhorar o meu tempo. Nesse sentido, falhei redondamente.

A manhã foi tranquila, a chegada a Belém também e estava tudo bem disposto, apesar da desconfiança em relação à chuva. Do percurso, nada de especial a apontar: era sempre em frente para um lado e para o outro, com uma pequena passagem pelo Rossio. Agora que já consegui corrigir o gpx da prova - obrigado Strava!! - consigo perceber que aquilo que estava a sentir durante o percurso batia certo: até perto dos 15km estava em ritmo perfeito para conseguir o que queria. Apesar da imensa chuva, estava a fazer entre os 5:25 e os 5:35 por km quando eu apontei para uma média de 5:30. Aos 10kms ia um grupo ao meu lado que dizia que ia com 56 minutos de prova - confirmo - e isso era ouro sobre azul. Tudo perfeito até passar o Cais do Sodré. A partir do momento em que entrámos no piso empedrado comecei a hesitar e a perder a embalagem, mas ainda me fui aguentando até Santa Apolónia e respectivo retorno. Afinal era só uma breve hesitação, vamos lá até ao Rossio para entrar no terço final da prova.

Ao subir a Rua da Prata baixei o ritmo e pensei obviamente em compensar na descida na Rua do Ouro. E foi aí que percebi que hoje não era dia. Desci à mesma velocidade que subi, sem ter poder de explosão para regressar ao andamento desejado. Simbolicamente a prova terminava ali. O corpo não reagiu e levou a cabeça com ele. Quando eu precisava de ter forças, foi quando elas falharam. Curiosamente foi nesta altura que me senti muito bem em Évora na semana passada. Nesse dia reagi bem ao empedrado e às subidas, hoje não reagi bem ao empedrado e à chuva. Não há provas iguais.

Dos 15km até à meta foi um pequeno suplício na tentativa de encontrar um ritmo estável, mesmo que lento. Fui vendo passar algumas caras conhecidas sem as conseguir acompanhar. Lembrei-me que, apesar de tudo, ainda não tinha sido ultrapassado pela bandeira das 2 horas, o que ainda me dava alguma esperança de fazer um tempo interessante, mas pouco depois lá estava ela. Apesar do esforço do portador da bandeira em levar com ele toda a gente que via em dificuldades eu também não consegui acompanhar e foi o desânimo final.

Num esforço final lá cheguei à meta a ouvir apoio do lado de fora do percurso. Olhei para cima para ver o tempo mas nem liguei. Estava com algumas dores - físicas - que foram aliviadas por uma massagem ali mesmo (obrigado!). As outras dores - na alma - hão-de passar com o tempo.

Podia estar aqui a culpar exclusivamente o empedrado, a chuva, ter corrido com o impermeável (não gosto e até simulei uma birrinha por isso numa das fotos de grupo antes da partida), não ter levado música (decidi isso por causa da chuva), os ténis em fim de vida (tema para outro post durante a semana), etc. A verdade é que todas estas questões seriam minimizadas se eu não me andasse a desleixar nos treinos.

Tal como na semana passada pensei em não escrever nada hoje, mas o que é certo é que vir aqui desabafar e obrigar-me a partilhar os meus erros faz com que me sinta mais aliviado e com que me mentalize a fazer tudo para corrigir o que não faço bem.

Prova nº 50 - Meia Maratona dos Descobrimentos - 21km - 02:06:50 

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

O que raio aconteceu aqui?

12 horas depois de ter terminado a Meia Maratona de Évora, ainda não consigo muito bem explicar o que aconteceu. Vinha de regresso no autocarro da equipa a pensar que viria aqui apenas partilhar o tempo final e guardar tudo o resto para mim. Aliás, admito já que vou mesmo guardar coisas que são só minhas.

Sair de casa às 6:30 da manhã depois de só ter ido dormir por volta das 2:00 se calhar é um bom tópico de partida para as parvoíces que se vão seguir.

Corria tudo dentro do previsto: ponto de encontro, viagem, levantamento dos dorsais. E depois da prova também correu tudo às mil maravilhas: almoço (a fabulosa sopa de cação!), viagem de regresso, etc.

O primeiro sinal menos bom ocorreu a 15 minutos do início da prova. Liguei o relógio e... bateria fraca. Mesmo fraca. Com o símbolo de bateria completamente vazio. Picuinhas como sou - e o relógio fica "esquecido" ligado ao pc depois de descarregar treinos - não sei como é que isto foi acontecer. Terá sido sinal do destino o facto de ter sido a última coisa que me lembrei de arrumar? Enfim, entrei um bocado em parafuso. A última vez que fiz uma prova sem relógio foi nos - agora - extintos 20kms de Cascais e correu malzinho, vá.

Tentei esquecer isso, não havia nada a fazer. Fui andando para a meta a mentalizar-me que tinha que gerir o esforço "às cegas" sem ter noção dos tempos que iria fazer. E mesmo quando tive oportunidade para isso, acabei por nunca perguntar a atletas com quem me cruzava com quanto tempo de prova íamos.

Apesar do percurso ter sido alterado em relação ao ano passado, o início da prova era exactamente igual: mau! Atletas da Meia, dos 10kms e até - como??? - da caminhada juntos a tentar avançar pelas ruas e ruelas estreias do centro de Évora, num sempre complicado empedrado. O mais importante era não tropeçar nos outros atletas, nos carros, em todos os obstáculos naturais, num slalom constante e desgastante. Se a ideia é permitir que os atletas aproveitem para ver os monumentos e a beleza da cidade numa altura em que ainda estão frescos, não resulta. Seria bem mais viável fazer um começo diferente e passar à Praça do Giraldo (onde é efectivamente a partida) com uns 3 ou 4 kms nas pernas já com alguma divisão no pelotão e ainda com a frescura suficiente para nos deliciarmos com a cidade. Seria mais monumental do que é, na minha modesta opinião. No fim da prova quase que jurei a pés juntos a quem fez a caminhada que o nosso percurso não passava ao Templo de Diana,

Estou por ali. Não, não sou um dos coelhos cor-de-rosa.
Continuando.

Ao sairmos de Évora, ali à entrada do terceiro quilómetro pensei em desistir. Não estava a entrar no espírito da coisa, o corpo não estava a reagir, foram quilómetros penosos. Depois achei que não tinha feito quase 150kms para desistir ao fim de dois. Segui, vi o LS passar com outro colega nosso e fui atrás deles sempre a uns 100 metros de distância. Pouco depois encontrei esta amiga que tinha ido no autocarro connosco e que estava em bom ritmo. Segui ao lado dela, apanhei o duo da frente aos 7kms e passei-os. Pouco depois seguia-se a separação das provas e meti na cabeça desviar-me para os 10km e ficar por ali. Ideia parva, por várias razões. Virei para o lado da Meia e meti pernas à obra!

Parei uns bons 30 segundos no abastecimento dos 10kms a beber um copo de isotónico - faria o mesmo aos 15kms - e nessa altura o meu colega apanhou-me, sem o LS que tinha ficado para trás com dificuldades fruto de uma lesão que o incomoda de vez em quando. Na altura nem percebi se tinha seguido logo para a meta dos 10kms ou se ainda lá vinha. Percebi mais tarde que lá vinha.

Sou o primeiro a querer ajudar em treinos e a "prescindir" de um treino e andar na cauda do grupo para dar apoio a alguém que precise. Por outro lado, não gosto muito de correr acompanhado em provas, a não ser que seja algo previamente combinado. Chamem-lhe egoísmo, mas isto tanto é válido para ir a rebocar alguém como para ser rebocado. A não ser que seja um caso daqueles óbvios em que a entreajuda é a única forma de prosseguir. O meu colega seguiu comigo até aos 13kms e começou a fraquejar na altura em que apanhámos subidas em empedrado. Por outro lado eu estava a sentir-me melhor a cada km que passava e segui. Tenho mesmo pena de não ter os meus tempos por km, tenho a certeza que estes terão sido os meus melhores e ia ultrapassando imensos atletas. 

Sabia que ainda me esperava a subida mais complicada que terminava aos 19kms, mas nesta altura já ia mais ou menos lançado e - acho eu - rápido. Por outro lado estava farto da prova e só queria mesmo acabar. Em diversas alturas do percurso meti na cabeça ceder o meu dorsal para a Meia dos Descobrimentos por falta de pachorra para passar por outros 21kms novamente para a semana.

Lá ultrapassei a subida dos 19kms, já com a mente na descida seguinte e na aproximação à meta - outra subida curta e dura, mas onde me esperava o melhor momento da prova e aquele que me fez sempre querer continuar.

Meta à vista e nem percebi bem quanto tempo tinha feito. Só sabia que tinha passado na partida com 1:30 de atraso em relação ao tempo total. Pronto, venham de lá as medalhas e no próximo domingo há mais.

Ouvi várias vezes durante a semana que isto em Évora era "só" uma meia maratona e que depois do Porto tudo iria parecer quase irrisório. Eu sei que foi dito sempre na brincadeira, mas é certo que não há duas provas iguais e nenhuma distância deve ser menosprezada porque todas são um desafio. Esta prova custou-me e desgastou-me mais que a Maratona. É tudo uma questão de mentalização.

Em termos globais foi a minha 8ª Meia Maratona e obtive a minha 3ª melhor marca na distância, tendo melhorado em relação à prova do ano passado que era o objectivo que me tinha proposta a atingir. E entre os dois abastecimentos com isotónico, ainda estive cerca de um minuto parado. Posto isto, para quê tanta complicação mental durante a prova?

P.S: Tenho um post agendado, escrito há uma semana, para ser publicado na 2a feira. Foi curioso voltar a lê-lo enquanto escrevia este.

Prova nº 49 - Meia Maratona de Évora - 21km - 02:02:10 

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Coimbra, tem mais encanto...

O despertador tocou antes das 6:00. Começava a Maratona. Daqui a quatro horas e meia estaria no Pólo Universitário de Coimbra na linha de partida para a Meia Maratona de Coimbra, a Corrida do Conhecimento, inserida no circuito das Running Wonders.

Pronto, é um parágrafo semelhante ao da semana passada. Neste caso a Maratona eram os 180kms de deslocação até Coimbra. Partimos 10 pessoas distribuídas em dois carros e tínhamos mais um colega que iria lá ter connosco. No total fomos 5 para a Meia Maratona, 2 para os 10kms da Mini Maratona e 3 participantes nos 6kms da caminhada. Muito sono, mas também muita animação dentro do carro e em amena cavaqueira chegámos depressa ao destino. Felizmente não fui a conduzir e isso aliviou-me um pouco a manhã.

O levantamento dos dorsais foi rápido - estacionar também, para grande surpresa minha - e às 9:00 estávamos tranquilamente sentados para começar a absorver o espírito da prova. Encontrámos amigos neste entretanto, mas havia muito menos caras conhecidas que em outras provas. E senti que havia também menos participantes no geral, sobretudo depois de ter estado no Douro Vinhateiro e ter visto pela tv parte da prova do Dão que fazem parte do mesmo circuito.

Fotos da praxe tiradas, preparativos de última hora tratados e cerca de 15 minutos antes da hora estávamos na partida. Aqui tive a confirmação que não havia tanta gente quanto eu esperava porque ficámos perto da frente sem dificuldade. Nesta altura a malta da caminhada ficou para trás e ainda tentámos convencer uma das colegas dos 10km a fazer a Meia, tendo em conta que ia com dorsal da Meia e sabendo que ela tem capacidade para isso. O nosso "mentor" fez questão de fazer o percurso com ela, sempre na esperança que ela na separação das provas fosse para a maior. (Digo já que ela acabou por fazer só os 10km e em boa hora!)

Últimas palavras de incentivo, cumprimentos finais, 10:30, partida!

Os primeiros kms da prova são sempre a descer o que faz com que o arranque seja rápido e com que os kms passem quase sem se dar por eles. Mesmo! Passagem junto ao estádio da Briosa e viragem em direcção ao centro histórico da cidade, sendo que pelos 5km íamos passar na zona da meta, mas do lado oposto. Havia bastante gente aqui, como seria de esperar e ao entrar na rua que nos levou até ao edifício da Câmara Municipal de Coimbra senti que estava em Lisboa, ali algures no Chiado. Muito bom!

Depois dessa voltinha chegámos à estação de comboios de Coimbra-A e à esquerda estava deslumbrante o Mondego. A partir daqui ele estava sempre ao nosso lado e foi um bom companheiro. Esta foi uma fase crítica da prova. Olhei para o relógio e ia embalado a um ritmo que me permitia bater o meu record da Meia. Decidi abrandar, não por sentir que ia quebrar depressa mas porque estava acima dos meus objectivos para esta prova que era "apenas" um treino longo. Tomei um gel aos 7,5km, a seguir à zona onde se separavam os atletas dos 10km e os da Meia (um pouco antes do que normalmente faria) sabendo que aos 10km iria receber outro para guardar para a segunda metade da prova. E aqui entrei em velocidade de cruzeiro, sem pressa, a curtir a prova e o cenário à minha volta.

Antes dos 10km deu-se uma reviravolta e lá ia eu tranquilo com a minha música e ouço uma voz familiar a meter-se comigo. Olhei e era o nosso mentor que me pergunta se podia ir ali comigo. Fartei-me de rir! O fundador do grupo (do qual eu sou membro desde o primeiro dia), a pessoa que me tem ensinado grande parte daquilo que sei, a pessoa a quem eu recorro sempre que preciso de conselhos e/ou motivação a perguntar-me se me podia acompanhar? Disse-lhe que sim, mas que eu ia devagar, a um ritmo de 5,45m/km - 5,50m/km. Ele disse que era na boa porque ainda estava a recuperar da Maratona de Lisboa na semana passada e também ia devagar.  (O tanas, pá!)

Lá fomos, mas o devagar dele é pelos 5,30m/km! Consegui que não fossemos tão depressa mas íamos mais rápido do que se eu fosse sozinho. Como me ia a sentir muito bem, continuei. Nesta altura sim, achei que ia quebrar mais próximo do final. Já estava numa sensação agridoce de não estar a fazer o meu treininho longo, nem estar a fazer uma prova para melhorar o meu tempo. No meio desta indecisão estava, tal como na semana passada, feliz. E sentia-me bem com o ritmo imposto e com a companhia que tinha ao meu lado. Foi também por ele ter aparecido ao meu lado que fiquei a perceber que a nossa colega tinha ficado pelos 10kms. Perguntei-lhe se daria para o objectivo dela de finalmente baixar dos 60 minutos, ele disse que sim, a não ser que tivesse uma grande quebra no final.

Já estávamos a afastar-nos de Coimbra, a contornar a Mata Nacional do Choupal. Pelo nome, senti-me em casa. Era uma zona calma, onde víamos malta a caminhar, a andar de bicicleta, a fazer canoagem no Mondego, etc. Parecia uma zona propícia à prática do desporto. Passámos para o outro lado do rio e durante uns 2km os atletas cruzavam-se com quem já vinha do ponto de retorno. Foi a altura ideal para perceber onde ia o resto da equipa, para além de alguns amigos. Foi também aqui que percebi o quão bem ia a rolar porque começámos a ultrapassar muita gente que estava a quebrar. Segundo gel aos 15km e estava pronto para o final da prova.

Pouco mudou nos últimos quilómetros, o percurso continuava plano, as rectas eram grandes e havia pouca gente à beira da estrada, algo que só mudou ao chegar à Ponte de Santa Clara para voltar a atravessar o Mondego rumo à meta. Aqui voltei a fazer as minhas habituais figuras e comece a pedir apoio a quem estava a assistir, tal como já tinha feito antes na zona da Câmara Municipal.

"Coimbra, então essas palmas? Nâo estou a ouvir nada! Bora lá!" - disse eu. Normalmente tenho este tipo de reacção numa de duas situações: ou estou mesmo a ficar exausto e preciso de me auto-motivar, ou estou a transbordar de alegria e tenho que a partilhar com alguém. Adivinhem qual foi no domingo, vá. Depois disto, um high 5 ao meu companheiro de viagem e chegámos ao melhor momento da prova: a recta da meta e sentir toda a adrenalina de terminar - em grande estilo. Estava feita mais uma prova, mais uma Meia. E curiosamente foi a primeira vez que cruzámos uma meta lado a lado. Simbolicamente foi importante, sobretudo por ser antes do Porto.



Após a chegada, boas notícias: a nossa colega terminou os 10km com 56 minutos! Perfeito! Infelizmente como ia com dorsal da Meia cedido por um colega que não pôde participar não consta da classificação pelo que não vai ter diploma final da primeira vez que atingiu o objectivo dela. Para a semana na Corrida do Aeroporto repetes a dose, ok? A nossa outra colega dos 10km acabou com 1:02, o que também é record pessoal. Ficámos tremendamente felizes por elas. Também houve record pessoal para o colega que chegou pouco depois de nós com 2:03 - ele que se tinha estrado em Meias Maratonas apenas na semana passada!

E o meu resultado? Deixa cá copiar o texto da semana passada novamente. Ah, e sem pensar nisso fiz o meu 2º melhor tempo na meia, mais perto dos 1:57:47 e com a sensação que me teria aproximado ou até batido esse tempo se esses fossem os planos para esta prova. Talvez numa das duas Meias que ainda pretendo fazer antes do final de 2016, mas sem stress. Coisas boas acontecem quando a felicidade impera.

Foi a curtir os bons resultados que fomos saindo do jardim novamente em direcção à zona da partida onde tinham ficado os carros. Meus amigos, só vos digo uma coisa: escadas do quinchorro! Pesquisem, mas digo-vos desde já que as fotos são bem mais simpáticas que a realidade!

A aventura estava a caminho do fim, mas ainda havia tempo para almoçar - na Pastelaria Vénus, recomendada por um dos nossos colegas - e ainda deu para trazer algumas doçarias para repor as calorias. Eu voto nos pastéis de Santa Clara! Só faltou a visita à Mostra de Doçaria Conventual e Regional de Coimbra que decorria no fim de semana no Quartel da Brigada de Intervenção (antigo Convento de Sant´Ana). O cansaço - e o facto de ser domingo e ainda termos que fazer a viagem de volta - falou mais alto que a gulodice.

Foi a última prova, a última meta antes do Porto. Decidi entretanto que não vou mesmo aos 20km de Almeirim. Agora é contar os dias, as horas, os segundos... Limar as últimas arestas, afinar a estratégia e repetir a felicidade destas duas últimas Meias Maratonas na prova rainha do atletismo.


Prova nº 46 - Meia Maratona de Coimbra 2016 - 21km - 02:00:18

domingo, 2 de outubro de 2016

E a Maratona ali tão perto

O despertador tocou às 6:00. Começava a Maratona. Daqui a quatro horas e meia estaria em cima da Ponte Vasco da Gama na linha de partida para a Rock'n'Roll Meia Maratona de Lisboa.

Porque acordei tão cedo, tendo em conta que até consigo ver a Ponte Vasco da Gama da janela da cozinha? Para pegar no carro e levar 3 colegas de equipa até Cascais para eles sim fazerem os 42,195km e ter tempo para regressar ao Parque das Nações para apanhar os autocarros para cima da ponte. Noutros carros iam os restantes futuros maratonistas, sendo que a maioria iam fazer a estreia na distância. Partida às 7:00, chegada pelas 7:30, abraços e votos finais de boa prova e a certeza que nos iríamos encontrar na meta ou até antes disso, a partir de Santa Apolónia onde os kms finais da Maratona coincidiam com os kms finais da Meia. Para além disso ficava uma grande vontade de ir com eles em vez de voltar a pegar no carro. Calma, rapaz...

Já em cima da ponte encontrei vários companheiros de estrada com quem fui a falar durante um bocado e enquanto aguardava pelos meus restantes companheiros de equipa para a Meia Maratona - alguns deles também a fazer a estreia. Fotos da praxe, palavras de motivação e de ânimo e pernas para que te quero.

Na verdade, andamos mais em cima da ponte no percurso desde que os autocarros nos deixam até à meta do que depois na própria corrida e isso é algo chato nesta prova. Ao fim de 2,5km estamos fora da ponte. Não sei até que ponto isso poderia ser alterado de alguma forma, aumentando a distância corrida efectivamente em cima da ponte e reduzindo no resto do percurso.

Como comecei mais atrás do que queria achei que ia ter dificuldades em manter um ritmo certo no inicio do percurso, mas correr melhor do que eu achava. Fui passando por outras caras conhecidas, cumprimentando rapidamente algumas e ainda chocando com malta que tinha dorsal da Meia mas que ia a caminhar para fazer a Mini. Seja como for, muito menos confusão do que na Ponte 25 de Abril.

Nunca tinha feito esta Meia - apenas a Mini - e esta prova este ano não estava no calendário, mas como ganhei um passatempo da EDP lá fui com um único objectivo: fazer um treino longo, sem pressão. Tinha em mente fazer uma prova calma, mantendo um ritmo sempre abaixo dos 6m/km (de preferência a rondar os 5:50m/km) e sobretudo sem me cansar nos primeiros 10km para depois me testar mais na segunda metade da prova. Isto daria um tempo final ali entre as 2:00 e as 2:05, mas sem qualquer pretensão de me superar em termos de tempo final. Missão cumprida, felizmente!

Consegui chegar aos 10km com cerca de 59 minutos e sem qualquer sinal de cansaço. Estava fresco e a prova para mim parecia que ia começar naquela altura. Era um bom indicativo para a segunda metade. Armei-me em picuinhas e agora que estou novamente a fazer provas com música até me dei ao trabalho de estudar o percurso e afinar a playlist de acordo com ele. Quando vi a placa dos 10km acabou a última música de Kaiser Chiefs que tinha metido no mp3. (Este gajo não é normal, pensam agora vocês... mas acreditem que até isso funcionou!)

Dali até Santa Apolónia e ao ponto de retorno era crucial manter-me focado e assim foi. Na altura em que o percurso da Maratona se junta ao nosso ganhei novo alento, sempre à espera que me aparecer junto de mim algum colega de equipa. As flechas que fizeram 3:15 já tinham passado e agora faltavam os restantes com andamento mais "normal". Nesta fase em que íamos todos juntos só era possível perceber quem estava a fazer que prova pelo dorsal, portanto senti uma união de esforços entre toda a gente e, durante aqueles kms, senti-me mesmo na Maratona. Este feeling permitiu-me, quase sem reparar, estar a manter o meu ritmo e ainda sem cansaço aparente e até à meta parece que não custou nada. Literalmente!

Nas últimas duas Meias que fiz (Douro e Lampas) acabei por ter dificuldades no terço final e andava com receio que isso me fosse voltar a acontecer. Era coisa para me abanar psicologicamente durante o resto do mês de Outubro. Hoje estive bem, senti-me bem. Parei 8 segundos - diz o Strava - para beber um copo de Powerade ao km 19 e apenas porque havia alguma confusão nesse abastecimento. De resto, foi o treino longo que queria. E aqueles dois últimos kms, hein? Voltar a ver a zona do Parque das Nações foi um belo ânimo para terminar.

Confessei uma coisa à chegada: hoje DIVERTI-ME IMENSO durante toda a prova. Para além do apoio que já sabia que ia ter, foi fantástico termos uma claque de apoio composta por elementos da equipa que não participaram. E ver a malta logo ali em frente ao Vasco da Gama deu uma motivação extra impressionante. Cartazes com a sigla da nossa equipa quando menos esperávamos, pompons azuis e vermelhos, malta que saiu de casa e foi ali para o meio da molhada só para mostrar que nos une uma fortíssima amizade. Foi excelente ver várias caras conhecidas de outras equipas amigas nos passeios a tirar fotos e a gritar o nosso nome para dar força. Fui quase sempre com um sorriso no rosto, fui a curtir a minha música e sempre de olho em quem vinha em sentido contrário. Não senti minimamente a pressão de fazer uma meia maratona porque decidi ir para aproveitar o sol, a estrada, etc. Foi bom, foi muito bom! E aposto que quando publicar este post e me for deitar vou lembrar-me de uma série de coisas que podia ter escrito.

E o resultado final? Diverti-me. Há algo mais importante que isso?
Média de 5.50m/km certinhos e um ligeiro amargo de boca - não literal - por ter parado a beber o Powerade. Ah, e sem pensar nisso fiz o meu 2º melhor tempo na meia, longe dos 1:57:47 mas com a sensação que facilmente teria, pelo menos, baixado das duas horas se esses fossem os planos para hoje.

Para a semana segue-se Coimbra e mantém-se o plano de me divertir e fazer novo treino longo. E como sou demasiado analítico - na vida e no trabalho - hei-de voltar a estudar minuciosamente o percurso, apenas com a desvantagem de não conhecer Coimbra da mesma forma que conheço Lisboa.

Hoje estive tremendamente perto da Maratona - no início e nos 8 kms finais. Foi um cheirinho para o Porto.

Prova nº 45 - Rock'n'Roll Meia Maratona de Lisboa 2016 - 21km - 02:03:08