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segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

O regresso às origens - Descobrimentos 2018

"Tu já descobriste a tua fórmula para o sucesso: é não treinares durante a semana!"

Foram estas as palavras que eu ouvi quando disse, ao telefone, qual tinha sido o desfecho da Meia Maratona dos Descobrimentos. Na verdade, apesar de não andar desmotivado para correr, ando super preguiçoso. Depois de amanhã faz um mês desde a Maratona do Porto e desde então eu fiz três provas (Luzia Dias, Meia de Évora e a Meia dos Descobrimentos hoje) e UM treino! Um mísero treino que me correu super mal. Isto é algo que tem obrigatoriamente que mudar porque já não me vai ser possível colher mais frutos do trabalho feito pré-Maratona - e que, já agora, continuo a dizer que foi algo incompleto para o que queria originalmente.

Continuando... Corria o ano de 2014 quando uma certa e determinada pessoa me disse que estava na hora de fazer uma Meia Maratona. Eu disse logo que sim, sem ter bem noção daquilo em que me estava a meter. Fui e terminei feliz da vida com um tempo acima das 2:17. Voltei lá no ano seguinte para ir bater o meu record pessoal na distância. E em 2016, quando me sentia forte para repetir a dose, apanhei uma chuvada tal que foi o ponto de partida para uma prova que me correu mal. Em 2017 fui apoiar alguns colegas e fiquei na meta a fazer reportagem fotográfica. Em 2018 voltei ao lado de dentro da estrada. Nota-se que esta prova, também por ter sido àquela onde me estreei na distância, me é muito querida.

A tal falta de treinos, aliada a uma forte dor no peito do pé desde 5a feira deixavam-me apreensivo. Por outro lado, tinha-me sentido confortável em Évora apesar de ter perdido gás na parte final. Sabia que ia precisar de chegar à zona da partida para entrar no espírito da prova e ver como me sentia. E assim foi. Levantei quase todos os dorsais da equipa, combinámos as boleias e hoje de manhã lá estava, qual Pai Natal, a dar sacos de prendas aos colegas que comigo foram nesta aventura. Um pequeno aquecimento desde o carro até à zona do CCB, uma longa espera na fila para o WC e um aquecimento final a caminho da partida. Por falar em WC, desta vez funcionou tudo na perfeição assim que acordei, ao contrário da semana passada. Muitos atletas chegavam também em cima da hora, mas ainda houve tempo para umas fotos. Como fomos estacionar em sítios diferentes, acabámos por só fazer foto da grupo no final e, mesmo assim, ainda faltaram dois elementos.

Comecei bem, a tentar impor o ritmo que tinha planeado para esta prova. Estava muita gente mas dava para circular bem sem grandes problemas de trânsito e foi uma altura onde me cruzei com várias caras conhecidas. O normal, portanto, ao mesmo tempo que também piscava o olho a quem encontrava em sentido inverso na prova de 10km.

Dois quilómetros até Algés e dois quilómetros de regresso até à zona da partida. E sabem porque fui tão rápido no km4? Havia imensa gente a assistir e a aplaudir. Neste primeiro retorno deu logo para ver a Inês nos 10km e a Inês nos 21km, para além da maioria da malta da equipa. Fiquei contente que para mim os retornos são quase sempre passados a olhar para o outro lado da estrada. A partir daí atentem bem no meu ritmo certinho a 5:25m/km que se haveria de repetir ao longo de vários quilómetros. Foi um misto de ter metido na cabeça que era o ritmo a que queria terminar a prova com o facto de ter apanhado boas lebres involuntárias ao longo do percurso. Uma delas é a... Inês que corre por uma das várias equipas dos bancos do nosso país e outra era uma atleta com a camisola dos Évora Night Runners, mas cujo nome não sei, sendo que também não a encontro na classificação final. Deve chamar-se Inês, de certeza. Lá fui, fui, fui... E notei que, tal como na Luzia Dias, estava menos comunicativo. Poucas eram as vezes em que interagia com outros atletas, mas ia sempre atento a quem me rodeava. Queria mesmo manter-me naquele grupo de atletas que iam a um ritmo semelhante ao meu e estava a cumprir à risca os planos que trazia, não na manga, mas na mão. Sim, na mão.



Ora bem, o meu record na Meia vinha do Douro Vinhateiro em Maio deste ano com um tempo de 1:54:56, o que dava uma média de 5:27m/km. Assim sendo, na noite anterior tinha escrito na mão os parciais aos 5, 10 e 15km para um ritmo de 5:25m/km e a comparação com o record do Douro. "E foste escrever na palma da mão que é logo um sítio onde transpiramos muito?" - perguntou-me um colega quando lhe mostrei uma espécie de borrão que tinha no final da prova. De acordo com o meu padrão de aprendizagem, escrever é uma boa maneira que eu tenho de assimilar conhecimentos. Acima disso, sou uma pessoa muito visual, portanto as 50 vezes que olhei para a mão antes de ir dormir fizeram com que tivesse acordado sabendo de cor e salteado que tinha que passar com 27, 54 e 1:21 para estar com tempo de record pessoal. Para minha agradável surpresa, passei sempre abaixo do que tinha escrito. Yes! A motivação estava sempre em alta!

Tive receio do empedrado a partir da zona do Cais do Sodré até ao Terreiro do Paço. Achei que estava a perder velocidade, mas percebo agora ao ver no Strava que até aumentei um pouco ritmo nessa zona. Ia super focado e com muito cuidado para não pisar em falso. O gel já tinha sido tomado pelos 9km e se calhar tinha um efeito psicológico positivo, para além de ter cumprido a sua função original. 

Passo a passo, quilómetro a quilómetro, as pequenas metas iam sendo ultrapassadas. Agora o foco era rumar a Santa Apolónia para novo retorno. Ouço gritar o meu nome algumas vezes, grito um ou outro nome também mas o mais natural era esticar o braço para dar uns high-5 ou simplesmente para acenar ou levantar o polegar. Ora agora vamos para trás e dar um saltinho ao Rossio. Até tive suores frios por me lembrar que foi lá que a minha prova "terminou" em 2016. Desta vez tudo correu pelo melhor e o quilómetro 14 mostra isso. Incomodou-me que numa zona tão cheia de gente apenas 4 ou 5 pessoas tivessem reagido à nossa passagem mas como já estava à espera que assim fosse segui viagem de olhos postos na estrada, no relógio e no que faltava para terminar a prova. Ansiava pelos 15km para confirmar que continuava com alguns segundos de margem até ao final. E estava! Agora a luta era cada vez mais intensa com as pernas que estavam a sentir-se muito massacradas. Tenho cada vez mais a confirmação que foi a última prova feita pelos meus Adidas Energy Boost que estão à beirinha dos 1000km. Falarei disso num post em breve. A cabeça, essa, sabia o que queria, sabia ao que ia e tudo iria fazer para cumprir com o objectivo. Estou a cinco quilómetros de bater o meu record pessoal na Meia Maratona! Percebi que tinha perdido uns segundos no abastecimento - não por ter parado, mas porque estava a tentar apanhar um gel da prova que é igual ao que uso mas acabei por apanhar uma barrinha. Meti-a no flipbelt e tirei de lá o segundo gel que levava. Não consigo correr destas barras enquanto corro. 

E agora? Consigo aguentar-me até ao final? Tive dúvidas porque o relógio marcava sempre o mesmo. 5:25m/km... Estaria avariado ou eu tinha metido o piloto automático? O grupo que ia à minha volta era diferente mas igualmente certinho no ritmo. Éramos quase sempre os mesmos pelo que as minhas referências estavam bem identificadas. A única vez que ia perdendo a concentração foi quando me deixei apanhar por uma conversa mesmo atrás de mim em que um atleta motivava duas outras colegas e a conversa girava em torno do seu eterno desejo de fazer striptease de forma profissional ao mesmo tempo que a ___ (inserir um nome feminino, imagino que seria a sua mulher) gostava de aprender a dança do varão pelo que ele ainda lhe ia oferecer um voucher para umas aulas. Eu ri-me por dentro, mas não por fora porque o oxigénio tinha que ser bem gerido.

Foi aqui que passou por mim o Fernando Andrade que eu tentei acompanhar durante umas centenas de metros mas não mais que isso. Ele "deixou-me" junto a um casal onde ele dizia à mulher que ela estava novamente com aquela respiração orgásmica que não era apropriada para correr portanto ela tinha que a controlar. Oh pá, não me façam rir! Mas obrigado pela distração, com isto tudo o ritmo continua igual. Já contaram o número de quilómetros feitos a 5:25m/km?

Eu já só pensava em chegar ao vigésimo quilómetro e ele aproximava-se a passos largos e decididos. Passando nessa marca com cerca de 1:48 era o ataque final à meta. Não me surpreende que o último quilómetro tenha sido o mais rápido. Lembrei-me de tanta coisa. Das lágrimas de alegria em 2014, do record em 2015, do sofrimento em 2016. E embalei pela Praça do Império até ao fim! Não havia cá dores de pernas nem as dores no pé durante a semana. Havia um querer enorme em bater o meu melhor tempo e, eventualmente, baixar para o minuto 53. Ali sim, num último ímpeto era o local ideal para puxar pelo público. Ainda vi os meus colegas de equipa que já tinham terminado. Na realidade, o grupo que foi é muito forte e só um terminou atrás de mim. Descobri entretanto que, tal como a atleta dos Évora Night Runners foi a fazer de minha lebre, também eu fui a lebre deste meu colega que me foi a seguir até aos 12km, altura em que não conseguiu aguentar o andamento. Agradeceu-me imenso no final porque conseguiu bater o seu record pessoal com a minha ajuda involuntária. Porreiro!

A passagem pela meta foi rápida. Lembro-me vagamente de festejar mas nem sei como. Fiz pose para o fotógrafo da praxe que lá estava e encostei-me ao gradeamento. Feliz, muito feliz. O tempo do cronómetro e o tempo do relógio confirmavam claramente o record pessoal, mas não me garantiam se tinha descido ao minuto 53. Seria à justa.

O reencontro com os colegas foi excelente. Quase todos levavam recordes pessoais para casa, podíamos ir festejar após o regresso e assim fizemos. O brinde foi com minis, mas o sucesso foi da Meia!

Foi a quarta vez que marquei presença na prova e o meu histórico é este:









Foi também a terceira vez - uma delas obviamente na estreia - que bati um record pessoal aqui! Só não o consegui em 2016. Hoje foi a minha 22ª Meia Maratona. Esqueci-me por completo de mencionar a efeméride dos vinte e um 21kms em Évora.

O último mês e meio tem sido um fartote de coisas boas: record em provas de 20km, record na Maratona, uma experiência num pódio de escalão em 5km e record da Meia Maratona. Agora era giro bater o record dos 10km no fecho do ano numa prova pouco propícia a isso como a São Silvestre de Lisboa. Tentar não custa e sonhar não paga imposto!

O resto do dia ficou marcado pelo rescaldo desta prova mas também pelo saber de notícias vindas de terras de nuestros hermanos! Sobre isso também falo noutro texto.

Já sabem... para a semana estou inscrito num trail em Alcanena. Wish me luck...! 
 

Prova nº 98 - Meia Maratona dos Descobrimentos 2018 - 21km - 01:54:02

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Correr e comer...

... são duas palavras que se escrevem quase da mesma maneira. Acredito que não seja coincidência!
 
Nesse sentido, Évora é um local perfeito para se fazerem ambas! Não foi, portanto, surpresa que eu tenha ido fazer a Meia Maratona pelo quarto ano consecutivo, mantendo-me como totalista na prova. Em itálico, porque descobri recentemente que num dos anos fiz a prova com o dorsal de um colega de equipa que não pôde comparecer. Já nem me lembrava disso e foi um ligeiro balde de água fria. Sou totalista de forma oficiosa, mas por causa disto nunca serei de forma oficial. Fica aqui também a nota para juntar à discussão sobre participar em provas com dorsal alheio.

Confesso que, apesar de tudo, não estava com muita vontade em ir. Nenhuma razão em particular, circunstâncias da vida, talvez. Ou apenas parvoíce porque quando o despertador tocou às 6:00 não precisei de muito para saltar da cama e às 7:00 conforme combinado já estava o grupo todo reunido para arrancarmos. A viagem fez-se de forma tranquila e com chuva ligeira - o regresso foi com um temporal, mas não tão violento como o que apanhámos depois do Porto - que ainda caia quando chegámos ao estacionamento habitual. Os dorsais foram levantados de forma rápida e ficámos com bastante tempo para queimar que foi passado em amena cavaqueira num dos cafés próximos da partida. Cafézinho tomado, idas ao wc, tudo em ordem. Quase, porque da minha parte não ficou o serviço feito na totalidade, o que se veio a revelar muito incómodo a certa altura da prova.
 
Foi no café que percebi que a nossa enfermeira de serviço afinal não ia fazer a Meia Maratona, mas sim os 10km. Isso significava que desta vez eu seria o único elemento a fazer os 21km, dois fariam os 10km e o grosso do grupo estava presente na caminhada. Isso dava-me alguma pressão extra e azo a promessas de que se eu demorasse muito a terminar a malta ia pegar nos carros para irem andando para o restaurante e eu teria que ir a correr até lá. 'Tá bem... Também gosto muito de vocês!

Regresso aos carros para terminar de equipar, escolher os casacos certos para a chuva (que iria desaparecer antes do início da prova), tirar umas últimas fotos e lá fomos até aos pórticos de partida. E aqui tenho que fazer um comentário de algo que me incomodou e que parece ser cada vez mais habitual em provas. O speaker estava bastante animado e ia dando os agradecimentos finais nesta que foi a última prova do ano do circuito Running Wonders. Até aqui, tudo bem. Mas no momento em que disse que estavam presentes 6000 pessoas eu achei completamente descabido. Já vi que terminaram a Meia 604 atletas e os 10km 703 atletas. Aqui estão 1507 e garantidamente que não havia 4500 pessoas na caminhada. Também duvido muito que estivessem 6000 inscritos e que para aí metade não tenham aparecido. Este exagerar do número de participantes nas provas chateia-me. Desabafo feito.

Vamos é correr antes que chova! Os primeiros quilómetros no centro de Évora são complicados. As ruas estreitas, muita curva e contra-curva, empedrado, mais empedrado, sobe e desce. Um Urban Trail, ouvi eu de outro atleta. Senti foi menos atropelos e, mais importante, sentia-me bem pelo que fui andando a um ritmo agradável, mesmo quando se começa a subir pelo zona exterior das muralhas. Até achei que estava a ir demasiado depressa. Não sabia eu o furacão que aí vinha após o quarto quilómetro. Estou eu tranquilo nos meus pensamentos e a começar a ver que a malta da caminhada estava a começar a aparecer em sentido contrário quando alguém me dá o braço e me puxa. Era uma amiga, aquela que há uns tempos me chamou estúpido por ter desistido no Douro Vinhateiro naquela altura fatídica da minha vida. E fomos na conversa durante largos quilómetros, apenas interrompidos pelo facto de ter conseguido ver o nosso grupo de caminhada e termos feito uma grande festa!   
Ora, esta amiga é uma máquina. Daquelas que em dia sim faz tempos do caraças, mas que hoje me disse que ia mais tranquila porque estava toda lixada (mensagem original censurada) por causa do treino muito rápido feito ontem. Disse-me que ia comigo porque eu ia a um ritmo agradável. 5:30m/km, boa? Pronto, já tenho companhia, mas se ela acelera dá cabo de mim. E como se pode ver, os quilómetros seguintes foram bem rápidos. Íamos na conversa, em amena cavaqueira sobre provas, dilemas entre trail e estrada, a menos motivação dela para a estrada por sentir que está a perder velocidade portanto com mais vontade de dar prioridade ao trail. E eu confirmei que sentia que estava com dificuldades em reduzir o tempo aos 10km, mas que quem me tira o alcatrão tira-me tudo, portanto tenho-me sentido mais confortável nas provas mais longas. E fomos, e fomos, conversámos imenso e os quilómetros iam passando. Novamente no ritmo ideal, até porque a estrada inclinava um pouco para cima. Apanhámos novamente a malta da caminhada, desviei-me da estrada para me fazer à foto em modo aviador, de braços bem abertos e sorriso rasgado. Ela percebeu que aqueles breves momentos significavam uma motivação extra e continuou sempre a puxar por mim para nos mantermos juntos. Ela disse que nunca fez uma Meia acima das duas horas, eu respondi que queria tentar fazer Évora abaixo das duas horas pela primeira vez. Vamos ajudar-nos mutuamente! Assim fomos até meio da prova. Nessa altura ela já ia uns metros à minha frente e dois atletas tinham metido conversa com ela sobretudo quando ela gritou o meu nome e eu prontamente respondi a confirmar que estava perto. Ainda tentei puxar por mim, mas aos chegar ao abastecimento dos 10km ela já estava a ficar mais longe e ir atrás dela era escusado. Máquina é máquina! Via novamente no final onde demos um enorme abraço e ela me pediu desculpa por não ter esperado por mim. Qual desculpa, qual quê? Obrigado e mantém-te sempre assim, porque quando se tem bom coração a cor da camisola que representamos é irrelevante.
Parei uns segundos no abastecimento para beber isotónico. Tenho que tentar parar com esta mania, mas beber naqueles copos em andamento é virtualmente impossível
 

Baterias carregadas e um tempo de uma hora certinha aos 11 quilómetros, altura em que tomei um gel. Só preciso de fazer uma hora nos restantes 10km e a coisa fica feita. Tentei manter o ritmo anterior e até acelerei um pouco quando encontrei um atleta de Leião e meti conversa com ele. Estiquei-me um bocado e tive que abrandar, mas foi pena porque ir a falar com alguém estava a fazer-me bem. Nesta zona mais afastada da cidade sabia que íamos fazer uma espécie de quadrado. Mais um menos dois quilómetros e viramos à esquerda, a mesma coisa a seguir e novamente e repete outra vez até fechar os quatro lados, pelo que o meu objectivo era sempre chegar à próxima viragem à esquerda. Infelizmente tive mesmo que voltar a parar no abastecimento seguinte, aos 15km. Foi aqui que comecei a sentir o peso e o desconforto de não ter feito tudo o que devia no wc antes da prova.
Respirei fundo e tentei abstrair-me disso. Ia mais devagar que antes, mas mesmo assim a um ritmo controlado que me permitia gerir o tempo que tinha ganho até ali. Infelizmente não foi possível continuar assim até final. O quilómetro 19, onde havia um último abastecimento, foi mais complicado e tive mesmo que caminhar um pouco. Foi aqui que o objectivo de tempo para a prova se esfumou. Ainda tentei ganhar um ânimo final ao reentrar em Évora, mas aí foi o empedrado que me tirou as esperanças finais. Caraças que ao fim de quatro anos aquilo continua a custar. Nesta fase já me tinha cruzado algumas vezes com um atleta em que ou passava ele ou passava eu e antes da placa dos 20km ele pergunta-me se agora vamos a correr até ao fim. Disse-lhe que sim, só que não. Paciência, as pernas já não davam para muito mais. 

Engane-se quem pensa que eu estava desanimado com este rombo final no ritmo. Ainda deu para uma animada troca de palavras com um elemento da organização e para lhe dizer que a subida até ao Giraldo continua demasiado íngreme e com muito empedrado. Ficou a promessa de resolverem a situação para o ano. Deixe estar, se não tratarem disso eu venho cá na mesma comer sopa de cação.

E pronto, agora é só virar à esquerda para aqueles 500 metros finais até à meta que parecem ter 10 quilómetros. Um dos meus colegas veio ter comigo para um apoio final. O resto da malta está ali em cima, à direita. E a corda? Onde é que está a corda para me puxar? De alguma forma lá consegui subir aquela montanha até passar a meta com um ar de pura alegria. Nem percebi bem o tempo, mas pouco interessava. Vamos é almoçar, pá!

Fotos finais, abraços finais e muitos sorrisos. Mais uma prova feita e as dificuldades dos últimos quilómetros já estavam esquecidas. Enquanto descíamos para o estacionamento já ia todo contente a dar força a quem ainda acabava a prova. O sorriso transformou-se em ligeira preocupação quando me de uma valente câimbra quando estava a alongar. Nunca me tinha acontecido de forma tão intensa! Felizmente quem tem uma enfermeira como a nossa, tem tudo. E ela tinha uma ampola de magnésio que, por acaso, não tinha tomado antes da prova e deu-me para ajudar. E ajudou.
 
Vamos almoçar! E fomos, apesar da dificuldade em dar com o caminho certo tal era a quantidade de estradas ainda cortadas. O almoço demorou praticamente tanto tempo como a minha prova e devo ter recuperado todas as calorias que perdi. Oh meus amigos, come-se tão bem no Alentejo. E bebe-se igualmente bem. Deve haver por aí fotos, algumas até passíveis de causar algum embaraço. Felizmente eu faço sempre questão de reservar o lugar do pendura nos regressos pós-prova.

Não fiz abaixo das duas horas. Não melhorei o meu tempo em Évora por 21 segundos.
Chateado? Nada disso! Corri, comi e diverti-me. Enquanto for assim está tudo bem.
Venha a próxima, a Meia Maratona dos Descobrimentos.
 
 
Prova nº 97 - Meia Maratona de Évora 2018 - 21km - 02:02:31

domingo, 18 de novembro de 2018

Pódio

Começar o texto logo com este título estraga um bocado o suspense, não é? Mas, mais uma vez, a coisa já se soltou por essas redes sociais fora, portanto...

Andei um ano com esta prova secretamente debaixo de olho, depois de no ano passado ter visto as classificações e a vitória do meu amigo Zatopek no seu (e meu) escalão. Olhei, olhei, vi os resultados no geral e meti na cabeça que ia tentar uma brincadeira em 2018. Ele nem sequer está em Portugal, portanto... A certa altura o meu maior receio era que a prova coincidisse com a Maratona do Porto, mas rapidamente percebi que não havia esse risco. Passei, portanto, um ano a pensar nisto quase tanto como pensava no Porto.

Ah e tal, o gajo é modesto e diz que gosta de correr porque é fixe e pelo convívio e mais-não-sei-o-quê, mas afinal é fanático por isto das medalhas e não dizia nada a ninguém. Ora bem, antes de hoje, em 95 provas eu apenas tinha ficado na primeira metade da classificação em 24 delas. E em provas de 10km de média dimensão fiquei duas vezes dentro dos primeiros 200 classificados. Bem bom. Isso e um terceiro lugar - por erro da organização - numa das edições da extinta MEO Urban Trail. Nunca na vida irei ganhar nada mais sério, portanto no dia em que percebi um pequeno vislumbre de poder fazer uma gracinha, tentei. Garantidamente que para o ano isso já não acontece.

A única vez que falei na prova foi quando um colega de equipa se tentou inscrever e eu lá estava como responsável pela equipa porque já o tinha feito antes. E mesmo assim, nem lhe disse que "só" ia fazer os 5km. Comentei isso mais tarde, mas sem fazer grande alarido. Ele também nem achou estranho eu optar pela prova curta num evento que tem prova de 10km, mas como o percurso não é sequer muito plano e eu vinha da Maratona... Hoje, depois de aquecermos, ele e o resto dos amigos que foram connosco seguiram para o pórtico da partida dos 10km e eu pedi para fazer a foto de grupo naquele momento porque ia para o pórtico dos 5km que era noutra rua. Todos acharam estranho, perguntaram se eu estava bem, se estava lesionado, se eu estava a brincar, se... se... 

"Não, venho da Maratona e tenho duas Meias de seguida, hoje venho só para relaxar um pouco. Fiquem tranquilos."

Na partida confirmei que estava pouca gente. Tentei ler os rostos, o físico e os dorsais de quem por ali estava para perceber se teria muita gente do escalão. Já tinha encontrado vários amigos antes da prova, um dos quais "subiu" este ano para o meu escalão e também ia para os 5km. Pronto, ele faz 40' aos 10km, portanto...  Tentava também esquecer o péssimo treino que fiz na 5a feira com a equipa. Respiração não acalmava, pernas não reagiam, cabeça não funcionava. Aproveitei a "desculpa" de ficar com o grupo mais lento para conseguir sentir-me minimamente útil naquele dia e num treino de 10km só ao fim do sexto é que a coisa lá estabilizou. Enfim, não foi uma semana fácil, portanto...

Hoje a ideia era simples: correr o mais depressa possível, aguentar-me nas subidas e voar nas descidas. A chuva parou antes da prova, havia apenas que tentar evitar as imensas poças de água no chão. Relógio pronto e, de repente, deu-se a partida. O speaker estava mais próximo do pórtico dos 10km e na nossa zona, numa rua uns 300 metros mais à frente, não se ouvia nada. Não sei se ter aquecido ajudou, mas o que é certo é que disparei rápido e, sendo poucos, longe de atropelos. Obviamente que os verdadeiros craques voaram bem mais depressa atrás do carro-relógio e eu foquei-me em seguir a Luzia Dias, anfitriã do evento, que no ano passado tinha feito 24 minutos. Hoje fez abaixo dos 22, daí que a meio da prova eu tenha deixado de a ver por perto.

As partidas em separado foram, disseram-me, uma novidade em relação aos anos anteriores. Isto fez com que ainda antes do primeiro quilómetro estivesse a malta dos 10 a passar por nós. Ou, pelo menos, pelos não-tão-rápidos, tipo eu. O que foi porreiro para mim foi que tanto a minha malta, como outras caras conhecidas me iam desejando força quando me ultrapassavam. Eu agradecia e naqueles breves metros tentava ir na peugada deles, algo que só consegui fazer mais ou menos na altura em que deixei de ver a Luzia. Foi bom porque foquei precisamente no meu colega de equipa que ao passar por mim me disse que era só mais esta subida dura e depois era tranquilo.

Devo ter olhado umas duas ou três vezes para o relógio. Independentemente do que ele dissesse, a única opção era ser rápido e manter o ritmo até à meta. Naquela altura já era quase impossível perceber quem estava para os 5 ou para os 10. Como a partida tinha sido quase inesperada e este relógio tem uma contagem decrescente (que me irrita um pouco e não dá para tirar) quando se inicia um treino, só começou a contar uns 50 metros após o início e como não havia placas de distância não valia a pena fazer grandes contas.

Ia conseguindo visualizar na estrada aquilo que tinha visto no mapa em relação ao percurso e quando percebi que estava perto de entrar no último quilómetro ouço uma voz conhecida. Mais um amigo (e conterrâneo) que vinha para os 10km e se colou a mim. Houve aquele momento sempre estranho, como acontece quando, por exemplo, nos despedimos de alguém à saída do escritório e depois vamos ambos para o mesmo lado. Ambos desejámos bom resto de prova um ao outro. Dissemos até já. Ele diz-me que a minha está quase a terminar e... vamos lado a lado o resto do tempo. Só na separação para a minha meta é que deixámos de ir juntos. Foi porreiro para ter ali companhia para a parte final.

Desvio para a meta e está feito. Abaixo dos 24 minutos, vejo por alto. Ok, nem sequer é o meu melhor tempo aos 5km, mas o percurso é sinuoso e os outros dois registos que tenho de prova são em provas que foram maioritariamente planas e/ou a descer. O speaker vai dando força a quem chega e diz que já há resultados online em tempo real no site. Não tenho telemóvel comigo, ficou no carro. Não tenho as chaves do carro. Eu espero. Encontro o vencedor da prova - outro amigo - e fico à conversa com ele. Começo a dar umas voltas à zona da chegada em ritmo de descompressão enquanto espero pelo resto da malta, até que vejo outro amigo que me diz que falhei o pódio por um segundo. Fosga-se, para não dizer pior. Foi o atleta que chegou à minha frente. Paciência, tento novamente para o ano.

Vai chegando a malta dos 10km, uns mais rebentados que outros e vamos até aos carros para mudar de roupa enquanto esperamos pelas cerimónias do pódio. Encontro o tal rapaz que agora me faz concorrência de escalão e ficamos imenso tempo à conversa sobre esta e outras provas. Conhecemo-nos há uns dois anos na B2Run porque ambos ganhámos um passatempo para ir correr pela equipa da Rádio Comercial e ficámos amigos deste então. Coisas boas disto do running e tal. Ele até me pediu desculpa por me ter "tirado" um lugar no pódio.

Regressamos à zona da chegada, eu já com o telemóvel na mão a ver as restantes classificações. Temos mais dois elementos às portas do pódio na prova de 10km: um 6º e um 7º. Bom esforço malta. Até que chamam o meu nome! O quê? Estava mesmo ao lado do organizador do evento que ia chamando os atletas e pergunto-lhe se chamou o meu nome. Confirma. Mas no site não estou no top-3, digo-lhe. Mas essas são classificações provisórias, as que eu tenho são certas, portanto...

Subi ao pódio com um ar quase incrédulo, mas muito bem acompanhado. Só quando fomos mudar de roupa aos carros é que tinha confessado ao pessoal a minha secreta esperança e o meu objectivo escondido por trás de uma inscrição para fazer "apenas" 5km. Malandro, dizem-me! 

E pronto. Adorei estar lá em cima. Foram 30 segundos, talvez um pouco mais. A mim pareceram-me passar demasiado depressa, mas tentei aproveitá-los ao máximo porque tão depressa - ou nunca mais - não tenho esta oportunidade. Fotos e mais fotos. Consegui, venho com o pescoço um pouco mais dorido que o habitual por causa do esforço extra, mas esta medalha já ninguém me tira!



Melhor ainda a seguir. Afinal aquele 6º de escalão também era 3º. O 7º é que era mesmo 7º.
Regresso a casa e pronto. Nada mais há a fazer.

Como já aqui disse antes: hoje foi bom, mas amanhã começa tudo de novo.



Prova nº 96 - Corrida Luzia Dias 2018 - 5km - 00:23:38

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Maratona do Porto 2018

Concluí ontem no Porto a minha terceira Maratona, mas fui menos feliz que no ano passado. Seis minutos e quarenta e um segundos menos feliz, para ser mais preciso, pois foi esse o tempo que tirei ao meu record que trazia de 2017! Nem vale muito a pena guardar suspense até ao fim, tendo em conta que já tinha partilhado o resultado nas minhas restantes redes sociais. E mesmo que não o tivesse feito, no domingo quando a malta se sentou para almoçar e eu tive finalmente disponibilidade para ligar o wi-fi no telemóvel já tinha recebido duas mensagens de parabéns pelo record! Obrigado por isso! Quem corre sabe bem a importância do apoio que vem de fora, mas vocês não têm noção do quanto isso me ajudou ontem a chegar ao fim. Obrigado, 42,195kms de obrigados!

Seis minutos e quarenta e um segundos menos feliz? Claro, quanto mais tempo corro mais feliz fico!

A aventura para o Porto começou praticamente na altura em que tinha terminado a Maratona do ano passado. Já sabia que iria voltar e aproveitei a típica promoção de fim de ano para fazer a inscrição, mesmo que o preço fosse um pouco superior e que a pasta party tivesse sido à parte em vez de estar incluída. Sabia também que iria comigo à prova um grande amigo e colega de equipa, pelo que o fim de semana iria ser em excelente companhia e com muito apoio das respectivas famílias do lado de fora do gradeamento!

Ultrapassando algumas questões logísticas inesperados com o hotel - este ano foi tudo muito estranho - lá chegámos à Alfândega para levantar os dorsais, beber daquele espírito e acabar com o reforço de hidratos de carbono. Foi também aí que comecei a ver muitas caras conhecidas o que ajuda sempre. Aliás, a primeira cara conhecida que vi até foi o João Lima na estação de serviço da Mealhada. 


Muita brincadeira e boa disposição, muita ansiedade e lá fomos até Matosinhos fazer o check-in, relaxar um pouco, jantar e dar um curto passeio antes de regressar à base para preparar tudo para as emoções do dia seguinte. Eu não dispensei a tradicional foto nocturna à Anémona.



A minha preocupação era sobretudo uma: a que horas ia começar a chover? Isso ia fazer toda a diferença! Fazer 10km à chuva é bem diferente de fazer 42. As previsões iniciais diziam que só chovia a partir do meio-dia, depois a actualização dizia ser a partir das 9h e eventualmente a partir das 7h. Já sabia que não ia escapar a uma boa molha.

A manhã acordou sem chuva, mas ela apareceu durante o pequeno-almoço. Já agora, o hotel que é pequeno estava carregado de atletas como nunca vi nos últimos anos! Fomos os últimos a sair, mas ainda a tempo da prova. Tínhamos marcado foto de equipa às 8:30 com a restante malta presente, mas à hora que chegámos não estava lá ninguém portanto tirámos nós e acabámos por nos cruzar com o restante pessoal durante os retornos da prova. E lá fomos, uma dupla da maratonistas, a nossa ET na Family Race e o resto da falange de apoio na caminhada, mas a fazer uma maratona por fora e a dar high-5 sempre que possível a quem passava enquanto esperavam por nós.

O plano que tínhamos era mais ou menos simples e ia adaptar-se ao longo dos quilómetros. O meu colega, Gajo da ET, é um gajo com pouco juízo no que diz respeito a gerir esforço portanto estipulou que se ia agarrar a mim até meio da prova e depois logo se via como se iria sentir para a segunda metade. Eu agradeci a companhia - e o elogio relativamente ao meu juízo - e aproveitei também para ir ligeiramente mais rápido do que planeado nessa fase, mas nada que fosse ter grandes implicações negativas no cansaço final. Relativamente à companhia, fiz as contas e nas três maratonas que tenho no currículo apenas fiz cerca de 32 quilómetros sozinho. Ou seja, sem nenhum colega de equipa ao lado.

O ritmo que eu tinha em mente era a rondar os 5:50m/km, mas se fosse a 5:45m/km também não era mau de todo. Depois de uma fase inicial a ganhar posição no pelotão passou por nós a bandeira das 4:15 e fomos confortavelmente atrás dela até que quase sem querer a ultrapassámos com relativa facilidade. Percebemos que ou fomos nós que aceleramos um pouco ou ela tinha reduzido o ritmo e estava também a estabilizar o andamento. O que é certo é que fomos bastante tempo à frente e sempre de olho no outro lado da estrada quando apareceram os primeiros retornos. Conseguimos ver parte da malta da equipa, para além de mais malta amiga. Rapidamente estávamos nos 5kms à procura da nossa claque que encontrámos sem problemas apesar da quantidade de gente ali presente. Tudo tranquilo, ambos a um ritmo saudável para as nossas ambições. E quando acelerámos na descida até foi ele a comentar isso, ao que eu respondi que sabia mas que já voltávamos ao planeado. A ida até ao porto de Leixões e regresso à rotunda da Anémona fez-se num ápice, novamente entre bom ambiente, procura de amigos e colegas e sorrisos. Recordo-me que a certa altura ouço algo - que já nem me lembro o que foi - vindo de dois atletas atrás de mim e a minha reacção imediata, sem olhar, foi: "Temos Pernetas por perto, chegou a festa!" "É isso mesmo!" ouvi em resposta. Bem antes disso também já tinha visto o Carlos nos quilómetros iniciais. Outra cara que é sempre um prazer rever. Mais tarde haveria de encontrar a Dora a quem desejei força, sem ela fazer ideia de quem eu era, suponho eu. Mas essa é uma das belezas disto de correr, sobretudo numa Maratona. 
Encontrámos a ET, seguimos em direcção à Anémona, o João Lima passou por nós e desejou-me força para me tornar tri-maratonista. Pequenos momentos que muita importância teriam lá mais para a frente. Chegámos ao ponto de separação das provas, vamos lá fazer mais 30 quilómetros que os primeiros 12 passaram a voar.

Como habitual, nota-se logo que algo mudou. Menos atletas em prova, menos público na estrada. Não que o apoio tivesse desaparecido, mas as zonas de Matosinhos, Parque da Cidade e Anémona têm sempre uma moldura humana brutal. Agora a interacção era mais com colegas de estrada. A chuva - sim, já tinha começado a chover - afastou naturalmente algum pessoal, mas o Porto nisto não desilude e quem lá estava fez sempre os possíveis para dar força aos atletas. Portugueses, estrangeiros, não interessava!

Nós continuávamos ao nosso andamento, nada de novo. Mesmo. Ele ainda me perguntava se não estávamos a ir muito depressa para o que eu queria e eu ia olhando para o relógio para confirmar que aquilo que ele marcava batia certo com o que as pernas sentiam. Um pequeno início de cansaço era amenizado com o segundo gel, também dentro do planeado. Ele também tinha uma estratégia de gel que correu bem. À beira da estrada havia malta num café a quem eu pedi imperiais. Não tinham, mas havia finos! Esqueci-me de onde estava e ele corrigiu-me no imediato. À nossa frente um atleta tinha o telemóvel no bolso dos calções com a luz do flash ligada. Quando o alertámos ele solta um "Fogo, tenho um pirilampo no rabo, carago!" Agora metam sotaque do norte nesta frase e estamos no ambiente certo. Carago! 
Em sentido contrário vimos os primeiros classificados, batemos palmas e comentava-se o ritmo frenético a que vão. E recordámos o vídeo da passadeira a simular a velocidade do record do mundo da Maratona batido em Berlim e a impossibilidade de fazer sequer um quilómetro àquele ritmo, quando mais 42!

A segunda fase da prova estava a terminar. Passagem aos 20km, a confusão habitual naquele abastecimento que é o primeiro a ter reforço sólido. Consegui tirar duas embalagens de gel para substituir os que tinha tomado. O facto do gel oficial da prova ser exactamente aquele que tomo facilitou esta questão e deixou-me muito mais tranquilo. A passagem pela ponte Dom Luís é sempre um marco da prova. É preciso algum cuidado na zona antes da ponte porque o empedrado a descer pode causar alguma escorregadela inadvertida, sobretudo com as condições climatéricas de ontem. Já disse que estava a chover? Ele avançou um pouco e eu tive cuidado extra ali. Depois começo a ver o mar de gente habitual e não me contive nos gritos, nos pedidos de palmas e de barulho. Tive imenso retorno, malta a gritar o meu nome, malta a dizer-me que quando eu passar de regresso ao Porto ali estarão para apoiar novamente. E fiz um sprint tão grande para o apanhar no meio desta loucura que fiquei sem fôlego, mas valeu muito a pena. Nem eu sabia o quanto, naquela altura! Agora era uma altura em que teríamos que tomar uma decisão e ela aconteceu sem sequer falarmos. À passagem pelo pórtico da Meia Maratona eu abrandei ligeiramente o ritmo e ele seguiu no mesmo andamento. Isto foi tão natural que ele nem se apercebeu. O nosso trabalho de equipa em conjunto terminava aqui: ele tinha mantido o juízo durante metade da prova para não rebentar muito cedo e eu tinha feito uma meia maratona em boa companhia e ia agora fazer a outra meia até à meta a tentar continuar a gerir o esforço. Ele só rebentaria aos 33km, mas a marretada foi bem mais suave do que ele temia. Eu rebentei aos 26/27km. Pois.
Ainda antes disso vieram momentos engraçados. No espaço de um ou dois minutos tive um atleta do Correr Lisboa a desejar-me força e chamando-me pelo meu apelido! Logo a seguir alguém que me incentivou através do nome da equipa e atrás dele outro atleta que me chamou pelo primeiro nome. Confesso aqui que não reconheci nenhum destes três atletas e fiquei à nora enquanto ia ouvindo estes incentivos "anónimos". Da mesma forma, vi também o outro maratonista da equipa que ia bem, juntamente com outro amigo nosso que estava a lutar contra uma gripe e posteriormente o André que fez uma marca excelente na sua prova!

Decidi também dar uma de apoiante anónimo e quando vi a Susana passar gritei-lhe um "Força Unicórnio!" Apoio nunca é demais, pois não?

Com isto vinha o abastecimento dos 25km onde fiz uma pequena pausa para hidratar, respirei fundo e segui!

E quebrei. Foi um misto de muita coisa: pés frios, esforço extra por causa da chuva e do empedrado, não sei, foi tudo junto. Gelou-se-me tudo, desde o coração à cabeça, passando pelo resto do corpo. E o pior foram os fortes espasmos que comecei a sentir no joelho direito. Tentei continuar a correr, mais devagar, mas em breve tive que caminhar pela primeira vez. E os espasmos iam e vinham. Quando desapareciam ganhava forças e esquecia, mas quando voltavam ficava assustado. E ao quilómetro 27 da minha terceira Maratona pensei pela primeira e única vez que não iria conseguir acabar.

Só pensava em voltar a atravessar a ponte e logo se via o que ia fazer depois disso. Caminhei um pouco, alternei com corrida ligeira e ia dizendo ao joelho que estava a ser parvo. Decidi que não iria passar a ponte a andar, porque aquilo havia de ter imensa gente ainda a apoiar. E assim foi. O que eu não esperava foi ter-me sentido tão emocionado com o apoio do público nessa altura. Tentei conter as lágrimas - que haveriam de cair um pouco mais à frente - e cerrei os dentes! Esta Maratona era para acabar! E quase sem dar por isso estava no abastecimento dos 30km. Excelente! A minha meta já era pensar de abastecimento em abastecimento e ir fazendo o resto em blocos de 5kms. Ganhei ainda novo ânimo ao ver o marcador de ritmo das 4:15 a passar do outro lado e o meu colega de equipa logo atrás, com talvez um quilómetro de vantagem para mim. Não estou assim tão mal, pensei! Siga...! Siga durante um quilómetro, porque os dois seguintes foram praticamente a caminhar depressa. Tempo suficiente para apanhar uma conversa entre dois atletas, uma das quais polaca e que completou no domingo o seu 42º aniversário tendo decidido celebrá-lo a correr precisamente uma Maratona. Agarrei-me a exemplos de motivação como este para me manter focado. Ao meu lado passavam dois atletas e um deles dizia que "se isto fosse fácil qualquer pessoa fazia".
Voltar a passar junto à ponte Dom Luís deixou-me novamente emocionado com o apoio contínuo que existia e o cheque-mate deu-se no túnel da Ribeira. Podia estar a passar o Chariots of Fire ou a música do Rocky como nos anos anteriores, mas estar a passar o Don't Stop me Now dos Queen fez-me soltar as lagrimitas que eu andava a conter. Malandros, pá! Ganhei força, ganhei alento! Os espasmos no joelho direito tinham desaparecido, mas agora era a perna esquerda que estava com queixas, talvez a compensar. Nada que me impedisse de continuar a correr. Não era a 6:00m/km, era a 7:00m/km! Não ia era parar! Don't stop me now!

Quando percebi que já via o abastecimento seguinte no horizonte nem acreditei. Eram só mais 5 quilómetros, porque na minha cabeça os dois últimos iam ser feitos com o coração e não com as pernas. Voltei a hidratar com o isotónico da Prozis. Fora dos abastecimentos andei sempre com uma garrafa de água na mão que ia trocando ao chegar a um novo. Foi aos 35km que vi a Dora. E quando retomei a corrida passa o marcador de ritmo das 4:30. Ora, apesar dos vossos desejos e previsões de 4:15, a minha ambição era terminar próximo das quatro horas e meia e seguir ali com companhia parecia-me perfeito para me aguentar. Até pensei que se estivesse bem depois no final ainda ia acelerar mais para acabar à frente.

Está bem, está... Um quilómetro e pouco junto à bandeira e não aguentei mais. Vamos caminhar novamente e esquecer esta coisa do tempo final. Na verdade, desde os 27km que eu nem sequer sabia se ia acabar, portanto estar ali tão perto já era uma vitória. Se tivesse que fazer em 5 horas, fazia. Maratonas há muitas! Seja como for, foi um balde de água fria ver fugir com a bandeira de tempo os objectivos propostos, independentemente do meu sub-consciente saber que me falharam muitos quilómetros na preparação. Voltei a quebrar psicologicamente e meti na cabeça que ia a caminhar o resto que faltava e que se lixe. 

Olhei para o relógio e fiz contas só para ver quantas mais horas ia deixar o pessoal preocupado na meta. A chuva forte que caia deixava-me em pânico. Comentei no final que esperava até que não estivesse ninguém à minha espera e que eu só queria é que estivessem abrigados e/ou no conforto do hotel. Eu haveria de ir lá ter depois. Mas ter olhado para o relógio deu-me o click final de motivação que me faltava. Contas rápidas ao quilómetro anterior diziam-me que se fizesse os restantes quilómetros até à meta a um ritmo de 8:00m/km iria terminar com 4:40! Como era possível quando a bandeira dos 4:30 já tinha ido embora há tanto tempo? A bandeira dos 4:45 devia estar a apanhar-me a qualquer instante. Olhei para trás e não vi nada que indicasse isso. Então ainda consigo fazer um tempo bom? 
Ao mesmo tempo que fazia estas contas pensava que tinha o pessoal a seguir-me pela aplicação e que um quilómetro tão lento ia deixar todos preocupados - confirmou-se, aquele quilómetro deixou o pessoal na meta em pulgas! E não era só o pessoal na meta, era toda a gente que tanto apoio me deu ao longo destes meses! Não era uma questão de desiludir ninguém, não queria nem podia era deixar ninguém apreensivo. Agarrei-me a toda a gente que conheço, a todos os amigos do mundo das corridas, levei-vos a todos comigo! Estavam ali ao meu lado!

E quem é que apareceu também ali ao lado? Um casal no passeio a dar força aos atletas. Na altura eu ia isolado e lá veio a senhora gritar por mim e pelo nome da equipa com uns valentes "Vamos lá"! Era a mesma senhora que há dois anos exactamente naquele sítio me disse que eu ia com demasiada roupa e o senhor que estava ao lado foi o que no ano passado nos gritou por ali que chegar tão longe era para campeões. Foi incrível! E foi novamente com a lágrima a querer cair que lhes gritei energicamente que "Vocês são os maiores, carago! São os maiores!"

Impossível parar depois daquilo! A partir dali foi sempre a correr, excepto por uns segundos no abastecimento dos 40kms. Mais dor, menos dor, mais cansaço, menos cansaço, tinha uma meta à minha espera. E eu só pensava que se fosse ver o pessoal junto ao gradeamento então ia cruzar a meta a chorar copiosamente porque não ia aguentar. Olhava de relance para o relógio para confirmar que a matemática não me tinha enganado. A chuva tornou-se intensa a certo ponto mas nem isso me ia parar, já tinha transformado todos os infortúnios em entusiasmo, todas as dificuldades estavam a uma curta distância de serem ultrapassadas! Para ajudar ainda há um atleta de uma equipa da zona de Sintra que se meteu comigo para dizer à colega que ele ia a rebocar até à meta que isto agora era um tirinho. Olha aqui o N. fresco e fofo ao fim destes quilómetros todos. Eu sorri e disse-lhe que comparado com as provas do troféu das localidades, isto da Maratona era uma brisa.

Passar o quilómetro 40 foi o melhor momento daquela epopeia até ao final. Os dois últimos quilómetros são para fazer sem parar e sempre a acelerar até ao fim. Dei um high-5 à placa dos 41kms e o meu rosto já era todo ele um sorriso rasgado! Ouvir os sons que vinham do speaker naquela zona e ver o recinto da chegada ali tão perto não deixava margem para qualquer dúvida: aquele tipo que teve medo aos 27kms ia conseguir terminar a Maratona! E em grande parte graças ao apoio que veio de fora!

Subida até à meta, quase sem ninguém junto ao gradeamento, mas isso não me fazia esmorecer. Ali à frente consegui ver a claque de apoio que se tinha acabado de colocar estrategicamente segundos antes depois de verem na aplicação que eu estava a chegar. Não houve lágrimas! O que houve foi um grito de satisfação onde libertei tudo aquilo pelo qual passei nesta epopeia. Curva final rumo à meta, novo grito, agarro-me ao símbolo da equipa na camisola e passo a meta em euforia total com um libertar final de emoções de braços bem erguidos no ar. Consegui! Consegui, carago! E agarro-me ao gradeamento a chorar durante uns segundos. Bateu forte, mas passou rápido.

Fui buscar a medalha e ainda soltei um YES de alegria que fez com que a senhora que me ia dar a medalha me tivesse dado os parabéns e pedido um abraço!



A chuva era intensa, ainda fui buscar uma cerveja que nem bebi na totalidade. Agarrei nas ofertas, na t-shirt de finisher e fui ter com o pessoal que estoicamente aguardava por mim. O meu colega fez menos 15 minutos que eu e decidiu que não queria ir andando até ao hotel antes de eu chegar. Obrigado!

No final, depois de um banho quente, tivemos uma muito merecida refeição de francesinhas que nos encheu o estômago. A alma, essa, já estava bem cheia! 



O regresso a casa foi tão ou mais atribulado que a prova em si. Quatro horas de viagem pela auto-estrada debaixo de um dilúvio tal que nos tirava qualquer visibilidade e nos obrigou a vir a não mais que 70km/h durante mais de metade da viagem. Felizmente tudo correu bem no final.

Está feita a terceira Maratona, cheia de altos e baixos, tal como tem que ser. Depois da emoção há-de chegar a altura para analisar mais a frio tudo o que correu bem e mal durante estes últimos meses para depois afinal a estratégia para a quarta.




Prova nº 95 - Maratona do Porto 2018 - 42km - 4:33:49

domingo, 28 de outubro de 2018

20km de Almeirim - uma luta a três

"Estás a ser cobaia para tudo o que hei-de escrever no blog."

Estava eu a partilhar as aventuras da ida a Almeirim quando me saiu esta frase. E não é mentira, tudo o que eu estava a dizer já era um resumo das ideias chave que tinha pensado em partilhar aqui. Ora bem, assim sendo não é tarde nem é cedo (são 18:00) e toca a escrever já o texto enquanto está tudo muito fresco na minha cabeça.

E, por falar em cabeça, ela hoje foi essencial para que este último desafio em modo de treino longo corresse às mil maravilhas. Nem vou guardar suspense, até porque já partilhei o resultado de forma generalizada.

Grande parte da prova foi feita numa luta a três: o coração dizia-me que eu aguentava na boa um ritmo de 5:15m/km e sempre que eu me deixava ir as pernas puxavam-me para um um ritmo de 5:30m/km. Felizmente a cabeça meteu juízo em ambos e fez-me manter o foco num ritmo médio final de 5:45m/km que era exactamente o que estava planeado. Tinha demasiada gente preocupada com o facto de fazer esta prova uma semana antes do Porto e eu próprio tinha que ganhar esta luta. E é tão difícil forçar a correr mais devagar quando nos sentimos bem. Aquilo que me fui mentalizando ao longo das semanas foi que o plano de treinos - se é que eu o posso usar a meu favor depois de o ter seguido de forma ligeira - dizia para fazer 8km lentos seguidos de 11km a ritmo de maratona. Ora eu transformei isso em 20km a ritmo controlado. Vou acabar no Porto com 5:45m/km? Não, tirem daí a ideia, vá.

A ida até Almeirim correu bem, as dicas do Filipe ajudaram a estacionar longe da confusão, mas entre ir levantar os dorsais e regressar ao carro para equiparmos já me tinha cruzado com 3287 amigos e conhecidos. Felizmente os meus companheiros de equipa também reconheceram algumas caras que lhes eram familiares portanto não desesperaram por eu ter que parar ao fim de 10 passos. Até deu para falar duas vezes com o João Lima acompanhado pela armada dos 4 ao KM onde se incluíam a Isa e o Vítor. Na segunda das vezes ele diz-me que o Filipe já tinha perguntado por mim. Só me cruzei com ele num retorno e depois tive finalmente o prazer de o conhecer pessoalmente depois da prova. Muito prazer Filipe, tive imenso gosto em conhecer-te em carne e osso, em visitar Almeirim sem ser em dias de almoços de aniversário e em fazer esta prova. Também vi o Vítor, alguns elementos dos azulinhos com quem corro nos troféus das localidades, caras conhecidas do Correr Lisboa e estou certamente a esquecer-me de alguém.

Com tantos encontros imediatos o que ficou para o fim foi a ida ao WC que tanto eu e um dos meus colegas tanto precisávamos antes da partida. Foi aliviar a bexiga, correr até à partida e começar a correr, não sem antes desejar os habituais votos de boa prova. Deixei-os ir ao ritmo deles e fiquei para trás para não me entusiasmar. Talvez por causa do vento frio, fiquei com dor de burro ao fim do primeiro quilómetro. Assustei-me um pouco, tentei controlar a respiração e a coisa passou para não mais voltar.

Os primeiros 5km são uma volta inicial dentro de Almeirim para depois se voltar a passar pela meta. Achei que estava pouca gente nas ruas, mas estava muita malta concentrada na zona da partida e meta. Na segunda passagem a coisa não melhorou mas havia quem fizesse barulho e batesse palmas para aquecer as mãos. Não fiquei desiludido, percebo que o frio era mesmo muito e o vento não ajudava. Se um dos nossos colegas de equipa acabou por ficar em casa por causa do tempo, entendo que o público também tivesse reservas em sair à rua.

Pouco depois da saída de Almeirim o João passa por mim e diz-me, de forma inspiradora, que vou bem a controlar o ritmo e que ao contrário do habitual não ia desejar força, mas sim calma. Ele seguiu em óptimo andamento e aquela frase deu azo a que um senhor mais experiente metesse conversa comigo. Falou-me de quando no ano passado começou feito louco e pagou a fava aos 18,5kms e ali fomos juntos durante uns quantos quilómetros. Eu disse-lhe que ia ao Porto para a semana, daí hoje ter que ir de forma tranquila, mas que em provas longas também gostava de fazer provas de trás para a frente e já tinha aprendido isso por má experiência própria. A conversa durou e durou e eu senti que estava a baixar o andamento mais que o desejado portanto acabei por deixar aquele companheiro mais ou menos na altura em que começaram a vir de frente os primeiros classificados.

O vento ali fazia-se sentir de forma mais pronunciada. Dentro da cidade estávamos mais protegidos pelos prédios, mas a caminho da ponte não havia hipótese de abrigo. Era uma fase de luta contra outro elemento que não conseguimos controlar. Fui-me distraindo a ouvir conversas alheias e à procura de mais caras conhecidas do outro lado. Vi passar o casal de colegas de equipa com quem fui e iam bem. Fiquei tranquilo com isso e segui até ao ponto de retorno. Aquela subida é chatinha.

O que eu não percebi foi que tinha ido a subir ligeiramente durante largos quilómetros e só notei isso quando... comecei a descer. Nota-se bem ali ao quilómetro 14, não é? 

Se para lá tinha visto passar os primeiros, agora no regresso  vi passar os últimos e lá estava uma cara conhecida a quem desejei uns enormes fotos de força para o resto da prova. Recebi um grande agradecimento no final. Nesta altura, precisamente a partir do quilómetro 14 formou-se de forma tácita um grupo de 4 atletas onde eu estava incluído. Fomos calados até ao abastecimento dos 15kms, até que eu tive que quebrar o gelo. "Estamos juntos há um quilómetro e vamos todos calados. É fome ou cansaço?". Recebi risos de volta e respostas de fome, de cansaço e de ambos. Uma senhora era de Almada e disse já ter 50 e não sabia se aguentava o ritmo. Os 50 não eram quilómetros como eu insinuei, eram anos. O ritmo era marcado por um atleta que já tinha 60. Anos também. E a tentar manter-se connosco estava uma atleta do Correr Lisboa que eu ainda pensei ser a mesma que tinha encontrado em Coimbra, mas não era. E eu ali feliz e contente por ter companhia, por ir bem disposto e por poder também ajudar. Fomos puxando à vez e sempre juntos até à meta. Íamos trocando umas palavras e uns rasgados sorrisos para os fotógrafos. Às palavras de cansaço seguiam-se outras de ânimo e de força. Tinha pensado esticar um pouco nos quilómetros finais, mas acabei até por abrandar para não largar ninguém. A tal atleta de 50 ficou ligeiramente para trás no final, mas acompanhada por outra atleta com quem já tinha ido no início da prova. Depois da meta esperámos por ela, dei-lhe um abraço e quando viro costas ouço-a comentar com alguém que "estes dois senhores ajudaram-me imenso a acabar, estou-lhes muito agradecida." Foi o momento #ninguemficaparatras!

Quem também ia quebrando era a atleta do Correr Lisboa, mas não a deixámos terminar sozinha. Uns cumprimentos finais de agradecimento entre todos antes de cortar a meta e estava feito. Já diz o ditado que sozinhos podemos correr mais rápido, mas juntos corremos mais longe. E estava tão pouco preocupado com o meu tempo que nem vi o que marcava quando parei o relógio. Foi mais importante o abraço. Assim que parei para respirar já estava o João novamente (belo tempo!) com quem troquei ideias sobre recordes dos 20km. Tecnicamente o meu record é no Douro Vinhateiro no dia em que bati o record da Meia, mas vou contabilizar que em provas de 20km o meu record foi batido hoje. Não era difícil, já vinha de Fevereiro de 2016, dos extintos 20km de Cascais, e era de 02:01:57.

Tecnicamente, portanto, bati um record antes da Maratona. Mesmo que esse record em provas de 20km seja superior ao meu record em Meias Maratonas. Confuso? O melhor é voltar a Almeirim para o ano sem rédea curta para fazer abaixo de 1:50! E foi de voltar a Almeirim que se falou enquanto se comia a bela da sopa da pedra no final. E voltar com mais malta da equipa, porque uma prova com este convívio no final e a este preço merece ter mais gente, tal como acontece quando vamos a Tagarro, Mafra ou Peniche, por exemplo. Temos marcado sempre presença em Almeirim, mas por uma razão ou outra sempre em número modesto.

O tempo final aqui apresentado é o absoluto. O relógio marca 1:55:50. O tempo de chip estará entre um e outro.

Nada mais havendo a dizer, encerrou-se assim esta prova da qual se lavrou o presente texto.

Próxima paragem: Maratona do Porto. (E um arrepio na espinha ao escrever isto!)



Prova nº 94 - 20kms de Almeirim 2018 - 20km - 01:56:25

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Meia Maratona de Coimbra

"Força? Só se for para ti que estás no passeio. Desse lado é fácil falar, aqui dentro é mais difícil!"


Foi mais ou menos esta a reacção de um atleta ao meu lado, por volta do sexto quilómetro, quando alguém no passeio - com camisola da equipa Viseu 360º e com dorsal colocado - desejou força a uma colega que passava a correr. O comentário foi meio entre-dentes e só terá sido escutado por quem estava mesmo ali ao pé dele. Pode ter sido só um desabafo de alguém a ter um dia mais complicado, mas não gostei do tom da resposta. Também posso ter interpretado mal, mas não me pareceu de todo ter sido uma resposta em modo brincalhão. Marquei aquele atleta.

Isto tocou-me também de forma particular porque tínhamos acabado de passar pelo centro de Coimbra, zona cheia de público a assistir... em silêncio quase absoluto. À entrada fiz o que faço sempre que é pedir palmas e barulho e aquilo que ouvi foi o som de grilos, seguido de um lamento do atleta que vinha atrás de mim. "Ninguém apoia, ninguém disse nada." Ainda atirei para o ar se não era suposto ser uma festa, respondeu-me uma das voluntárias a dizer que o barulho que faz é para nos indicar que há águas ali à frente. É justo. Agradeci, continuei e concentrei-me nos atletas à minha volta. A partir daí praticamente ignorei a hipotética existência de público, sobretudo porque sabia que saíndo da cidade raras seriam as pessoas que estariam a assistir.


Depois dos quilómetros iniciais a aproveitar a descida da Universidade até ao centro da cidade era altura de estabilizar o ritmo e ignorar as vozes na minha cabeça que me diziam para continuar a atacar em busca de uma marca melhor. Olhei em volta e segui um atleta para me fazer de lebre improvisada. Só que ele agarrou-se à coxa, encostou ao passeio a alongar e não sei se terá continuado. Rapidamente olhei para outro mesmo ao lado, camisola da selecção vestida, que... encostou ao outro lado do passeio. Fiquei na dúvida se ia cumprimentar alguém mas pareceu-me que também não continuou. E dou por mim ao lado do tal atleta do comentário que dá início a este texto. Oh pá, não me apetece ir com ele. Felizmente ele tinha um ritmo mais rápido e passei a vê-lo mais ao longe.

Passa então por mim um grupo de 4 Viriathvs Runners (Viseu deve ser a cidade do país com maior concentração de equipas por metro quadrado) e fui na cola deles. Uma das atletas pareceu-me desconfiada porque olhou para trás vezes sem conta. Eu não disse nada mas devia ter metido conversa já que ainda fui quase dois quilómetros atrás deles até ao abastecimento dos 10km. Parou tudo para beber isotónico e eu segui à frente deles. Voltei a encontrá-los depois da meta. Um dos meus colegas de equipa conhece um deles e trocaram algumas palavras. Tão extrovertido que consigo ser e tão encavacado ao mesmo tempo!
Na segunda metade da prova vinha a parte que eu mais gosto: os retornos! Vi muitos amigos que iam à minha frente, deu para perceber quem vinha bem e quando virei vi os restantes elementos da equipa que vinham atrás de mim. Uma festa cruzar-me com a malta, festa que durou até próximo do abastecimento dos 15km. Ao meu lado ia seguindo quase sempre o tal atleta, em amena cavaqueira com outros dois amigos. De entre tantas camisolas de várias equipas dei por mim a puxar pelos Vicentes com quem me cruzava. Desta vez não conhecia nenhum, mas não fazia mal. Apoio é apoio!


A paragem no abastecimento foi ligeiramente mais prolongada para reforçar a dose de Red Bull. Olhei para o relógio, fiz umas contas em relação ao tempo final que percebi estarem erradas e passei os metros seguintes a corrigir mentalmente a minha matemática. E comecei a sentir umas dores de cabeça pouco vulgares. Pensei serem do facto de ter acordado às 6 da manhã e já ter conduzido 200kms até Coimbra - e de não ter bebido café! - mas descobri que era apenas o chapéu que estava apertado. Problema resolvido num ápice. Olhei em frente, porque olhar em frente era melhor que olhar em volta e ver a quantidade de árvores partidas e de troncos no chão ainda fruto das condições climáticas do fim de semana passado. Mas olhando em frente via lá ao fundo "o" atleta. Dez quilómetros depois daquele comentário ele continuava no meu raio de visão. Achei que o único modo de resolver isso era ir atrás dele para o ultrapassar. Pequenos objectivos parvos para uma pessoa se manter focada are à meta.

Pelo caminho já eram vários os atletas a fraquejar e a caminhar. Fui tentando dar alguma força e energia a quem ia ultrapassando. Passei por uma atleta em particular, do Correr Lisboa, com quem ainda troquei umas palavras. Vamos com 19 quilómetros, 'bora lá está quase, não dá para mais? Resposta negativa, já tinha rebentado. Infelizmente era sempre esta a reacção que tinha e não consegui trazer ninguém comigo na parte final. O que consegui foi ultrapassar o tal atleta, na recta que antecede a entrada na Ponte de Santa Clara. Ainda bem!

Não que o sucesso da prova dependesse disso, mas assim permitia-me concentrar na melhor parte: a chegada à meta. Em primeiro lugar foi preciso desviar-me de quem ia à minha frente para chamar a atenção da ET que estava lá do outro lado da ponte com a dupla tarefa de tirar fotos e de avisar a malta na meta de quem vinha aí. Depois entrando na meta foi ver onde estava a minha claque pessoal com quem tive novamente o prazer de atravessar a meta. Tem sido um hábito nas provas das Running Wonders e dá-me um gosto especial que assim seja.

A prova não terminava ali, ainda havia mais colegas de equipa em prova portanto estava na altura de voltar atrás. Rapidamente chegaram alguns, excepto uma que vinha um pouco mais atrás. Ainda nos preocupou a demora e lá íamos nós à procura dela quando a avistamos no horizonte com o seu maior sorriso. Tive direito a segunda passagem pela meta! Ou como ouvi depois: "Já sei porque quiseste passar a meta com a Maggie: foi para ires beber outra cerveja!" Tecnicamente não foi, mas como ela até não bebeu...

Completou-se assim a terceira presença na Meia Maratona de Coimbra. Infelizmente nunca deu para mais do que uma curtíssimo passeio antes da prova e um almoço sempre na Pastelaria Vénus onde se repõem os açúcares gastos apenas por olhar para a vitrine dos bolos. Seguiram-me mais 200kms de regresso a casa. Coimbra merece um fim de semana prolongado. E merece também uma ida à prova sem ser na antecâmara da Maratona do Porto para poder aproveitar ao máximo a altimetria negativa do percurso e não me retrair no ritmo. Para o ano, talvcz. Veremos. Foi a minha vigésima Meia Maratona e foi o meu quinto melhor tempo de sempre. Aproveitando a descida inicial para embalar e fazendo o resto em "ponto morto". Um dia que lá vá e acelere logo se vê o que acontece. Ou faço um tempo canhão - para as minhas possibilidades - ou rebento a meio e não acontece nada. 

Faltam duas semanas para o grande dia. Senti-me melhor que na Meia da semana anterior, sobretudo na zona intermédia da prova nos locais mais "chatos". Repito aqui o que já disse hoje: estou confiante, mas sem nunca perder o respeito pela distância.

Próxima paragem: Almeirim!

Prova nº 93 - Meia Maratona de Coimbra 2018 - 21km - 01:57:48

terça-feira, 16 de outubro de 2018

Meia Maratona do IC2

Surreal!
 
Até só ano passado, somando ambas as provas, tinham-se realizado 45 edições de Meias Maratonas das pontes. Nunca tinha sido necessário recorrer ao plano B por questões de segurança. Em 2018 isso aconteceu não numa ponte, mas em ambas. Tenho a sensação que por mais anos que corra isto nunca mais vai acontecer em qualquer das duas provas. Ter que activar o plano de contingência duas vezes no mesmo ano é algo único. E surreal! E eu, tal como muitos outros, teremos um dia o privilégio de dizer que participámos nestas edições "especiais". É claro que hoje ainda estou muito em cima do acontecimento para dizer de caras que "até foi engraçado" mas o certo é que já tenho esse sentimento em relação à prova de Março. 

Não me vou alongar novamente sobre a decisão de adiar a hora de partida das provas. Pessoalmente pareceu-me desnecessário no que diz respeito à Meia Maratona mas percebo que tendo que mudar a hora da Maratona então todo o programa teria que sofrer alterações. O que foi incompreensível foi a ausência de sanitários no IC2, por mais que se diga que não houve autorização da protecção civil para tal. A espera foi bastante desconfortável, não só por isso mas pela falta de espaço. Pelo menos no local em que estávamos inicialmente o aperto era grande.

Após as dúvidas da véspera a vontade de correr não era muita. A manhã já tinha começado atribulada quando um dos colegas da equipa teve que voltar a casa por se ter esquecido do dorsal. E ele até foi o primeiro a chegar à estação. Conseguiu chegar a tempo da prova mas já só o vimos durante o percurso e depois no final. Já no Oriente deu para uma foto de grupo com outros elementos que já lá estavam e que iam fazer a Mini. Votos de boas provas e lá fomos para os respectivos autocarros.

De volta ao IC2 conversava-se sobre provas, tempos, desafios futuros e objectivos para esta prova. Desde 1:30 a 2:30 havia expectativas de tempos para todos os gostos. Eu cá só queria fazer uns segundos abaixo das duas horas. Ir em modo de treino num ritmo a rondar os 5:40/km. Por causa das necessidades fisiológicas o nosso grupo separou-se e deixei de estar próximo do outro colega que também vai ao Porto e que também queria fazer um ritmo calmo. Ele acabou por fazer um belo tempo, sem querer. Eu ainda parti rápido à procura dele mas só o voltei a encontrar a descer o Marquês quando eu subia. Quem eu encontrei mesmo ali ao lado em amena cavaqueira foi a Vonita. Já estava a seguir a conversa dela há algum tempo até que aproveitei um momento oportuno para lhe dar um toque no ombro. Fizemos a foto da praxe e continuou-se em conversa. É tão bom que uma pessoa para cada lado que se vire encontre caras conhecidas. Ivone, espero que a prova tenha corrido bem às estreantes na Meia Maratona!

Parti rápido, mas ao fim de 500 metros tive um contratempo. Um atleta saltou o separador central vindo da outra faixa sem qualquer atenção para quem estava a correr. Para evitar um choque frontal com ele desviei-me, meti o pé na berma e torci-o. Felizmente foi coisa muito ligeira. Nós quilómetros seguintes fui a ver se sentia desconforto mas nunca me doeu nada. O meu receio era que só fosse sofrer as consequências depois de arrefecer, mas está tudo ok.

Apesar do início acima do ritmo pretendido passaram por mim alguns amigos a quem eu prontamente disse para seguirem porque eu estava em modo de passeio. Estabilizei o ritmo e ainda olhei demasiadas vezes para o relógio nesta fase. Depois acabei por só olhar quando ele indicava o ritmo do quilómetro que tinha acabado de concluir.

Fui separando a prova por pequenas metas. Sair do IC2, chegar ao Parque das Nações à separação da Mini, sair do Parque das Nações, Santa Apolónia e a primeira passagem no Terreiro do Paço. Estava mais preocupado em não me aborrecer na zona de Xabregas e Beato do que com a subida ao Marquês. Precisava de estar em zonas com mais público. O apoio era dado por alguns estrangeiros e por muitos elementos do Correr Lisboa espalhados pelo trajecto. Mesmo no Parque das Nações onde havia muita gente a assistir não havia muito apoio, apenas umas palmas circunstanciais. Ao contrário do que é habitual também não ia muito expansivo portanto mantive-me em silêncio. Por acaso do destino acabei por ter direito a claque pessoal quando vi lá ao longe uma cara que reconheci à medida que me aproximei. Era a Agridoce que, curiosamente, estava a fazer um directo da prova naquele preciso momento. Meti logo o meu melhor ar de corredor para a foto e afinal... Que desilusão! 😉

Querem ver a importância que o público tem numa pessoa durante uma prova? Não fazia ideia que ela estaria por ali - eu até podia ir mais próximo do outro lado do passeio e nem a encontrar - mas assim que passei por ela comecei a imaginar na minha cabeça mil e uma teorias. Será que x? Ou y? Querem ver que z? Corri grande parte do abecedário para descobrir ao fim do dia que estava enganado e todas as minhas teorias, inclusive teorias da conspiração, estavam erradas! Não faz mal! Enquanto pensava nisto passaram-se uns bons três ou quatro quilómetros sem eu dar por isso! Obrigado, já cheguei a meio da Meia.

Confesso que nos quilómetros seguintes tive uma espécie de apagão. Estava em piloto automático e não me lembro de quase nada. Apenas de agarrar umas quantas embalagens de gel num abastecimento - e confesso que não gostei muito dele - para além de estar sempre a trocar de garrafa de água, sendo isso também parte do treino para a Maratona. Parei uns segundos onde havia isotónico para beber sem me entornar e/ou engasgar todo. Lembro-me de ver o Panteão lá ao longe, eventualmente mais próximo até deixar de o ver. Estava ansioso por chegar a Santa Apolónia porque depois até ao Terreiro do Paço era um tirinho. Tantas vezes que já fiz o percurso inverso nas minhas caminhadas por Lisboa naquela zona, ontem era dia de o correr em sentido inverso.

Ao avistar a Praça do Comércio renasci na emoção e a primeira coisa que fiz foi - acertaram - pedir barulho ao público. Mas barulho a sério, palmas e tudo aquilo a que temos direito! Esbracejei como nunca e tive muito retorno! Estava na minha praia. Isto sem pessoal do lado de fora não tem piada. Não vou dizer que ganhei forças onde já não as tinha, porque na realidade eu não ia cansado, mas ganhei um ânimo para os quilómetros finais. Ao meu lado um atleta dizia que "agora é que vão ser elas!" Lembro-me de lhe responder que "Nem pensar, agora vem a melhor parte da prova! Vamos até ao Marquês festejar e depois festejamos outra vez na meta!"

Não era, mesmo, a subida que me preocupava. Chateia-me mais o empedrado, por exemplo. Como nestas coisas parece estar tudo feito à medida, a banda no Rossio tocava o Final Countdown quando passei a subir. (E o Highway to Hell quando desci. Pensando melhor, perfeito tinha sido ao contrário!) De por mim a cantar o refrão enquanto ia por ali acima e aproveitei também para ver quem vinha a descer no único ponto de retorno. Caraças, fizeram-me falta os retornos, pá.
 
Subi nas calmas. Vendo o ritmo depois até achei que não subi nada mal. E depois desci a todo o gás. Pelo menos com todo o gás possível ao fim de tantos quilómetros. E bom, foram os mais rápidos da prova. Um sprint final já na recta da meta e assunto encerrado. Medalha ao peito, grupo reunido novamente, gelado na mão, fotografia final e... caminhada rumo a Santa Apolónia para apanhar o comboio. Ainda deu para apoiar alguns atletas menos rápidos mas que estoicamente lutavam para completar a prova. E deu para me cruzar com a Inês e com o grupo de camisolas amarelas que iam com ela numa bela missão de amizade.

No comboio procurávamos saber resultados de amigos, resultados oficiais dos profissionais. Celebrávamos a estreia na distância de um companheiro de muitas lutas e que estava ali connosco. Foi uma longa aventura. A ida até à partida e a espera pelo início da prova duraram mais tempo que a Meia Maratona em si. Passei o resto da tarde a dormitar várias sestas e no intervalo delas espreitava as redes sociais que estavam cheias de medalhas, dorsais, fotos e textos de felicidade.
 
Mais um passo rumo ao Porto, rumo ao que o futuro trouxer!
 
Próxima paragem: Meia Maratona de Coimbra!
 
 
Prova nº 92 - Meia Maratona Ponte Vasco da Gama 2018 - 21km - 01:59:52