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terça-feira, 7 de novembro de 2017

Maratona do Porto 2017

Tal como no ano passado, vou demorar bastante tempo a escrever este post. Se por um lado as emoções estão ainda todas à flor da pele, por outro lado ainda me dói a mão esquerda graças ao senhor - um dos muitos, diga-se - que estava a apoiar os atletas à beira da estrada ali por volta do km 37/38. Ele aplaudia e eu, como fiz com outros espectadores activos, estiquei-lhe a mão para lhe dar 5. Ele não só deu 5 como me agarrou a mão com toda a força enquanto gritava o meu nome e o do colega que ia ao meu lado e nos chamava de campeões e dizia que estávamos quase a acabar. E isto prolongou-se por o que me pareceu uns bons 500 metros. Ele parado no passeio a agarrar-me a mão e eu a correr e a deixá-la - juntamente com o resto do braço - para trás. Eventualmente consegui ir lá buscá-la.

A preparação para a segunda Maratona teve altos e baixos. As leituras, o início do plano de treinos e a motivação para repetir a experiência do ano anterior contrastaram com um corte feio no dedo (a cicatriz ainda cá está) e com um acidente de carro (o carro ainda não está cá) ao qual se juntou uma desmotivação de três semanas e uma consequente perda de ritmo que me fez também perder os dois treinos mais longos que o plano indicava. Isto fez com que este treino de 25km tenha sido o meu mais longo. Mesmo assim foi muito melhor que no ano passado onde fiz imensos treinos de 20 e de 21kms mas nunca fiz distâncias maiores. Eventualmente deu-se o click para regressar aos treinos e no meio de tantas palavras de incentivo que recebi a inspiração chegou daqui numa altura em que eu estava a um passinho de tentar meter o meu dorsal à venda. Agradecimentos públicos feitos.

Mas como esta Maratona parecia estar enguiçada na 6a feira começou a desenhar-se outro contratempo que se veio a confirmar no sábado de manhã. A partida foi adiada das 9:00 para as 10:30 e arranquei incompleto rumo ao Porto na companhia de um colega de equipa - estreante na prova - e da namorada. E lá fomos... Tendo já a experiência do ano anterior acabei por ser o cicerone e definir eu os passos a dar. Primeira paragem: Alfândega do Porto.



Assim que entrámos damos de caras com o outro maratonista da equipa que tinha ido de autocarro e que estava de saída depois de já ter almoçado. Segundos depois chega o quarto elemento da equipa, o que ia fazer a Family Race. Combinado não tinha corrido melhor e deu para tirarmos algumas fotos de equipa ali. Levantar os dorsais foi bastante fácil e todo o espaço está muito bem organizado, algo que não me surpreendeu. E isto começou a deixá-los muito entusiasmados. Comentavam comigo que ali se vivia e respirava desporto, se sentia um ambiente único e que toda a gente caminhava orgulhosa de saco e dorsal nas mãos como se estivessem a preparar-se para vencer a prova. Foi o primeiro embate com a grandeza e a emoção da Maratona.


A Pasta Party também foi novidade para mim porque não tinha lá estado em 2016 e cumpriu a 100% com as expectativas. Fosse pelo adiantado da hora ou pela qualidade e quantidade do repasto, ficámos muito satisfeitos e cheios de hidratos de carbono. Pelo meio fomos vendo o que oferecia a Feira da Maratona, recebemos uns brindes e ainda deu para me cruzar com alguns amigos, mas muitos outros ficaram por encontrar nesta altura. Era hora de rumar a outras paragens: eu para o hotel em Matosinhos, eles para casa de um amigo no Porto.

Foi nesta altura que tentei não ficar deprimido. No ano passado esta parte do fim de semana foi passada com imensa companhia, no sábado fiquei sozinho. Até no hotel acharam estranho! Check-in feito foi altura para descansar um pouco e preparar as coisas para o dia seguinte. Notei então que na mochila não estava o meu mini envelope onde guardo os alfinetes de dama e quando levantei o dorsal não tirei nenhuns. Felizmente tinha os Go Grip que foram oferecidos na Scalabis e desta vez até achei muito mais simples colocá-los. Mini stress resolvido. Apesar de ter almoçado tarde decidi que ia jantar relativamente cedo. Antes disso dei uma volta pela cidade a tentar recordar-me das ruas e acabei por jantar um belo peixe assado antes de percorrer a zona junto à praia de Matosinhos rumo à rotunda da Anémona. Foi ali que tirei um momento de reflexão, à luz da lua, enquanto conversava com quem estava à distância e com quem ia fazer a prova no dia seguinte. Sozinho, mas sempre acompanhado dentro do possível.



Na manhã seguinte cheguei bem cedo ao pequeno almoço e como era de esperar encontrei outros atletas e rapidamente metemos conversa uns com os outros. A boa disposição reinava. O meu colega de equipa avisou-me que já estava próximo da partida e lá fui eu ter com ele. Últimos detalhes, um ligeiro engano porque entrámos na onda da Family Race mas rapidamente fomos para o sítio certo. Antes das últimas despedidas perguntei à namorada dele se ela estava pronta. Disse-me que sim, que ia procurar uma esplanada e que seria muito tranquilo ficar à nossa espera. Ela nem tinha noção do que seriam as próximas horas. E lá vamos nós, por capítulos novamente.

Capítulo 1 - dos 0 aos 12kms

Mesmo antes da partida vi umas camisolas familiares e ainda consegui rapidamente cumprimentar o Carlos o que fez com que perdesse momentaneamente de vista o meu colega. Encontrei-o à passagem do primeiro km ao mesmo tempo que vi o nosso outro colega dos 15km. Fomos todos juntos e isso ajudou imenso a passar esta fase inicial. Não havia nervos, havia boa disposição e um lema que ele gritava de vez em quando: "Hoje ninguém desiste!" Também foi bom vermos caras conhecidas nos primeiros retornos. Era um mar de gente ainda atrás de nós e uma moldura humana enorme a apoiar. Ele também gritava "Façam baruuulhoooooooo!" e acabou por perceber que - palavras dele - fez a prova com alguém que ainda faz mais barulho que ele. Ah pois é, a partir de certa altura quem puxava pelo público - mesmo sem ser preciso - era eu.

Não tínhamos combinado nenhuma estratégia. Ele - algo ingenuamente - disse-me que podia ajudar-me a manter o ritmo até meio da prova para eu depois seguir sozinho. Também dizia que queria chegar aos 35km em 5 horas o que lhe deixava uma hora para fazer o resto a caminhar. Eu a única vez que falei de tempos foi quando vimos a bandeira das 4h30m atrás de nós num retorno e lhe disse que era porreiro não deixarmos que eles nos apanhassem. E assim fomos os três até aos 12km. Só havia uma breve separação nos abastecimentos e a seguir reagrupávamos. Ao chegar à rotunda da Anémona a namorada dele lá estava pronta para umas fotos e foi um bom bocado a correr por fora do gradeamento para nos apanhar. Decidimos abrandar e demos um grande abraço de grupo antes da separação das provas. O nosso colega dos 15km ia muito bem e em homenagem à nossa companhia fez a parte dele nos kms finais e manteve o ritmo que íamos a fazer.

Capítulo 2 - dos 12kms aos 21kms

Eu não queria repetir o texto de 2016, mas a verdade é que há muitas semelhanças. A partir dos 12km começa outra aventura e lá não há "misturas" entre atletas que competem por objectivos diferentes. O volume de apoio na estrada também é menor, mas mantém-se constante e volta a atingir um pico ao chegar à Ponte Dom Luiz. Dei por mim a dar-lhe imensas das dicas que tinha recebido em 2016 e ele ia ouvindo com muita atenção tal como eu o tinha feito na altura. Senti-me bem com isso. Disse a um espectador que estava no passeio para não sair dali que nós íamos só até à Afurada e já voltávamos. O ritmo mantinha-se estável, ambos tranquilos, nem sempre muito conversadores entre nós mas a apreciar tudo à nossa volta e a interagir qb com outros atletas que também se metiam connosco. Rimos com alguns cartazes de apoio mais personalizados e aguardávamos por ver os primeiros classificados a passar em sentido contrário. Quando isso aconteceu deu para perceber que o eventual vencedor tinha uma distância brutal para o segundo classificado. Nos retornos em Matosinhos também fiz questão de dar força à malta do Correr Lisboa que via do outro lado e também havia uma claque à beira da estrada nesta zona. A certa altura íamos lado a lado e ele desvia-se para deixar passar uma atleta pelo meio de nós. Ela muito timidamente disse que não queria passar, estava só a aproveitar o nosso ritmo. Pediu desculpa e depois sim passou por nós. Mal sabíamos que ainda haveríamos de fazer mais de 10km juntos. Ontem tínhamos feito esta zona de carro e dizia-me ele que o reconhecimento do percurso estava a ajudar. Porreiro. Também me ri quando passamos pelo primeiro abastecimento em que havia esponjas: "Esponjas? O N. disse-me que não, portanto não!"

Na passagem pela ponte peço palmas e alguém grita o meu nome - lido no dorsal - e depois grita o meu nome completo - lido nas costas da camisola. É disto que eu gosto.


E toca a fazer mais barulho que hoje ninguém desiste!
Apesar deste lema à passagem dos 21km - em 2:07:30 - ele diz-me para eu seguir que ele ia começar a correr mais lento a 6 e qualquer coisa. E eu segui pela primeira vez sem o meu companheiro de aventura.


Capítulo 3 - dos 21km aos 32km 

Nem 500 metros depois ele aparece ao meu lado. E ao nosso lado está também uma cara familiar: a Natasha que há uns quilómetros atrás nos tinha ultrapassado. Lá se quebrou o gelo e ela perguntou se não nos importávamos de a ter ali. Claro que não. "Vamos a um ritmo tranquilo, vem connosco!" dizia ele. E veio. Em conversa disse que estava a fazer a primeira maratona e que tinha receio de estar a dar um passo maior que a perna. Curiosamente ele falou mais que eu sempre no sentido de a acalmar e de lhe dizer que "hoje ninguém desiste"!

Do lado de Gaia o empedrado é uma chatice e muitos tentamos fugir para o passeio sempre que possível. É claramente a zona mais complicada em termos de piso e é desgastante quando já vamos com metade da prova nas pernas. Eu comecei a sentir o vento frio e desesperava por qualquer raio de sol por mais ínfimo que fosse. Fora o vento a temperatura esteve bastante agradável a rondar os 15 ou 16 graus mas nas zonas de sombra a diferença notava-se. Do lado de lá da estrada passava o nosso maratonista-quase-queniano/etíope que se mantinha estável à frente dos marcadores de ritmo das 3h30m. Um high-5 e uma rápidas trocas de palavras de incentivo. Nesta altura já só pensava em sair dali e voltar ao outro lado do rio e aqueles quilómetros custaram bastante. Ainda me cruzei também com o João Lima e mais à frente com os restantes membros dos 4 ao KM: a Isa (primeiro) e o Vítor (depois). Penso que havia outro elemento em prova, mas não me cruzei com ele ou não o reconheci. Também o João me deu palavras de ânimo e disse-me que eu ia com bom andamento.

De facto, só fiquei um pouco para trás mesmo antes de sairmos de Gaia numa altura em que tomei o segundo - e último - gel. Foi um pelos 16km e outro pelos 28km. Tinha em mente um último aos 35km mas prescindi dele. Logo a seguir já estava à frente do duo dinâmico de estreantes que foi a certa altura a marcar o ritmo à minha frente. Que fique registado que toda a prova foi feita em total entre-ajuda e a única vantagem que eu tinha era a experiência de já ter completado uma Maratona e consegui reagir de forma mais ponderada em alguns momentos de maior quebra, daí que depois da ponte já estivesse eu novamente à frente a tentar puxar por eles. Só depois do abastecimento dos 30km me apercebi que já éramos quatro. A nossa companheira de viagem tinha um amigo à espera dela após a travessia da ponte para o lado do Porto. Pelo que nos disseram ele não faz mais que 20km portanto ficou decidido que ele a iria acompanhar dali até ao final da prova. E lá fomos os quatro até aos 32km. "Agora é um treininho até à meta!"

Capítulo 4 - dos 32kms aos 42km

A passagem pelo túnel da Ribeira é um marco da prova. Ali vamos com 32km mais coisa menos coisa. Lá dentro temos várias televisões e colunas a bombar música inspiradora, no caso a theme song do filme Chariots of Fire. Aproximei-me das imagens e tentar absorver aquele momento para me dar força para a parte final da prova. Pouco depois tivemos mesmo que caminhar pela primeira vez. No meu caso o problema nem eram as pernas, mas sim as costas. Estava com dores num misto de má postura provocada pelo cansaço com o vento frio a bater-me na camisola transpirada e que me causou umas pontadas. No caso dele eram mesmo as pernas que já estavam a dar as últimas. Passámos a adoptar definitivamente a estratégia de chegar ao próximo abastecimento e reavaliar a situação. Foi quando passa por nós o grupo que vinha com as bandeiras das 4h30m. Olhámos um para o outro e decidimos tentar ir atrás deles, algo que conseguimos durante um quilómetro, talvez. Eles seguiram à sua vida e nós continuámos até aos 35km. A paragem aqui terá sido mais longa do que o ideal. A mim não me custou mas a ele já foi mais difícil voltar a correr. O conselho de nunca parar mantém-se mas isto na teoria é sempre mais fácil, não é?

A partir daqui a estratégia foi correr um quilómetro e caminhar outro. Ou pelo menos caminhar o suficiente para recuperar energia. Foi também por causa disto que decidi que já nem valia a pena tomar um gel porque iria fazer parte do percurso até ao fim a andar. A certa altura vejo-o a coxear e pergunto-lhe se tinha começado só agora. "Achas? Eu já venho todo fodido desde lá de baixo, pá!" responde-me ele mas sempre a sorrir.

Eu via lá à frente um quarteto com camisolas do Correr Lisboa. Queria tentar apanhar essa boleia porque sabia que seria impecável para seguirmos até ao fim. Não deu, mas não fez mal. Nesta fase era só gerir o esforço, ambos concordámos que demorar mais 10 ou menos 10 minutos era secundário. E ele já tinha chegado aos 35km bem antes das 5 horas de prova, já estava feliz da vida por ter cumprido esse objectivo.

Daqui para a frente o pessoal à beira da estrada bem como os outros atletas que estavam na mesma luta que nós foram importantes para dar apoio, para motivar, para conversar um pouco. Aos 38km, já nem sei se antes ou depois do meu incidente com a mão, um outro senhor dizia que chegar aqui já era para campeões. E numa altura em que íamos a andar passam duas atletas que puxam por nós. Eu respondo que era poupança de esforço para caminharmos ali e correr mais próximo da meta onde toda a gente estava a ver! Ele já se estava a arrastar um bocado mas com estes momentos de interacção ia animando e rindo com os meus comentários. No final da prova uma coisa que ele disse invejar de forma salutar foi a quantidade de pessoas com quem falei e/ou que me reconheceram nos retornos. E também ele ganhava ânimo com isso e tomava a iniciativa de aumentarmos o passo.

Decisão final: caminhar até ao km 41 e correr no último. Já era eu que tinha que o mentalizar que a meta estava mesmo ali. E que a namorada dele estava lá à espera. E que para além disso tínhamos todo um grupo a seguir a nossa corrida na app e ansiosos por nos "ver" chegar ao final. Ele só acreditou nesta parte algumas horas depois. O forcing final também coincidiu com a passagem por uma claque do Correr Lisboa que estava à entrada do último quilómetro. Foi fantástico! Para além disso ele sabia que íamos terminar a subir, mas eu disse-lhe que podia ignorar esse parte porque do lado de fora das grades viria barulho suficiente para nos levar ao colo. Fiz questão de começar a pedir barulho logo ali e o melhor estava para vir quando vemos a namorada dele do lado de dentro do gradeamento a 500 metros do final, de telemóvel em punho a filmar-nos. Se ela tinha visto crianças, esposas e até animais de estimação a terminar com os atletas então quis fazer o mesmo. Não sei se o sprint maior foi o dela ou o nosso, mas só a 50 metros da meta é que ela não nos conseguiu acompanhar. Tempo suficiente para darmos um high-5 e um forte abraço antes de saltarmos para a meta e terminarmos a prova em êxtase total. Este final livrou-me de boa porque a minha ideia era tentar pegar no telemóvel e filmar eu em directo e sabia que isso significava um final em lágrimas. Assim o soluçar de choro ficou apenas do lado de lá da linha no telefonema que fiz segundos depois de acabar. Eu estava feliz, ele estava morto, ela estava mais eufórica que nós! E ainda nem sabíamos a versão dela que foi tudo menos tranquila.

O único momento calmo foi desde que nos viu passar aos 12km até estarmos na zona da Meia Maratona. Nessa altura as solicitações já eram tantas que ela estava entre a rede social e a app sem nunca tirar os olhos da estrada. E nós ainda tínhamos só entrado em Gaia e já lhe pediam notícias da meta! Gente louca esta que nos acompanhou - sem nunca deixar queimar o almoço - e que ainda teve tempo para fazer um treino de manhã. São os maiores! 42,195 obrigados! E alguns estarão no Porto para o ano, é certinho!

Depois disto vinham os momentos habituais, mas colocarem-nos a medalha ao pescoço foi o mais especial. Começámos e acabámos juntos e embora ele me tivesse dito algumas vezes nos quilómetros e até nos metros finais que eu podia e devia acelerar para ainda fazer um tempo melhor isso nunca me passou pela cabeça. A amizade aqui era o mais importante, tal como tinha acontecido comigo no ano anterior. E, já agora, recordo que na altura ter ficado sozinho foi a melhor opção!

Brindes recebidos e o ponto alto da gravação da medalha - ambas as medalhas neste caso. Não sei se ele vai voltar a fazer uma Maratona. Isto é uma prova que depois de fazer ou se adora ou se odeia.

No regresso a casa foi altura de contar todas as 1001 histórias de quem viveu a prova por dentro e por fora. Foi altura de rir com muito do que foi escrito por quem nos acompanhou, foi altura de começar a ver fotos e tempos de muitos amigos. E reacções e comentários e mensagens de parabéns. Foi altura de recordar os bons e maus momentos que ficarão para sempre guardados na nossa mente.

Tenho a certeza que já me lembrei e esqueci de muitos detalhes com que vos iria continuar a aborrecer e que prolongariam este texto até à Maratona de 2018 - ou pelo menos até à abertura das inscrições. Por falar nisso, já nos podemos voltar a inscrever? Eu não sei se ele vai voltar a repetir uma Maratona. Aceitou o desafio para esta mas não é a praia dele. No meu caso não tenho dúvidas que voltarei a estar na linha de partida, corrigindo erros do passado e aceitando que nem sempre a preparação corre como nós gostaríamos mas sempre com a certeza de correr feliz durante a maior parte da prova e de terminar orgulhoso do que farei independentemente do que marcar o relógio.

Desculpem, acho que falhei a promessa que fiz em 2016 de não escrever tanto na Maratona seguinte.

Seguem-se uns dias de recuperação activa que já incluíram subir até ao 5º andar do escritório onde trabalho por problemas nos elevadores e uma boa caminhada depois do trabalho por problemas da Carris. O regresso aos treinos está marcado para 5a feira. O regresso à escrita está marcado para breve com uma pequena curiosidade - ou mais se me lembrar entretanto - sobre a Maratona. Lembram-se da Lúcia que tenho encontrado nas Running Wonders? Pois.

Próxima paragem: Meia Maratona de Évora, dia 26 de Novembro!

Prova nº 70 - Maratona do Porto - 42km - 4:40:34  

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Coimbra, take 2

Take 2 precisamente por duas razões: segundo ano consecutivo a marcar presença nesta Meia Maratona e segunda tentativa de escrever este relato porque o rascunho que fui escrevendo quando vinha no carro de regresso a casa não ficou gravado no Blogger e está perdido para sempre. Resta-me agora tentar-me lembrar das notas que fui escrevendo para poder desenvolver agora ao fim da noite.

Muito do que aconteceu hoje foi semelhante ao que aconteceu no ano passado. Aproveito para pegar naquele texto e fazer apenas alguns ajustes: a hora de acordar desta vez foram umas pornográficas 5:00 da manhã e às 6:30 já estávamos todos os 15 elementos da equipa dentro de três carros para rumar a Coimbra. No total fomos 5 para a Meia Maratona, 2 para os 10kms da Mini Maratona e 8 participantes nos 5kms da caminhada. Infelizmente ainda tivemos algumas pessoas que não puderam comparecer à última da hora e na Meia Maratona havia duas estreias, uma das quais daquela colega que no ano passado não conseguimos convencer a fazer a Meia. Foi hoje e a nossa amiga e enfermeira não nos deixou ficar mal. Confesso aqui que quando ela estava a chegar à meta eu estava a aplaudir e a gritar por ela ao mesmo tempo que fazia um esforço brutal para não chorar. Foi uma chegada emocionante de uma das pessoas que eu mais estimo neste grupo. Emocionei-me tanto ou mais do que na minha própria chegada - e acreditem que a minha foi muito simbólica.

Também em relação ao estacionamento e ao café onde fomos antes da partida tudo foi igual a 2016. Fotos finais, palavras de ânimo e lá fomos nós. Estava mais contido que o habitual e sentia isso. Nos minutos antes da partida até já tinha ligado a minha playlist - também pelo facto de estar a usar uns phones bluetooth e de ter as músicas no relógio, daí não querer mexer nele depois de passar o pórtico inicial. Já tinha feito experiências em treino mas ainda tinha receio de parar o relógio se carregasse numa opção errada. Mantém-se algo a ponderar para o Porto: usar estes phones que têm autonomia para a prova toda ou usar o mp3 do ano passado que "só" se aguenta 4h. A outra hipótese é tentar fazer a Maratona abaixo desse tempo.

Dos cinco da Meia Maratona sabia que, em condições normais, seria o elemento do meio, portanto deixei dois colegas mais para trás e vi outros dois afastarem-se gradualmente até deixar de os ver no horizonte. Também tinha dito durante a semana a várias pessoas que, em condições normais, podia perfeitamente ir a Coimbra e tentar bater o meu record na distância, embalado pelos treinos para a Maratona e pelo percurso igual a 2016 onde se desce bastante de início e depois enfrentamos mais de dois terços da prova praticamente em terreno plano. Infelizmente a paragem recente amolgou-me a forma e também a confiança. Mesmo assim, deixei-me ir nos primeiros 5km até passarmos pela zona da meta. Até aqui os quilómetros iam passando em boa média, a rondar os 5:00m/km ou abaixo disso.

Tentei estabilizar a velocidade a partir daqui, até porque já me estava a senti cansado e ainda tinha muito pela frente. Deu para ir olhando em redor com mais atenção, sendo que nem sequer as tentativas de me meter com o público tinham corrido bem. A coisa melhorou quando desejei boa prova a uma atleta do Correr Lisboa e aplaudi veementemente uma menina de - não sei, 7 ou 8 anos talvez? - que ia a correr pelo passeio ao ritmo do grupo onde eu ia naquele momento. "Grande atleta" - gritei-lhe eu.

Uns quilómetros mais à frente, já depois de deixarmos os atletas dos 10km seguirem o seu percurso até à meta deu-se uma feliz coincidência. Lembram-se da Lúcia com quem partilhei um pouco da Meia Maratona de Castelo Branco? Pois bem, encontrei-a novamente. Ela admitiu que não se lembrava bem de mim mas seguimos à conversa sobre as provas das Running Wonders. Ela já fez as sete e ficou "prometido" novo encontro para Évora! Segui viagem perante a insistência dela que sentia que me estava a atrasar o ritmo.

E encontrei-a novamente aos 10km quando parei no abastecimento por uns segundos para beber um copo de isotónico. Ela passou por mim e fui quase até aos 15km atrás dela. Foi uma boa lebre. Já antes disso senti um outro atleta a colar-se a mim e foi um bom bocado ao meu lado, mas sem nunca falarmos. Acho que havia ali uma entreajuda silenciosa e ao passarmos por outro pequeno grupo ele acabou por ficar com eles. E, de repente, a minha cabeça de matemático escondido atrás de um curso de Letras começou a trabalhar: se eu tenho 55 minutos à passagem os 10,5km então se mantiver o ritmo faço 1:50 no final! Ah, mas agora não vou ter aqueles quilómetros a descer para ajudar a média, esquece lá isso. Mas calma, se passei aos 11km com cerca de 57:30 basta-me fazer uma hora nos 10km finais para acabar com um tempo interessante. Não, esquece lá isso.

E esqueci. Nesta fase havia um ponto de retorno e o meu interesse era saber onde estavam os restantes colegas da equipa. Não havia surpresas e isso era bom sinal. E entre o quilómetro 14 e 15, depois de tomar o único gel da prova (levei dois, mas optei por retardar ao máximo para tentar só tomar um) ultrapassei a Lúcia. E voltei a fazer contas. E à falta de público naquela zona do percurso dei por mim a agradecer aos voluntários nos abastecimentos dizendo que nós sem o apoio deles não conseguíamos fazer as provas. Já estava a ficar cansado, apesar de contente por estar a conseguir manter um bom ritmo. Já só queria voltar a entrar em Coimbra, já só queria ver a Ponte de Santa Clara, já só queria acabar. Felizmente tive uma visão e encontrei lá ao fundo a camisola azul de um dos meus colegas de equipa e tentei encurtar distâncias para, quem sabe, terminarmos juntos porque ele teria, eventualmente, quebrado. Não consegui e vim a perceber mais tarde que era uma miragem. Esse meu colega acabou a prova 9 minutos antes de mim! Era claramente outra camisola parecida.

Foi já em quebra que entrei no último quilómetro - o mais lento de todos, feito a 6:00m/km - e nem o facto de ter a meta à vista me conseguia ajudar a reagir. Até que na última curva antes da meta vejo uma das colegas de equipa que fez os 10km e faço a minha melhor pose sorridente para a foto. E a partir dali foi uma festa em toda a recta da meta que só terminou depois de concluir a prova. E caso não haja fotos oficiais pelo menos já há um vídeo que imortaliza o momento! Pouco depois chegava a Lúcia.

Era altura de partir para outro objectivo, ir atrás buscar a nossa colega. E eu não consegui. Disse aos meus dois outros colegas que já tinham terminado antes de mim que fossem porque eu estava completamente rebentado e sem forças. Acabei por esperar junto à meta e também por isso me emocionei. Felizmente o espírito da equipa faz com que quando não podem uns, podem outros e ela lá vinha com uma guarda de honra. Quando lhe dei os parabéns também lhe pedi desculpa por não a ter ido buscar. 

E pronto, mais uma aventura terminada, regresso aos carros não sem antes passar pelas famosas escadas do Quinchorro. O almoço foi no mesmo local do ano passado, o que significa que houve doçaria a seguir viagem com a malta no regresso a casa. Dos cinco que fizeram a Meia houve duas estreias na distância e dois recordes pessoais batidos, um deles o meu.

Repete lá isso? Sim. Quando cruzei a meta não olhei para o relógio nem o parei logo. Não sabia exactamente o tempo que tinha feito e acabei por me esquecer disso até ao momento em que estávamos a beber café depois de almoço e me lembrei de ir ver à net se já havia resultados oficiais. E havia. Tirei 8 segundos ao tempo que tinha feito no Douro Vinhateiro.

Agora é ver como recupero. Claro que o início rápido da prova ajuda, mas este resultado surpreendeu-me. Não sei bem o que pensar até porque apesar das contas que fiz a meio da prova nunca fui à procura da marca. Acabei exausto mas por outro lado nunca tive momentos a meio em que tivesse quebrado mentalmente. É estranho um record pessoal deixar uma pessoa com dúvidas. Não foi um "treino longo" ao ritmo da Maratona, mas foram 21km nas pernas - a  última vez que farei tantos antes do Porto.

Estou feliz, claro que sim. Foi um dia cheio de emoções! Mas acreditam que estou confuso?

Prova nº 69 - Meia Maratona de Coimbra 2017 - 21km - 01:57:08

domingo, 17 de setembro de 2017

Amizade

Uma das coisas que ganhei quando entrei no mundo das corridas foi um número infindável de novos amigos. Ok, algumas pessoas serão sempre "conhecidos" mas outros são mesmo amigos verdadeiros.

No treino de equipa a seguir ao meu dia de anos fui brindado com uma festa "meio-surpresa" onde estiveram presentes muitos dos habituais colegas das 5as feiras mas também alguns que apareceram "à civil" para me darem um abraço. Foi meio-surpresa e não surpresa completa porque eu fui apanhando alguns dicas que deixaram com a pulga atrás da orelha. Obviamente que adorei e senti-me tremendamente acarinhado por todos!

Neste grupo de amigos que apareceram sem ser para correr estavam elementos da equipa tagarela, nossos amigos e vizinhos e com quem tenho feito as provas do troféu das localidades. No meio de beijinhos e abraços, o mentor da equipa comentou comigo que tinha dorsais extra para a Corrida do Aqueduto e perguntou-me se eu tinha disponibilidade e vontade de ir. Aceitei quase sem hesitar, apenas porque não sabia como seria este fim de semana e passado uns dias confirmei que aceitava a oferta, mesmo não sendo possível alterar os dados da inscrição.

(Na verdade, o que eu gostava era de ter ganho o passatempo a que concorri para fazer a Meia Maratona do Porto mesmo sabendo que isso era logística e financeiramente complicado!)

Faço aqui um parêntesis para dizer algo importante: não gosto de correr com dorsais que não estejam em meu nome. Não que me faça confusão ter outro nome ao peito, mas (vamos todos bater 3 vezes na madeira) se acontece um problema físico pode ser uma complicação do caraças por causa de accionar o seguro. Aliás, em bom rigor será impossível fazê-lo! Atenção a este tipo de coisas porque a nossa saúde está sempre acima de tudo! Por outro lado isto também pode causar situações difíceis e injustas em termos de atribuição de medalhas. Fica então aqui o repto para tentarmos sempre correr com um dorsal que seja nosso e se for, por exemplo, comprado a outro atleta que seja dentro do prazo permitido para mudar dados de participante. 

Em relação à prova, ia com a ideia de fazer um tempo a rondar os 50 minutos, mas sem qualquer stress porque nesta altura não estou a apostar minimamente em provas curtas. Ao ver a altimetria da prova mudei de objectivo e quis apenas dar o meu melhor sem olhar muito para o relógio. E a verdade é que fiz tanto uma coisa como outra. A partida até foi tão rápida e sem aviso prévio que só meti o relógio a contar com uns 150 metros de atraso portanto sabia que havia uma ligeira discrepância em relação aos quilómetros e ao ritmo médio. O facto de irmos subir mais do que descer também ajudou a esquecer qualquer prognóstico de tempo final.


Durante a prova não houve muitos momentos de interacção, ao contrário de Castelo Branco. Algumas pessoas na rua mas apenas vi duas (DUAS) a bater palmas na altura em que a minha parte do pelotão passou. Retribui-lhes a gentileza a aplaudi de volta. Na estrada, ainda antes dos 2kms tinha um outro atleta a dizer-me que não conhecia a prova mas que sentia que isto era um percurso para nos deixar KO. Eu também nunca a tinha feito mas disse-lhe que pelo que tinha visto do percurso ainda ia piorar até ao km5. Ele ficou meio preocupado. Eu cá sou picuinhas com isso e não gosto de ser surpreendido durante a prova. Isso até aconteceu hoje porque na conversa antes da partida sobre a volta que íamos dar faltou dizer que havia ali um km - o oitavo - em terra batida. Foi pena só porque já tinha passado o pior da prova e estava a rolar num ritmo estável na casa dos 5m/km e tive que me resguardar um pouco. Nada que me tivesse deixado muito chateado, obviamente. Vejo agora que estou a actualizar o meu ficheiro de Excel que até foi o meu pior registo do ano em provas de 10kms. Estou preocupado? Nada.

Foi com tranquilidade que passei a meta, ainda com um sprint final e com o extra de ter tido o speaker de serviço a dizer o nome da equipa que leu na minha camisola. Depois disto foi esperar pelo chegar do resto da malta. Ainda pensei em voltar atrás para ir buscar alguns dos restantes companheiros de viagem mas cruzei-me com algumas caras familiares com quem estive à conversa e quem faltava foi chegando a conta-gotas mas em bom ritmo.

Como é normal, tivemos direito a abastecimento extra porque toda a gente leva qualquer coisa para partilhar e comer no final num picnic improvisado. Eu já estava claramente desabituado e como não houve menção a isso na convocatória não levei nada. Falha minha. E foi já no final de festa quando estávamos a caminho dos carros que recebi uma notícia fantástica e pude festejar a passagem pela meta que eu aguardava com muita confiança mas com aquele nervoso miudinho de quem está a ouvir um relato de futebol e espera que se grite golo a nosso favor! O golo da amizade!

Parabéns!
Prova nº 68 - Corrida do Aqueduto 2017 - 10km - 00:52:42

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Corrida da Felicidade

"Duas horas"

Foi a minha resposta vezes e vezes sem conta à pergunta: "Vais para fazer quanto tempo?" E disse isto também ao meu colega de equipa vezes suficientes para o recordar que não estou nesta fase a atacar os tempos da Meia Maratona, mas sim a usar estas provas como treinos longos mas em ambiente de competição para afinar a máquina para a Maratona. Isso ajudou a tirar alguma eventual pressão de cima, mas sem esquecer que também hei-de querer melhorar a minha marca na distância e em condições ideais procurar aproximar-me o mais possível dos 1:50.

É sempre impossível prever o que vai acontecer numa prova. Há dias em que a pressão faz falta para nos manter com a adrenalina em alta e focados num objectivo. Noutros dias não ter qualquer pressão faz com que se aprecie da prova pelo simples prazer de correr. O ideal estará, sempre, em conseguir o balanço perfeito entre ambas as situações.

Indo sem pressão, com o objectivo de fazer a prova em duas horas e depois de uma semana de férias que foi tão boa que pareceram duas - hei-de falar sobre isso - o dia tinha tudo para correr bem. Mais ainda, tínhamos dito uns dias muito agradáveis de convívio e boa disposição por termos começado o fim de semana logo na 6a à tarde e passado o tempo até chegar a Castelo Branco no domingo em passeio e descontracção, curiosamente pelas mesmas zonas onde tinha estado de férias em Julho: Portalegre, Castelo de Vide e até, novamente, Espanha.

Há anos que não ia a Castelo Branco, apesar de ter ligações familiares àquela zona do país, pelo que pouco me lembrava da cidade. O que já tínhamos visto é que a altimetria do percurso era "jeitosa" - confirmou-se com cerca de 300 de acumulado. Para além disso havia algum receio do calor (safei-me) e até do facto de estarmos a correr numa zona 400 metros acima do nível do mar. Nunca tinha pensado nesta última parte, mas também não senti dificuldades acrescidas por isso. A bomba da asma - que até ia ficando no carro - nunca saiu do bolso dos calções.

Na véspera, uma novidade: fomos dormir antes das 22:00 porque fizemos contas a sair da zona de Portalegre pelas 6:30 para fazer a viagem até Castelo Branco nas calmas, estacionar sem stress pelas 8:00, levantar os dorsais e descontrair depois. Foi tudo feito ao bom estilo de um relógio suíço: partida às 6:35, entrada num café na zona da prova às 7:55. Pelo caminho, sempre o espectro devastador dos fogos que assolaram aquela zona, para além das nuvens de fumo que já tínhamos sentido desde o fim de tarde de sábado por causa dos incêndios que lavravam lá perto. Desolador...

Fomos sentindo o ambiente da prova e o número de atletas a aumentar, mas tínhamos noção que não estava muita gente e íamos conversando sobre os motivos para isso: a data da prova que chocou com imensas outras pelo país fora, o facto de ser a primeira edição, a proximidade com a próxima prova das Running Wonders (o Dão dentro de duas semanas), a localização que obriga a uma logística mais exigente para muitas das pessoas com que nos cruzamos habitualmente, etc. Por outro lado gosto de correr mais longe da zona de Lisboa para ter contacto com outras equipas e outras camisolas que normalmente não se encontram. E isso faz com que a festa seja maior quando durante o percurso vemos malta do Correr Lisboa (grande Brigitte que foi segunda classificada no sector feminino nos 10km), dos Brr Night Runners do Barreiro, da equipa de Leião (sim, vi por lá um representante), etc. Já agora, números oficiais na classificação terminaram a Meia Maratona 343 atletas e a prova de 10kms 375 atletas.

O início da prova levou-nos a uma passagem junto ao parque da cidade, começando depois a subir por ruas estreitas e de empedrado. De seguida fomo-nos afastando gradualmente do centro da cidade sempre a descer até próximo dos 6km de prova. Nessa altura cruzei-me com o meu colega de equipa que levava uns 700 metros de avanço. Fiz contas e parece-me que ele ia bem lançado para fazer 1:50 como pretendia. Não havia muita gente nas ruas e quem estava apoiava, por vezes timidamente e por vezes após responder ao meu apelo de palmas. Sim, o meu estilo nunca muda e passei a prova toda a puxar pelo público. Depois veio o retorno e estávamos a subir o que tínhamos descido até chegar aos 9kms onde se fazia a divisão dos 10kms e da Meia. Pelo meio também fomos algum tempo ao lado da malta da caminhada, mas nessa altura não consegui encontrar caras conhecidas. Estávamos próximos da meta, mas ainda não era a nossa altura de terminar. Passei aos 10kms com 55:05 e por brincadeira pensei que era possível fazer os restantes 11kms numa hora, mesmo sabendo que ainda havia muito carrossel pela frente. Devem ter sido os 10kms mais fáceis que fiz nos últimos tempos. Não dei por eles a passar, ainda troquei umas palavras com o "Super-Homem" que fez a prova toda (não sei se fez a Meia ou os 10kms) a empurrar a filha num carrinho. Ri-me quando ela lhe pediu encarecidamente para não a largar na descida ele lhe disse que tinha que descansar um pouco nessa zona para depois subir no regresso. Ainda lhe perguntei se a certa altura do percurso iriam trocar para ser ela a empurrar e ele ir sentado, mas penso que isso não era opção.

Sabia que na segunda parte do percurso iríamos ter muitos pontos de retorno e isso agrada-me porque me permite ir distraído q.b. em quem vem em sentido contrário sem nunca perder o foco no que estou a fazer e sem perder o ritmo. Pelos 12km aproveitei uma subida mais pronunciada para mais tranquilamente tomar um gel - o único que tomei durante a prova - e isso também foi diferente do habitual porque normalmente em Meias Maratonas tomava um entre os 7 e os 8kms e depois um segundo aos 15kms. Era uma altura em que se estivéssemos a descer sabíamos que daqui a um ou dois quilómetros havia um ponto de retorno e faríamos o percurso inverso a subir (ou vice-versa) e isso ajudou-me a gerir o esforço. Quando me cruzei novamente com o meu colega de equipa não tive noção da distância que nos separava mas não seria muito maior que aos 6kms.

Havia diversão pelo percurso, entre tunas, bandas e outro tipo de animação e por estarmos mais próximos do centro da cidade senti mais algumas pessoas na rua que apoiavam dentro do possível. Acho que bati palmas a toda a gente que nos dava uma força extra e desviei-me algumas vezes para a berma para dar "high-5" às crianças que eu sei que gostam sempre deste tipo de interacção. Chamei campeão a vários, tive sorrisos de volta e fiz tudo o que estava ao meu alcance para dar justiça ao nome da prova: Corrida da Felicidade! Eu estava verdadeiramente feliz a correr naquelas ruas, muito zen, muito confiante. O meu momento alto foi ali pelos 13,2kms (fui ver ao Strava porque sei exactamente em que curva estava) quando me desviei ligeiramente do lado direito da estrada para ir dar umas palavras de ânimo e bater palmas a um jovem veterano que vinha em sentido inverso cansado da subida que tinha acabado de fazer. Ele sorriu - não tinha fôlego para mais na altura - e à minha volta houve palmas dos restantes atletas que iam junto a mim. Por falar em jovens veteranos, acabo de ver na classificação geral que dos 11 atletas com mais de 60 anos - dez homens e uma mulher - apenas 4 homens fizeram mais tempo que eu. Os restantes 6 homens fizeram tempos que eu não sei se vou algum dia atingir e a única senhora no escalão V60 chegou uns segundos à minha frente. Malta, continuem assim que daqui a 25 anos eu já vos apanho, ok?

Até aos 15km tive a companhia de um pequeno grupo que se foi formando e íamos a rolar entre 5:30 e 5:40. Uma dessas pessoas foi a Lúcia do Centro de Treinos Municipal de Vila Pouca de Aguiar. Nunca tinha ouvido falar da equipa, não a conhecia de lado nenhum, mas durante uns largos metros fomos ali lado a lado e trocámos algumas curtas palavras. Acabei por me distanciar deste grupo, ainda lhe dei uma força final quando a voltei a ver já perto da entrada para o último quilómetro e no final voltei a encontrá-la na zona de abastecimento de cevada logo a seguir à meta. Agora o mais provável é não me voltar a cruzar com ela, mas esta interacção entre atletas - aqueles que correm pela simples felicidade de correr - deixa-me sempre alegre. (Afinal "reencontrei-a" aqui)

Foi também perto do fim que voltei a cruzar-me com o meu colega - ele junto à placa dos 20kms que tínhamos visto ao entrar de carro em Castelo Branco e eu do lado oposto da estrada junto à placa dos 19kms. Queixou-se do calor e eu percebi pelo tempo de prova que ele ia ficar acima do objectivo, sendo que acabou com pouco menos de 1:52. Achei que estar apenas um quilómetro atrás dele não era nada mau. Nem sequer achei que estivesse assim tanto calor na altura, mas passado 500 metros quando fiz o retorno naquela estrada comecei a apanhar com o sol de frente na cara e depressa percebi o que ele quis dizer. Pouco importava, depois da placa dos 20km uma pessoa ganha o último ímpeto, apenas travado pelo facto de ser praticamente todo a subir. Ao chegar à recta da meta estava cansado - mas não exausto - e consegui ter a cereja no topo do bolo com uma chegada memorável à meta que sei ter sido capturada por fotógrafos mas cujas imagens ainda não encontrei - ou provavelmente ainda não foram publicadas.

Era o culminar de uma prova, de mais uma Meia Maratona. Foi a décima segunda da carreira, foi o meu terceiro melhor tempo na distância. E nunca é demais repetir, foi uma prova onde me senti feliz! Para os mais atentos, há exactamente um ano estava aqui, exactamente com o mesmo espírito descontraído mas a fazer o meu terceiro pior tempo de sempre!

Estava com imensas saudades de fazer uma prova. Já tinha passado demasiado tempo desde as Fogueiras. Curiosamente o plano de treinos mandava fazer uma prova de 10km no domingo para testar a evolução até àquela data. Oops, estiquei-me só um bocadinho...

Agora resta manter uma ideia que eu já aqui falei há tempos: domingo a prova ficou feita, 2a feira começou tudo outra vez!


Prova nº 67 - Meia Maratona de Castelo Branco 2017 - 21km - 01:58:53

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Fogueiras, Futebol e... Família!



Como sempre inscrevi-me para as Fogueiras na madrugada em que as inscrições abriram. Uns 10 minutos depois da meia-noite já tinha o dorsal pago e ainda consegui baixar um número em relação ao ano anterior. No entanto, a verdadeira prova começou no dia 21 de Março.
A pergunta era: "Consigo fazer os 15 das Fogueiras?"
A resposta antes disto foi: "Sim! E nós vamos buscar-te quando acabarmos."


Continuando...
Qualquer desculpa é boa para ir passar um fim de semana a Peniche. Se for para correr, melhor ainda. Se for para fazer a Corrida das Fogueiras é perfeito. A primeira vez que ouvi falar desta prova foi no regresso a casa depois desta Meia Maratona da Ponte 25 de Abril. Estava obviamente abatido e vinha com um grupo de companheiros de estrada aqui da zona. Alguém comentou que as inscrições iam abrir em breve e foi a loucura. Disseram-me que se eu não conhecia tinha que passar a conhecer e por mais que tentassem explicar as razões acabaram por dizer que só mesmo indo é que se percebia. E eu fui. E agora é prova que eu quero fazer sempre!

Já aqui vos tinha dito quais os meus planos para esta prova e por mais que eu tivesse um colega - o mesmo que me desafiou aqui - a dizer-me que este ano não me apanhava porque eu estava muito forte, eu sabia que não era bem assim. Ele ia com planos de fazer menos de 1:15 e acabou a fazer 1:12. Ele sim está muito forte e fico bastante feliz pela evolução que está a ter!

Ao chegar a Peniche no sábado à hora de almoço o tempo estava fresquinho (frio, mesmo!) e até houve uns chuviscos pelo caminho. Bom para correr, desde que o vento não fosse dar um ar da sua graça. E levar um casaco? Nada. Nem aquela sweatshirt nova e giraça do grupo. Tótó, até parece que não sabes como é Peniche! Para minha surpresa e alegria a malta da equipa que lá foi ter chegou a meio da tarde em vez de mais próximo da hora da prova e isso fez com que fosse uma tarde ainda mais animada com o pessoal. Não deu para descansar uma horinha no quarto como estava previsto, mas não fez mal! Já agora, durante a tarde às voltas em Peniche devo ter feito a Avenida do Mar umas 5 vezes para cada lado e já ia com 8kms feitos. Belo aquecimento! Nessas voltas cruzei-me com caras conhecidas: o João Lima, a Isa e o Vítor, o Carlos, entre outros. E muitas outras caras ficaram por ver, tal era a multidão de atletas presente.

Conversa, fotos, preparativos finais, mais conversa, planear como fazer com as sardinhas, um stress de última hora, beijinhos e abraços (e um grande abraço de força!) e num instante a malta foi para os blocos de partida das Fogueiras e das Fogueirinhas. Era o único a estar na Onda Amarela e fiquei sozinho no bloco de partida. E sabia que desta vez não ia defender a média do comprovativo de tempo que tinha enviado: 1:15 era fantástico, 1:18 era o esperado, melhorar o tempo de 2016 era obrigatório.


Em cima temos a comparação entre 2017 e 2016. Lembrava-me que em 2016 tinha feito uns 5kms iniciais muito rápidos e que depois comecei a sentir o peso disso à passagem dos 10kms tendo rebentado por completo na subida do Hospital aos 13km. Este ano, à excepção do km12, fui sempre mais rápido que no ano passado. Voltei a fazer um primeiro terço da prova em excelente ritmo, aguentei-me bem na subida até ao Farol e quebrei... a seguir ao quilómetro 13 mas muito menos que no ano passado. Como a história se repete, foi um pouco antes desta zona que o João Lima passou por mim, exactamente no mesmo sítio do ano passado! Curiosamente quando nos vimos durante a tarde ele falava-me da minha cara de espanto em 2016 quando o vi a voar ao meu lado. Este ano não fiquei admirado. Os meus dois últimos quilómetros voltaram a ser os piores da prova mas não tão maus como em 2016 onde tive um final de prova mesmo complicado. Quando já estava a entrar no último quilómetro vejo a minha amiga Inês à beira da estrada a apoiar e aquele high-5 e a rápida troca de palavras de incentivo deram-me alento para me aguentar até ao fim. Mesmo com o apoio de tantos desconhecidos, sabe sempre bem ver um sorriso amigo e um apoio mais personalizado.

Durante o percurso tivemos tudo aquilo a que temos direito em Peniche: o público na rua a puxar por toda a gente! (Felizmente Portugal jogou a meio da tarde e não à hora da corrida como em 2016) Obviamente a apoiarem ainda com mais fervor os atletas locais, mas sempre com palavras de ânimo e palmas para os quase 3000 que completaram as Fogueiras, sem contar com os atletas das Fogueirinhas para os quais penso não haver número oficial. Já agora, a malta das Fogueirinhas também merecia um dorsal, não?

E quando o público por alguma razão não estava a apoiar, o que é que acontecia? Gritava eu para os apoiar a eles! "Bora lá Peniche" foi uma frase que ainda repeti algumas vezes e era sempre seguida de uma reacção sonora por parte de quem assistia. Senti-me imensamente bem nesta sintonia com o público. Também cheguei a gritar que não estava a ouvir nada quando o público estava ligeiramente mais calmo e aposto que alguém terá dito - ou só pensado - que isso era porque eu ia com os phones nos ouvidos.

Voltando à zona do Cabo Carvoeiro, ia a sentir-me tão bem que só aos 9kms é que me lembrei que ainda não tinha tomado o gel que estava previsto para tomar entre os 7.5 e os 8kms. Aquilo que notei - confirmado por quem também já fez a prova mais vezes - foi que este ano havia muito menos fogueiras acesas, previsivelmente fruto dos acontecimentos recentes. Como a lua também estava encoberta foi um misto de loucura e beleza extra fazer aquela zona quase às escuras! Recordo-me de vez num ano a organização lançar o desafio dos atletas levarem frontais para melhor iluminar o percurso naquela zona e ter havido uma recusa geral por parte dos participantes porque a prova chama-se Corrida das Fogueiras e não Corrida dos Frontais!

Ao ver a Avenida do Mar ali outra vez já só queria terminar bem. Devo ter olhado para o relógio umas três vezes durante o percurso todo. Uma delas foi à passagem aos 10kms para comparar o tempo com o do cronómetro oficial da prova (ia ligeiramente abaixo dos 51 minutos) e outra lembro-me ter sido à entrada para o último km e ter visto que estava com 1:13 e alguns segundos. Estava na mira para acabar com 1:18 e assim foi, embora já a cheirar o minuto 19.

Depois da meta não tinha tempo a perder, era voltar atrás para cumprir a promessa feita três meses antes. Foi difícil sair daquela zona e atravessar a Avenida do Mar - por esta altura já devia ir na décima volta à avenida - mas depois de passar essa parte ficou mais fácil e fui fazendo o percurso em sentido contrário. Comecei a ver novamente caras conhecidas, colegas de equipa com boa cara a caminho do final, cruzei-me com a Agridoce (juro-te que aos 5kms passou por mim a tua irmã gémea e fui a persegui-te - quer dizer, a persegui-la - durante vários quilómetros sem nunca a conseguir apanhar! Só percebi que não eras mesmo tu quando te vi!), fui apoiando alguns Vicentes e trocando palavras com outros atletas que me juravam que "lá atrás também disseram que já faltava pouco!".

Até que chegou o momento esperado a cerca de 1,8kms da meta. E esses quilómetros - aqui abreviados em poucas linhas, mas que dão para encher um post inteiro - foram dos mais marcantes de sempre e nunca os esquecerei. A certa altura ouço alguém no passeio a gritar: "Assim é que é, um colega de equipa nunca fica para trás!" E isso resume tudo.

Depois da prova veio a bela da sardinhada. O ponto alto do convívio, a troca de risos, gargalhadas, abraços. Muitos brindes, muitos drones, muita loucura saudável daquela que nos faz esquecer todos os sacrifícios e todas as dores enquanto estamos a correr! Tenho tanto orgulho em pertencer a esta família. E isso não cabe em nenhum post!

De regresso ao quarto do hotel só adormeci bem depois das 3 e tal da manhã. Ainda tinha a adrenalina a correr-me nas veias, ainda estava eufórico e estava estupidamente sem sono mas acabei por conseguir descansar umas horas. Na manhã seguinte, antes do regresso a casa ainda houve tempo para um pequeno passeio até ao Cabo Carvoeiro, para relembrar memórias de outros tempos e para fazer parte do caminho da prova de carro e à luz do dia. E arrepiar-me em algumas zonas ao recordar as emoções da noite anterior.

Subida? Qual subida?

As Berlengas lá ao fundo

Adoro este azul do mar!


Trouxe Amigos de Peniche, mas ficaram lá imensos pela estrada fora e nos passeios!

Até ir de férias não tenho mais provas confirmadas. Não posso ir à Meia Maratona de Almada no dia 1 nem à prova do troféu das localidades dia 2, mas ainda tenho duas possibilidades para dia 8 de Julho. A ver vamos se alguma se concretiza.

Depois do Verão começam os treinos longos e algumas Meias Maratonas como preparação para a Maratona do Porto.

Aparentemente em 2016 faltava-me um F.

Prova nº 66 - Corrida das Fogueiras 2017 - 15km - 01:18:56

O meu histórico nesta prova:

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Challenge 3000

Depois de estar marcada para Maio e posteriormente adiada para o início de Junho, decorreu finalmente hoje o Challenge 3000. Estava muito curioso em fazer finalmente uma prova em pista e como já tinha estado exactamente neste local a fazer reportagem fotográfica numa das provas do Circuito dos Parques mais interessado fiquei em pisar aquele palco sem ser "à civil".

Depois da prova de estafetas - que foi curiosamente o que me levou à Corrida dos Parques - este era um dos outros objectivos que tinha para cumprir.

Apesar de trabalhar em Lisboa e de ser dia de Santo António... estive a trabalhar durante o dia, portanto tive que preparar a trouxa de véspera para levar e mudar de roupa entretanto. Rapidamente levantei o dorsal e fui vendo o ambiente. Voltei ao carro e equipei-me. Cheguei cerca de uma hora antes da minha prova - havia desafios de tempo diferentes para os atletas inscritos o que fazia com que a prova se dividisse por várias séries. Entretanto dado o número de atletas que efectivamente apareceram foi decidido pela organização juntar quem se inscreveu para o Desafio 18 com os atletas do Desafio 15 - a minha série.

Para explicar, estes desafios significam exactamente o tempo abaixo do qual nos propomos a terminar os 3kms. Também havia duas séries de Desafio 12, uma série só feminina com vários tempos e pelo que percebi séries de equipas, mas já não fiquei a assistir a todas para perceber como iriam funcionar.

Antes da nossa prova estavam a decorrer provas - julgo que oficiais - de 400 metros barreiras e salto com vara e havia atletas por todo o lado, o que era bom para ir entrando no ambiente. Próximo da hora da partida foi sugerido que fossemos preparando um aquecimento e lá fiz uma corridinha e uns alongamentos. Em boa hora, porque deu para me habituar um pouco ao piso da pista.

Ora, numa prova de 3kms é complicado fazer um relato muito longo. A própria prova pareceu passar num instante, como era de esperar! Como eu todas, defini objectivos de tempo: fazer menos de 14 minutos era quase obrigatório. Dependendo de como me fosse sentir, fazer entre 13:30 e 13:40 era ouro sobre azul e a prova começou bem lançada para isso. Assim que partimos fui atrás dos mais rápidos para ver até onde conseguia esticar a corda. Percebi que era ambição a mais e moderei o ritmo para algo mais próximo do que eu faço. Quilómetro inicial: 4:22!

Deixando a malta da frente ir embora ficou mais fácil. Eles iam mostrando qual era o percurso e eu fiquei mais para trás com outros dois atletas à frente a tentar seguir o ritmo deles e a gerir o meu. Segundo quilómetro a 4:39, bem mais lento mas bem mais realista. Eu queria mesmo era fazer isto tudo a 4:30/km e nesta altura estava com esse média que dava para os tais 13:30. Era só não perder muito no último para não ficar longe desse tempo.

Não consegui, fiz o último quilómetro a 4:46, mas longe de mim estar arreliado com isso. Cumpri o desafio - que era fazer em 15 minutos - e cumpri o meu primeiro objectivo, menos de 14. Como era de esperar gostei de correr na pista. Foram 7 voltas e meia e adorei a sensação de passar pela meta e ver reduzir o indicador no número de voltas que faltavam para acabar. Tentei contá-las mentalmente mas perdi-me logo, portanto o relógio e aquele marcador manual eram essenciais. No final da prova comentei com um companheiro que conheço de outras andanças que às vezes se torna repetitivo andas às voltas à pista, achei que essa sensação seria mais fácil de ultrapassar. Certamente falta de experiência nesse capítulo. Temos uma "pista improvisada" num quarteirão aqui na zona onde fazemos séries mas não se sente essa questão. É uma questão de hábito.

E o calor? Era muito, mas não me afectou. Continuo a ter boa resistência ao calor e a não me deixar abalar com temperaturas mais elevadas. Custou-me mais a garrafa de água no final estar a quente e nada refrescar a boca e a garganta. No final, foi muito agradável fazer a prova e já estou de olho em outras do género. Falei com a organização que confirmou que estão a planear novo Challenge para breve. Estarei atento.

Ia-me logo embora depois de acabar, mas percebi que tinha tempo livre e já que não ia ao treino da equipa e estava num local tão bom decidi fazer mais uns quilómetros pelas pistas de fora para não prejudicar as séries seguintes. Não fiz muito mas foram mais quase 3km em 15 minutos. Eu disse que era só para descomprimir as pernas... só que não foi.

Do que é que eu me queixei mesmo durante a prova? De dores nos braços e na zona lombar.
Dica: mesmo que seja só uma coisinha de 3kms, nunca façam percursos de arvorismo (ou arborismo?) e escalada dois dias antes de uma prova!!!





Prova nº 65 - Challenge 3000 - Pista de Atletismo Municipal Prof. Moniz Pereira - 3km - 00:13:52

domingo, 4 de junho de 2017

Cheira bem, cheira a Lisboa!

Em primeiro lugar, o meu agradecimento à Europcar que me permitiu fazer esta prova por causa do passatempo que ganhei. Agora vamos falar a sério: podem parar de apanhar o elevador para subir para o segundo andar lá no edifício onde trabalhamos? Pior, podem parar de o fazer quando querem descer? É só um andar, caramba! (Curiosamente eu - que trabalho uns quantos andares acima - ia sempre pelas escadas quando só andava nas caminhadas e não corria.)

Para quem não sabe - vão lá ler o primeiro post do blog, vá... ou esperem pelo texto que já está escrito e programado para ser publicado na 4a feira - a Corrida de Santo António foi a primeira prova que fiz. A partir daí esta tornou-se numa prova com um grande simbolismo, mas nunca a fiz quando passou a ser parte integrante do já extinto BES Run Challenge. Anos mais tarde vim a descobrir que o meu mentor também lá esteve, não terminou a prova por problemas de saúde e a partir daí ganhou-lhe uma raiva que nunca lá meteu os pés. Daí que lhe tenha dedicado - de forma privada que ele não gosta deste tipo de agradecimentos públicos - o meu tempo na prova do ano passado, a primeira vez que baixei dos 50 minutos aos 10km. Não meto aqui o link desse post porque contém uma asneira e apesar do adiantado da hora vamos manter alguma integridade.

Tinha esta prova no calendário porque é daquelas que transita sempre de um ano para o outro, mas já a tinha marcado a vermelho para não ir. Hoje também foi dia de milha no Troféu das Localidades que se disputou no estádio do "meu" Real de Massamá e estava fisgado a ir a essa prova. A vida trocou-me as voltas e acabei aqui, depois de um dia a passear por Lisboa. Isso levou logo a um dilema: deixar o carro onde estava e ir de metro ou levar o carro até mais próximo da zona da prova? 

Optei pela segunda opção e até estacionei junto ao edifício onde estavam antigamente sediados os escritórios da minha empresa. Estacionei com relativa facilidade e mude de roupa dentro do carro. Pois claro, não ande a passear equipado durante o dia! Foi só quando saí que percebi que tinha o carro em frente a um hotel - que não existia ali "no meu tempo" e que é quase paredes meias com outro hotel bem antigo e conceituado. E no sítio onde tinha o carro estava um sinal de estacionamento proibido, excepto para serviço do hotel. Saí, dei uma volta ao quarteirão na esperança de encontrar uma panóplia de lugares livres que me permitissem mudar o carro. Não encontrei e quando voltei vi outro carro estacionar ao lado, também com malta a preparar-se para a prova. Que se lixe, se fosse multado não era o único. Não que isso me tenha deixado mais tranquilo, mas já sabemos como funciona a mente humana nestas coisas.

Fui o único elemento da equipa a fazer a prova, embora soubesse que iria encontrar bastantes amigos sendo que alguns até treinam connosco com frequência. Confesso que estava chateado. Não por ser o único, isso já aconteceu antes comigo e com outros colegas e há-de voltar a acontecer e onde estiver o nosso símbolo numa camisola estamos todos representados, mas não houve aquele ritual de encontro, deslocação e convívio pré-prova que ajuda a entrar no espírito. Nessa onda, até me consegui picar num dedo com um alfinete de dama a meter o dorsal. Toma lá para aprenderes a não teres experimentado nesta prova os fixadores Go Grip que me foram enviados para experimentar. Isto ficará para outra oportunidade e outro post.

A caminho do Rossio tudo me irritava. O vento, sentir os ténis a apertarem-me muito os dedos dos pés, a bexiga cheia meia hora depois de a ter supostamente esvaziado, o tamanho das unhas das mãos (sim, a sério), a picada de melga que tenho no joelho e que me dá uma comichão do caraças... Enfim, cheguei a pensar em dar meia volta mas para além de ter sentido a força da equipa na camisola que tinha vestida lembrei-me também que uma das nossas colegas trabalha na Europcar - noutro departamento, noutro edifício - portanto ela que não conseguiu dorsal era pessoa para me matar se eu lhe fosse dizer que não tinha feito a prova. Entretanto fui ao wc - obrigado Padaria Portuguesa - e senti-me parcialmente... aliviado.

(Tanto palavreado e ainda não comecei a correr. Começa a ser hábito.)

Ao chegar à zona da partida dei umas voltas pelo recinto, vi uma ou duas caras conhecidas e como estava sem grande cabeça para conversas entrei para a minha zona de tempo assim que pude. Tinha 3 ideias diferentes para esta prova: honrar o meu dorsal de sub-50, baixar os 49:22 do ano passado e, dependendo de como me estivesse a sentir, talvez atacar o record dos 48:18.

Foi com relativa facilidade que ao fim do primeiro quilómetro passei o atleta responsável por levar a bandeira de ritmo dos 50 minutos - os marcadores de ritmo partiram todos na frente e foram acertando o ritmo entretanto - e nunca mais pensei na hipótese de fazer mais que 50:00. Venha o próximo. 

No ano passado tive uma lebre que me marcou o ritmo nos primeiros 4km e depois abrandou para acompanhar outro colega. Quando pensei nisso passa por mim um atleta de boné vermelho e camisola vermelha - diferente da camisola da prova - com o símbolo da CM Lisboa nas costas. Fui atrás dele e quando dei por mim estava a rondar os 4:45/km. Parecia-me bem e segui, sem ele saber que me estava a ajudar. A ideia era tentar ir em ritmo mais elevado até onde fosse possível. Depois passa por nós o campeoníssimo Fernando Andrade e eu achei que era a lebre perfeita. Ambição não me faltava. O que é certo é que agora tinha duas lebres em ponto de mira e estava a conseguir seguir aguentar o ritmo, pelo menos até meio da prova. Após os 5km continuava a vê-los mas um pouco mais longe. Tinha noção que estava ligeiramente mais lento - e os parciais confirmam. Queria ter passado a meio da prova abaixo dos 24 minutos para ter hipóteses de bater o meu record. Passei com... 24:00 certinhos. Tinha que manter o mesmo andamento na segunda metade e sabia que isso era complicado, pelo cansaço e pelo último quilómetro onde iríamos subir o que descemos no primeiro.

Como habitual, nas provas em que há retorno, ia sempre olhando para quem estava do outro lado à procura de rostos familiares, de camisolas conhecidas, de formas de manter o alento e a concentração. Foi assim que já ali pelos 6 ou 7 kms encontrei a Paula, que vinha em sentido contrário - uma amiga de uma equipa vizinha e que nos meus tempos iniciais foi uma fonte de inspiração por ter perdido tantos quilos quanto eu e pela sua evolução. Infelizmente uma longa paragem por lesão tirou-lhe todo o ritmo, mas nenhuma da força de vontade nem do companheirismo. Desviei-me um bocado do percurso a direito para lhe dar um "high five". Perdi uns dois segundos? Não me arrependo de nada.

No Cais do Sodré tive uma surpresa no percurso: não fomos até ao Terreiro do Paço por baixo junto ao rio e voltámos pela Rua do Arsenal exactamente como tínhamos ido. Isso significava que a subida da Rua da Prata não ia ser tão longa como habitualmente. Ajustei a estratégia para o último km e fui buscar as últimas forças para atacar, daí que o meu segundo quilómetro mais rápido tenha sido exactamente esse, mesmo com a subida. Por acaso foi por volta dessa altura que o João Lima me apanhou e eu só me lembro de lhe dizer que estava quase e arranquei. Desculpa João, como tinha os phones nem sei ao certo o que me disseste na altura mas fica só a nota que não estava a fugir de ti e muito satisfeito fiquei quando me ultrapassaste e me disseste no final o que te tinha acontecido. Vão lá ler o relato que prometo que vale a pena, como sempre!

Já perto da meta percebi que não ia dar para record - por pouco - mas que estava garantido o objectivo de melhorar o tempo de 2016. Missão cumprida com o meu 3º melhor resultado de sempre aos 10km, atrás dos 48:16 no GP Natal 2016 (que eu considero "oficioso" por ter sido com um dorsal que me foi cedido e por ser naquela prova que termina sempre a descer) e dos 48:18 na Scalabis Night Race 2017! 

Entretanto as queixas pré-prova ficaram na linha de partida. Aos 200 metros já não me lembrava delas! 

No final da prova tive nova conversa agradável com a mesma amiga que me tinha chamado estúpido à partida para o Douro Vinhateiro. Foi uma nova conversa agradável com ela, nova troca de elogios mútuos, imensa simpatia que eu considero ser sincera. Força para essa operação!

Não devo estar presente na próxima prova do Troféu das Localidades, no Jamor, pelo que a prova seguinte no meu calendário é o Challenge 3000, dia 13 de Junho na Pista de Atletismo Prof. Moniz Pereira.

Prova nº 64 - Corrida de Santo António 2017 - 10km - 00:48:39

O meu histórico nesta prova:


segunda-feira, 29 de maio de 2017

A mais bela (e longa) corrida do Mundo

Apaguei o post que tinha pré-escrito para fazer o relato da prova. Ou melhor, editei-o e transformei-o no post anterior. Não ia escrever mais nada, mas tenho que o fazer.

Ontem durante a viagem até à Régua saltou a pergunta:
"Olha lá, este fim de semana e esta prova são uma espécie de fecho de ciclo, certo?"

Estava, finalmente, feito o click e dado o mote para voltar ao Douro Vinhateiro. Não era só ter desistido no ano passado, era tudo o que aconteceu em Maio do ano passado. E tudo o que Maio desde ano está a fazer para apagar de vez as más memórias que ficaram.

Eu disse - mais que uma vez - que não sou vingativo. Diverti-me imenso ao ler há pouco os comentários destas publicações, tal como me emocionei ao ler as palavras de força e ânimo que me deixaram recentemente aqui (e ali ao lado na rede social também). Obrigado, esta vitória também é vossa!

Esta prova tinha tudo para correr bem, após a lesão no início do ano regressei de forma bastante ambiciosa e recuperei a forma que tinha perdido entretanto. Bati record dos 10km em Santarém, dos 15km no 1º de Maio e até dos 5km também em Maio, embora em circunstâncias diferentes do habitual. O problema foi a falta de treino nas últimas semanas. Andava quase a correr de prova em prova e quando na semana passada consegui finalmente voltar a treinar duas vezes por semana acontece-me um daquelas coisas que nunca é boa mas que há alturas em que é mesmo horrível: pisei uma pedra e torci um pé a meio do treino de 5a. 

Assustei-me, enervei-me, estava a rir - de nervos! - e quase a chorar ao mesmo tempo. Felizmente o destino tem destas coisas e no meio das 20 pessoas que apareceram no treino eu estava ao lado da nossa colega que é enfermeira. Ela não me disse absolutamente nada que eu não soubesse "Vais para casa, fazes gelo, tomas anti-inflamatório e usas uma meia elástica. Repousas o pé ao máximo e vais ver que isso não há-de ser nada." mas disse-o de uma forma tão calma e confiante que me tranquilizou imediatamente. Ossos do ofício. Muito obrigado, esta vitória também é tua!

Ainda me passou pela cabeça continuar o treino e fui meio a andar, meio a correr ter com o resto do grupo que tinha parado à nossa espera. Como nós íamos na cauda do grupo mais ninguém sabia o que tinha acontecido. Também assustei e enervei a minha colega que me confortou no ano passado. Aquela que me deu a medalha e que não a quer de volta e já me explicou porquê. E eu percebi e aceitei a justificação. Assustei-a ao ponto de ter corrido mais depressa quando foi à nossa procura do que no resto do treino todo! Muito obrigado, esta vitória também é tua!

Depois tive o apoio todo do resto do grupo. O treino continuou - the show must go on! - e enquanto uns colegas foram buscar o meu carro à outra ponta da cidade (às 3as os treinos começam quase à minha porta, mas às 5as não e eu nem sempre me despacho a tempo para ir a fazer um aquecimento até lá) outro ficou a fazer-me companhia e fui a andar devagar até casa. Este carinho da equipa vale ouro. Ninguém ficar para trás também é isto. Obrigado malta, esta vitória também é vossa!

Felizmente foi mesmo mais o susto que outra coisa. Passei 6a e sábado sem dores e apenas com uma ligeira impressão na zona torcida. No sábado até deu para fazer parte do caminho até Peso da Régua a conduzir, o que me deixou bastante confiante. Hotel, levantamento dos dorsais, passeio pela cidade, fotos, selfies, relax total e... pasta party. Era a primeira vez que ia a uma e primeiro estranhou-se e depois entranhou-se. Será algo a repetir no Porto. Com tudo pronto de véspera, era hora de ir descansar e domingo chegou rapidamente. Acordar cedo, tomar pequeno almoço, confirmar que dava para fazer late check-out até às 14:00. Tudo correu às mil maravilhas no Hotel Columbano e quando é assim, fica a referência.

Feita a divisão entre comboio e autocarro, entre Meia e Mini, era hora de embarcar. À chegada à Barragem do Bagaúste ainda nos voltámos a cruzar até que fiquei com a companhia de amigos de outra equipa com quem estive até à partida. Poucas caras conhecidas, equipas e camisolas menos familiares do que em provas por Lisboa e arredores. O tempo estava encoberto e era perfeito continuar assim. Levantou e abriu o sol 20 minutos antes da partida e senti-o bem até ao retorno aos 8kms. Antes de partirmos, uma das pessoas que estava comigo lembrou-se de me falar do ano passado. Confirmou que eu tinha desistido à passagem pela barragem, a cerca de 5 ou 6 quilómetros do final. Chamou-me estúpido - assim a frio e com todas as letras. Eu ri-me e disse-lhe que tinha toda a razão. Disse-me que sabe bem que a cabeça é que manda, muito mais que as pernas e que percebia o que tinha acontecido mas que sabia que este ano não ia ser assim. Ela tinha a certeza, disse-me que eu estou mais forte, fisicamente e não só, disse-me tudo o que eu precisava de ouvir e que eu não esperava que fosse ela a dizer. Obrigado! Todos os elogios que trocámos naqueles abraços depois da meta foram sinceros e sentidos.

Mas vamos começar a correr ou nem por isso? Já vamos com um testamento e ainda nem passei a partida! Vá, vamos lá correr! Não sem antes dizer que passei debaixo do pórtico de partida com esta música a tocar nos altifalantes da organização. A minha power song. E por falar em música, ao fazer o primeiro quilómetro o leitor de mp3 foi-se abaixo. Eu já tinha percebido que isso era capaz de acontecer na noite anterior. Devo tê-lo deixado ligado depois de o carregar. Paciência. Guardei-o tranquilamente no bolso dos calções e fui a cantarolar na minha cabeça todas as músicas da playlist até que me esqueci disso e a música não me fez falta.

Decidi que a prova era só para acabar, que ia meter um ritmo "de maratona" a rondar os 6m/km e sempre sem stress. Vi que não era isso que estava a acontecer de início, fartei-me de olhar para o relógio nos quilómetros iniciais e aquilo marcava quase sempre o mesmo ritmo. Vejam bem este relógio quase suiço até ao quilómetro 9! Na verdade estava a sentir-me muito bem e sem dores. Senti-me a destilar até ao retorno, mas ia-me sempre hidratando nos abastecimentos tanto a beber água como a molhar a cara e testa. Assim que se deu a volta deixei de sentir esse problema. Tinha dividido a prova em 3 partes: até ao retorno aos 8kms, de regresso à barragem aos 16km e os últimos 5kms que não fiz no ano passado e que não conhecia. Passei aos 10km com 55 minutos e comecei a fazer contas que assim iria terminar com cerca de duas horas. Esqueci-me logo disso porque sabia que ia quebrar na segunda metade, para além de ter o efeito psicológico da chegada à barragem. Mas não quebrei, antes pelo contrário. Apenas no km 12, exactamente onde comecei a quebrar e a andar na prova de 2016. respondi da melhor maneira: aumentei o ritmo! Foi de forma involuntária e foi o sub-consciente a falar mais alto. Se no ano passado comecei a quebrar aos 12km, hoje comecei a ganhar a prova no mesmo sítio.
Já via a barragem ao longe, estava a aproveitar todos os abastecimentos tanto de água como de isotónico - também ajudou num deles o staff estar a colocar garrafas inteiras em vez de dividir por copos, porque assim trouxe uma para ir bebendo - e segui à risca o plano do gel: um no retorno aos 8km, outro na barragem aos 16km.
Algo que eu tenho que tentar perceber é a ilusão de óptica do percurso. Tanto na ida como no regresso parecia visualmente que ia a descer, embora o gráfico de altimetria confirme que nem sempre foi assim.
Os quilómetros continuavam a voar e eu sem nunca sentir cansaço, nem dores, nem quebras de ritmo, nem quebras psicológicas. Estava bem, muito bem. A partir dali era o desconhecido, era completar duas provas ao mesmo tempo. Mas eram também os quilómetros mais fáceis por serem os mais próximos da meta. (tem sido uma frase que eu digo muito ultimamente)
Fui ver que no ano passado desisti aos 15,3kms. Este ano parei exactamente nessa mesma altura, mas foi apenas para beber um copo de isotónico que neste abastecimento estava mesmo em copo e não em lata. Depois segui e nessa altura já estava a ver bastantes atletas em dificuldades, sobretudo pelo calor. Tenho sorte que historicamente não me dou mal com temperaturas altas. Nem senti que estivesse abafado, mas aparentemente estava.
Começou a fase em que tentava perceber os nomes dos colegas que estrada se tivessem na camisola ou se tivessem o dorsal nas costas e puxava por eles pelo nome quando os passava. E eu ia passando bastantes. E ia aumentando ainda mais o ritmo naqueles quilómetros. Já era impossível não fazer contas. Se fosse a x minutos por quilómetro ia ficar abaixo das duas horas. Se mantiver vou para record. Na verdade, a primeira vez que pensei em record foi aos 5kms mas decidi ignorar esse pensamento por ser absurdo.

Estando cada vez mais perto de entrar em Peso da Régua começavam a aparecer cada vez mais espectadores e/ou membros de staff no percurso. Comecei a minha saga de puxar pelo público, a pedir palmas, a pedir barulho, a pedir apoio. Normalmente faço isto quando estou a começar a fraquejar e preciso de motivação ou quando estou feliz na estrada. E eu estava radiante a transpirar de alegria por todos os poros! A malta retribuía os meus pedidos. Ouvi palmas, muito barulho. Ouvi alguém de fora gritar "És grande, Nuno!", ouvi outra pessoa dizer "Calma jovem, não te canses tanto!" Mas eu não estava nada cansado! Nada!

Passagem pela ponte pedonal, mais apoio, mais barulho, mais gente a meter-se comigo. Acho que deixei a minha marca bem vincada naqueles quilómetros finais. Acho que também assustei um ou outro atleta que ia à minha frente.

Meta à vista, nem me preocupei em olhar para o relógio do pulso, mas vislumbrei o relógio da meta que me garantia o record (batido por 31 segundos) e nunca mais pensei nisso. Metros finais emotivos, olho para as barreiras, para quem me apoiava da parte de fora. Braços no ar, sorriso estampado no rosto e... acabei! Já vi algumas fotos da chegada e nunca, nunca me vi tão feliz ao passar uma meta.

Soltei um grito, um sonoro "YES!" onde estavam contidas todas as emoções. Atirei tudo cá para fora. Vi quem estava lá, pensei em toda a gente que não estava mas que gostava de estar, em toda a gente que eu sabia que estava à espera de notícias. Continuei a correr e só parei quando me meteram a medalha na mão. É minha, é nossa!

Depois foi a descompressão, sacos de ofertas, imperiais que tão bem me souberam, garrafas de vinho também oferta. Fotos finais e festejos. Muitos abraços e mais palavras reconfortantes que me encheram o coração. Já só queria voltar ao hotel para tomar banho e partilhar o resultado com o mundo. Depois foi almoçar e fazer a viagem de regresso que ainda é longa e foi preenchida com muitas mensagens de parabéns. Agora é o voltar à normalidade do dia-a-dia e pensar na próxima, a Corrida de Santo António no próximo sábado à noite.

E porque há coisas que não vale a pena mudar, também este ano o Benfica deu uma alegria durante o regresso a casa. No ano passado foi o campeonato, este ano foi a Taça.
Estou exausto e feliz. Já devia ter ido dormir há 3 horas atrás.
Parecendo que não, terminei duas meias maratonas no mesmo dia. O ciclo está fechado.


Prova nº 63 - Meia Maratona Douro Vinhateiro 2017 - 21km - 01:57:16
Prova nº 36 - Meia Maratona Douro Vinhateiro 2016 - 21km - 378 dias, 2 horas e 4 minutos, mais coisa, menos coisa