sábado, 9 de março de 2019

Meia Maratona de Cascais 2019

Há imagens que valem por mil palavras, daí que o rescaldo desta prova se traduza nas fotografias que foram tiradas pelos inúmeros fotógrafos que nos continuam a brindar com o seu trabalho durante as corridas. Mas não são aquelas fotos que aparecem em destaque nas redes sociais, são as outras... aquelas que uma pessoa acaba por não partilhar porque não são assim tão apelativas para o público em geral e já se sabe que não vão render assim tantos "likes".


Prova nº 104 - Meia Maratona de Cascais 2019 - 21km - 01:59:12

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Maratona de Madrid - the story so far...

Tinha aqui um longo resumo do que aconteceu desde dia 4 de Agosto. O dia em que - meio a sério, meio a brincar - a ideia surgi. Um mês e meio depois, a 22 de Setembro, a coisa ficava oficial.

Apaguei o resto do texto. Deixo apenas a conclusão:

A dois meses (menos um dia) da prova, estou arrependido de me ter inscrito.
Aconteça o que acontecer daqui para a frente até - espero eu - cruzar a meta, estou arrependido.

Até breve. Bons treinos e boas provas!

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Corta-Mato de Santo António dos Cavaleiros

Falhei a presença no Corta-Mato do Catujal por motivos de doença, mas regressei às provas do troféu em Santo António dos Cavaleiros. A malta está mesmo a aderir em massa a estas provas e isso acaba por dar os seus frutos ao termos saído de lá com um 3º lugar individual e uma taça pela classificação por equipas. Não é esse o objectivo, só nos queremos divertir, mas se der para conciliar com uns resultados destes a brincadeira fica mais engraçada.

Ao contrário de Santa Iria, não chovia. Apesar disso a manhã tinha acordado muito tristonha, mas a prova final masculina já terminou debaixo de um sol radiante. Desta vez eram quatro voltas ao circuito que me pareceu menos exigente que aquele que eu tinha como base de comparação. Ou por isso, ou pelo facto de ter apanhado tempo seco fiz um tempo melhor que anteriormente. E pude ir perfeitamente com ténis de estrada. Uns ténis que, diga-se, apenas tinham 2 quilómetros feito em corrida, num treino realizado nessa semana e que culminou de forma precoce quando eu estava a fazer séries numa zona residencial numa estrada sem saída para a qual só vão os moradores e uma pessoa resolveu abrir a porta do carro à minha passagem, cravando-a de forma assertiva no meu joelho e no meu ombro. Foi bonito.

Continuando... 

A ansiedade é sempre grande com as provas dos mais pequenos, mas eles cumpriram o percurso na perfeição e com uma enorme vontade. Nestas idades o que importa é estar a plantar a semente para que esta paixão pela corrida possa crescer com eles e os resultados são mesmo o que menos interessa, mas no geral até foram agradáveis. Depois de correrem passaram o tempo todo a jogar à bola e se fosse preciso ainda tinham feito uma perninha nas nossas provas. Energia não lhes falta! 

Os graúdos iam vendo o percurso e eu e um colega aproveitámos a primeira volta da prova feminina para irmos atrás do grupo para fazermos também o reconhecimento e ver afinal que dificuldades é que teríamos pela frente. Foi porreiro e ajudou muito. Também foi fixe termos sido fortemente aplaudidos em ar de brincadeira por alguns amigos que estavam de fora e que nos desejaram boa sorte para ombrear com as atletas femininas. Até fomos apanhados pelos fotógrafos a fazer uma guarda de honra à menos rápida das nossas colegas de equipa. Terminámos a primeira volta junto dela e saímos do percurso. Fomos devagar, mas íamos ambos com a sweatshirt da equipa vestida e já estávamos ambos a ferver por dentro. Enquanto elas completavam as suas voltas, nós íamos fazendo fotografias e dando apoio do lado de fora. 

Quando chegou a nossa vez já sabíamos que haveria um pódio na equipa, cuja cerimónia decorreu durante a nossa prova, e ainda ficámos às portas de mais dois pódios. Curiosamente, não achei o percurso tão difícil como tinha achado naquela volta de reconhecimento. Prova disso foi ter terminado com um ritmo próximo dos 5:00m/km sem nunca ter sentido que ia a puxar muito. Andei quase sempre par a par com outro atleta de outro escalão que só me fugiu na última volta, mas também foi aí que consegui ultrapassar alguns outros que seguiam mesmo à minha frente e que terão quebrado. Acabei feliz da vida, como se quer em qualquer prova, tenha ela 4 ou 42 quilómetros.

O próximo corta-mato do troféu tem 5,5kms e dependendo do percurso poderá ser mais puxado que estes dois. Em princípio estarei presente na ressaca de um treino longo no dia anterior. Tenho que ver o que o plano me permite fazer, já que não me posso esquecer - como se os recentes eventos me permitissem fazer isso - que tenho a Maratona de Madrid para fazer daqui a dois meses.



Prova nº 103 - Troféu Corrida das Colectividades do Concelho de Loures - Corta-Mato de Santo António dos Cavaleiros - 4km - 00:20:10

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

O fim (?) do Fim da Europa

Há qualquer coisa nesta prova e no ar da serra de Sintra que me fez passar de um discurso de "ah e tal, vou lá uma vez só para marcar com um visto a prova do calendário" para "já cá vim 3 vezes seguidas e já estou ansioso pelo próximo ano!"

Escrevi isto no ano passado.
O ar da Serra de Sintra continua lá. Sinto que já conheço todos os pedaços de asfalto e de terra batida que fazem parte da prova. A subida inicial e a mítica aos 10kms já não me assustam. A chegada à Azóia e ver o Cabo da Roca e o mar lá ao fundo continuam a ser dos melhores momentos da prova. São momentos que vou guardar para sempre. Hei-de voltar ao Fim da Europa, mas não será para o ano. Nada contra a prova, atenção, apenas sinto que se fechou um ciclo de participação.

Inscrevi-me porque, mais uma vez, havia gente que lá queria ia pela primeira vez. Mesmo que depois cada um faça a sua prova, não resisti a estar presente e a apadrinhar as estreias. Fico contente por uma delas ter dito precisamente que só queria fazer a prova uma vez, mas no final já afirmou querer voltar em 2020.

Éramos muitos (tendo em conta que já passou um mês já não sei de cor quantos... uns 12 ou 13) elementos da equipa a participar e aproveitei o facto de ter uma amiga que mora próximo de Sintra para lhe pedir para nos levantar os dorsais. Correu mal. Não por ela, que fez tudo certinho, mas pela organização... e por minha culpa também. Ninguém percebia bem qual era o comprovativo de inscrição que era preciso levar. A organização também não esclarecia e só respondia que era o comprovativo ou o cartão de cidadão. O resultado foi que os comprovativos só começaram a chegar por e-mail - e em triplicado ou mais - na 6a feira ao fim da tarde. No meio de tanto rigor até nos deixaram levantar o kit de participação de uma colega que não iria participar na prova e que não me enviou nada para eu levantar o kit dela.

A cereja no topo do bolo foi no sábado ao fim da tarde quando um dos meus colegas preferiu vir cá a casa buscar o dorsal dele em vez de só o receber no dia da prova. Fui ao saco com os kits, tirei o dele e aproveitei para tirar o meu para ir preparando as minhas coisas também. E encontro o dorsal de uma pessoa que não sou eu, nem é nenhum dos meus colegas de equipa. Ao preparar o ficheiro com os nomes, números de dorsal, tamanho de t-shirt e etc para ela levantar cometi a proeza de trocar uns dígitos no meu dorsal. Quando ela foi levantar tudo, nem olharam para os documentos nem para os nomes. Viram o número de dorsais que ela tinha na lista e deram-lhe tudo. Liguei, em pânico, para o local onde estava a ser feita a entrega que ainda estava em funcionamento e disseram-me que teriam o meu dorsal - e todos os que não fossem levantados - num stand de secretariado junto à partida no domingo. Menos mal. No meio disto tudo prefiro ter-me enganado no meu próprio dorsal do que num dos restantes colegas e... a minha preocupação era com o atleta cujo dorsal eu tinha na mão e que, sem culpa, poderia não ter levantado o seu kit de participação. Chateia-me saber que basta uma pessoa chegar com uma lista feita manualmente com números de dorsais e poder levar todos sem stress sem que haja um controlo por parte de quem entrega. Eu sei que o erro no número foi meu, mas quem está do outro lado a entregar tem que detectar que algo está errado. E falo com conhecimento de causa porque eu já estive - e estarei novamente este ano - do outro lado a entregar dorsais.

Posto isto, passei quase todo o tempo em Sintra antes da partida junto do secretariado, também para resolver um erro numa das atletas femininas que aparecia num escalão masculino. O convívio pré-prova com o pessoal foi bastante curto, infelizmente. Resolveu-se tudo, pelo menos isso!

Já é hora da partida e já estava cansado. Lá fomos, ainda a tempo de umas fotos finais que é isso que fica para a história. Ao fim do primeiro quilómetro olhei pela primeira e única vez para o relógio ao longo de todo o percurso. Parei-o na meta, mas só olhei para ele novamente já na tenda da chegada enquanto me aquecia com um chá.

Ia ouvindo o constante bater dos ténis no chão e o arfar dos atletas ao longo dos primeiros quilómetros a serpentear serra acima. Uns mais audazes arriscavam mesmo trocar umas curtas palavras, sinal que iam a subir de forma mais tranquila. Tentei acompanhar os mais rápidos da equipa, mas sempre com um olho em quem vinha mais atrás. Acabei por ficar a meio, sem stress.

Agora seria a parte em que eu faria umas descrições da serra. Ela é linda e mágica, não há dúvida disso, mas sinto que não tenho nada para dizer que não tenha já dito nos anos anteriores. Dei por mim a olhar com bastante atenção para os restantes atletas, mais do que para a paisagem que me rodeava. Algumas caras e camisolas familiares, um constante rol de ultrapassagens entre todos ajudava a perceber quem estava mais confortável a subir e quem arriscava mais a descer. Eu, tal como a Suiça na Segunda Guerra Mundial, estava numa posição neutra. Soltava-me nas descidas, de facto, que em asfalto não me custa nada. Até o local onde os primeiros classificados das 10:15 me passaram foi o mesmo de sempre. Ao longe já tinha visto um colega de equipa, meu homónimo, e percebi que me estava a aproximar até que o ultrapassei desejando-lhe boa prova para o resto do percurso. E cada vez que passava alguém focava-me no atleta seguinte, que às vezes até era um que me tinha acabado de passar mas que tinha quebrado novamente.

Como habitual, havia pequenos grupos a treinar em Sintra e que iam apoiando de fora à nossa passagem. Numa dessas ocasiões ia sendo atropelado por uma bicicleta que vinha em contra-mão, junto ao início da tal mítica subida dos 10km que fiz sempre sem parar. Aliás, foi esse um dos meus objectivos, nunca parar! Consegui, inclusive na aproximação à meta que tem ali uma última subida enganadora.

Lembro-me bem de ter chegado lá acima e ter gritado que "Agora é sempre a desceeeeeeeeeeer!!!" True story! Acelerei por ali abaixo porque não me estava a sentir nada cansado. Percebi que isto de ir em modo neutro era bom para as pernas, mas que se notava no tempo final. Lembrei-me também que descer tanto também cansa portanto não me ia rebentar todo no primeiro quilómetro da descida. Tentei ir acompanhando alguns outros atletas, sobretudo aqueles que passavam por mim mais ao menos ao meu ritmo. A certa altura passou-me uma rapariga do Correr Lisboa que ficou ali à minha frente. Já tenho pacer até ao fim, pensei eu, meio hipnotizado pelo cabelo dela, apanhado num rabo de cavalo que oscilava para a direita e para a esquerda consoante o passo. Estava a impor um ritmo interessante e lá fui eu durante um bom bocado até ter perdido essa luta. Claramente que não posso competir contra atletas do escalão "menos de 25 anos e menos de 50 quilos". Aquela pequenita voou de uma forma imparável durante o resto e eu lá fiquei lado a lado com cotas da minha idade.

"Mete-te com alguém do teu tamanho" terá dito o meu cérebro quando despertou da hipnose. Ok, ok!

E lá fui. Entrada na Azóia para a parte da prova que mais gosto. Muita gente nas casinhas à beira da estrada. Alguns atletas que já terminaram a fazer o percurso de regresso até aos carros. O mar como cenário de fundo. O sentimento de dever cumprido porque ali o trabalho mais difícil está feito e é só desfrutar do final da prova. Muito vento, obviamente, mas isso faz parte.

Meta à vista, um colega de equipa à espera e outros dois que chegaram pouco atrás de mim. Vamos até à tenda aquecer e trocar de roupa enquanto aguardamos pelo resto da malta. Faz-se a festa, sobe-se ao pódio para uma foto de grupo da praxe e fazemos o caminho de regresso no autocarro. Um caminho que me pareceu interminável e mais longo que o habitual. A prova não me cansou, mas este ano a logística antes e depois deixou-me exausto.

Para o ano não volto, faço uma pausa sabática desta prova. Até sempre, Sintra! 

 


 
Prova nº 102 - Corrida Fim da Europa 2019 - 17km - 01:37:33

domingo, 10 de fevereiro de 2019

Corta-mato - ou Crossrun para parecer mais fino

Nota prévia: um mês e qualquer coisa é provavelmente o maior hiato de tempo que estive sem escrever aqui no blog. Coisas da vida, no fundo. Não gosto de estar tanto tempo ausente, mas também não gosto de tanta coisa que acontece. Enfim. The show must go on!


Esta época tem sido deplorável em termos de participação no Troféu das Localidades de Sintra, Cascais e Oeiras. Ou não tenho estado em condições de ir ou há outra prova no mesmo dia ou acontece "a vida" e não dá para marcar presença. Por outro lado, uma colega lançou o desafio de irmos ao Troféu das Colectividades do Concelho de Loures e, de repente, já éramos uns 25 inscritos. Talvez até já sejamos mais nesta altura. Nada mau!

A primeira prova foi este Crossrun Santa Iria da Azóia, uma prova de corta-mato onde nos lançámos de corpo e alma para dar o nosso melhor! E no corpo levámos com uma chuvada em cima, bem ao estilo de "prova molhada, prova abençoada"!

Conseguimos ter atletas na maioria dos escalões, incluindo os mais pequenos. Embora nem todos tenham participado nesta primeira prova, estarão presentes nas seguintes dentro das possibilidades. A participação da primeira mini-atleta até foi... tímida. Ela tem potencial, portanto esperemos que amadureça as ideias, sem nunca esquecer o fundamental que é divertir-se!

Enquanto a vimos correr iam chegando mais colegas, alguns mais prevenidos e munidos de chapéus de chuva que muito ajudaram. Eu mantinha-me com uma série de camadas de roupa para me proteger do frio e à medida que a chova piorava a vontade de dar meia volta e regressar a casa também aumentava. Ainda bem que tinha ido de boleia!

Vieram os escalões femininos e alguns bons resultados na classificação final, mas mais do que isso recebemos também algumas indicações importantes em relação ao percurso. E eu não sabia que duas voltas a um percurso de 2kms podia ter tanta coisa para dizer: "atenção naquela curva porque há imensa lama; lá ao fundo sente-se imenso o vento; naquela zona ainda levam com os ramos das árvores na cabeça; esta subida aqui é tramada"; etc... E no meio disto o sol também aparecia, de forma tímida, até que lá se decidiu a ficar a assistir à prova masculina.

Lá fui para a zona da partida completamente tranquilo. Fora da minha zona de conforto, mas também eram só 4kms. Dada a partida fiquei naturalmente para trás. A minha única ambição era mesmo não ser o último! E mesmo que fosse, paciência. Rapidamente perdi o contacto com os primeiros... e com os segundos... e... fiquei na cauda do grupo, sempre a controlar que tinha pelo menos mais dois ou três atletas atrás de mim. A partir deste momento fui nas calmas, sobretudo nas zonas com mais lama. Se, por um lado, o relógio ainda marcou ritmos de 4:00/km na parte mais rápida do percurso, por outro lado houve zonas em que andei a saltitar delicadamente por cima da lama.

Do lado de fora vinham muitas palavras de apoio, bem como outras que me confirmavam que isto não é mesmo a minha praia. Quando terminei estava visivelmente cansado, mas feliz da vida. Aquele pequeno carrossel de sobe e desce constante deu cabo de mim, mas também deixou exaustos os meus colegas, incluindo os mais habituados a fazer trails. Da minha parte, isto do corta-mato foi engraçado. Não é alcatrão, mas dá para correr depressa de forma constante; teve lama mas não é um trail com descidas loucas que me deixam arrepiado até à ponta dos cabelos dos pés!

Foi assim que saí da minha tal zona de conforto e gostei. Depois da tempestade veio a bonança que nos trouxe dois pódios individuais e uma boa classificação de equipa. Infelizmente já tive que falhar as duas provas seguintes do troféu: uma por ter marcado presença na Corrida Fim da Europa (o relato dessa prova já está escrito na minha cabeça, só falta passar para o papel) e a outra por doença. Seja como for, aquele início do ano marcado por problemas de asma parece estar ultrapassado!


Prova nº 101 - Troféu Corrida das Colectividades do Concelho de Loures - Crossrun Santa Iria da Azóia - 4km - 00:22:03

sábado, 5 de janeiro de 2019

Cem Silvestre de Lisboa

A minha centésima prova! E um trocadilho à maneira para celebrar, que tal?

Vocês sabem lá o que isto custou! As 100 provas? Não, conseguir que a centésima fosse a São Silvestre só para poder fazer este trocadilho! Foram meses de treino, caramba!

Não é habitual demorar tanto tempo para escrever o relato de uma prova. Aliás, se não fosse a minha actual debilidade respiratória que mencionei no post anterior, teria hoje feito em Marvila a prova 101. Fica para a semana, espero eu.

A São Silvestre de Lisboa tem sido nos últimos anos uma prova obrigatória, mas sempre para o convívio. Desta vez não foi diferente. Éramos 26 no total e, fruto disso, enquanto responsável pela equipa, fui contactado pela HMS e tivemos o privilégio de receber os nossos kits mais de uma semana antes de serem distribuídos aos atletas em geral. Quando fizemos o treino de Natal da equipa no dia 22 de Dezembro deu para entregar quase todos os kits ao pessoal. A única recomendação era não partilharmos fotos da camisola nas redes sociais antes do dia 27. Fica aqui um agradecimento à organização pela atitude pro-activa e por este gesto para as equipas mais representativas na prova.

O ponto de encontro antes da prova foi na Fábrica dos Pastéis de Nata. E no final também, para manter a tradição iniciada no ano passado. Foi por lá que começou a festa que durou bem mais que os 10km da prova. Fotos e fotos antes de rumarmos até aos respectivos blocos de partida e, antes disso, fiz um pequeno discurso de agradecimento a todos os que estavam ali e que contribuíram para eu chegar às 100. Muitos mais deveriam estar ali, muitos mais estiveram comigo neste percurso que começou de forma oficial a 7 de Junho de 2012 na Corrida de Santo António, mas que só se desenvolveu a sério a partir de 2015. Fica a curiosidade de ter completado esta marca praticamente no mesmo sítio onde comecei.

Em termos de prova, num mundo ideal seria o palco para eu fazer um brilharete do caraças e bater o meu record pessoal. Sabia que isso era irreal, mas ia tentar começar forte nos primeiros quilómetros e ver o que aquilo dava. Deu para três e percebi logo que até ia ser difícil honrar o dorsal sub-50 que tinha. Reparei agora que já não fazia provas de 10km desde Agosto, em Tagarro, e até essa já foi na reentrada pós-verão numa altura em que o foco já estava todo na Maratona.

Comecei bem, sim, mas sempre acima dos 4:45 que era o ritmo sonhado até chegar ao Terreiro do Paço para depois ter folga na subida. Ao fazer o retorno tirei da cabeça quaisquer ambições fantásticas e fui a curtir a prova e a ver quem tinha em redor. Algumas caras conhecidas, obviamente! (Aliás, antes e depois da prova eu tive bastante dificuldade em andar sem me cruzar com amigos. Gosto tanto quando assim é!)

Fui sempre próximo do mesmo grupo de atletas e reduzi o ritmo. A certa altura fui em conversa com algum pessoal e vejo, de forma inesperada, o Duarte que foi um dos meus companheiros de pódio em Novembro nos 5km da Luzia Dias. Percebi que ele estava a fazer a prova em ritmo de treino porque o objectivo dele era a São Silvestre da Amadora. Fomos na conversa largos quilómetros e foi bom para ir tranquilo, sobretudo ao passar o empedrado após o Cais do Sodré. 


Nessa zona - e pelo Rossio acima até à Avenida da Liberdade - muitos eram os espectadores do lado de fora da estrada a ver os atletas a passar. Como habitual pedi palmas e barulho. Uns quantos "Toca a bater palmas, Lisboa!" e outros gritos semelhantes foram retribuídos com alguns "Animo, venga!". Foi um bom treino para Madrid, claramente! Salvam-se as crianças, sempre prontas a esticar a mão a quem passa!

A ideia ali era subir sempre abaixo de 6:00, objectivo que foi cumprido quase na íntegra. O Duarte ainda estava por ali, agora na companhia de um colega de equipa. Ele estava a guardar-se para o quilómetro final. Eu também estava à espera desse momento para me soltar e tentar recuperar alguns segundos perdidos. Comecei a descer a todo o gás por ali abaixo, mas nunca consegui manter um ritmo elevado. Também já tinha olhado para o relógio e sabia que o tempo ia ficar longe dos 50 minutos, portanto a única ambição que me restava era fazer o meu melhor tempo na prova, algo que consegui por larga margem. Valha a verdade, sempre tive marcas muito dispares na São Silvestre. No ano passado, por exemplo, fui a acompanhar uma colega a ritmo de 6:00 até ao Marquês e depois deixei-a sozinha no último quilómetro e voltei para trás.

O sprint final permitiu-me, pelo menos, fazer abaixo do minuto 52 e fiquei tranquilo com esse tempo. Na meta tinha alguns colegas à espera, o que permitiu logo fazer uma série de fotos, até porque naquele momento foram chegando outros que vinham no meu encalce. Depois fomos para lados diferentes. Um dos meus colegas teve, infelizmente, que ir embora; outros foram até aos carros e novamente até ao ponto de encontro no final e eu... voltei para trás. Fui praticamente até ao Terreiro do Paço ter com um trio de colegas que estava a fazer a prova a "corrinhar".

Ficaram surpreendidas por me verem ali, uma delas até me perguntou onde é que eu tinha arranjado a maça que levava na mão porque não tinha percebido que eu já tinha acabado. Só acreditou mesmo quando lhe mostrei a medalha! Fomos em amena cavaqueira até ao final, com umas pausas para fotos pelo caminho. Nesta brincadeira, acabei por fazer mais 4,5km depois de terminar. E foram fantásticos! Lembrei-me imensas vezes da minha chegada à meta em 2017, em óptima companhia. Queria muito ter repetido esse momento em 2018, mas ficará para uma próxima oportunidade!




No final, ainda fomos a tempo de chegar aos pastéis de nata, embora outro grupo de amigos me tenha tentado desviar para a ginjinha. Para o ano vou a ambos os lados, pronto!

Ficou assim acabado mais um ano de corridas. Com a centésima no bolso! Estou muito orgulhoso e em breve farei um ligeiro resumo do que foram estas cem corridas. Em relação à São Silvestre de Lisboa, fica aqui o meu histórico de participação na prova.



Prova nº 100 - São Silvestre de Lisboa - 10km - 00:51:54

2019

Quase um mês depois, volto aqui a escrever.

Nestes dias aconteceu tanta coisa, a nível pessoal, profissional e, obviamente, no que diz respeito a corridas. Nem tudo foram coisas boas, mas isso é algo para o qual temos que estar preparados em todas as alturas da nossa vida. Fiquem tranquilos, do mau não vou falar. Apenas uma curta referência ao facto da minha mazela do trail de Alcanena ainda não estar debelada a 100%. A ferida ainda não sarou na totalidade e por vezes sinto um ligeiro desconforto e dor no joelho. Há-de passar.

Estive atento ao que foram escrevendo pela blogosfera fora, mas só hoje comentei algumas das coisas que fui lendo. Estou, novamente, actualizado nesse capítulo.

Desportivamente, tivemos um final de ano repleto de emoção, com um treino de Natal bem porreiro e com uma São Silvestre que, de acordo com muitos dos presentes, nada ficou a dever às oficiais. E o abastecimento no final, com bolo-rei quentinho em barda oferecido por uma pastelaria local foi a cereja no topo do bolo que ninguém esperava e que caiu que nem ginjas. Para além disso, usando a expressão anterior, também havia cerveja no topo do bolo(-rei). Foram 80 pessoas, números redondos. Para o ano quero 100! É um evento que muito me toca, confesso, mas que não seria possível sem a fantástica equipa que me acompanha nestas aventuras.

Para terminar o ano desportivo, outro momento muito aguardado: a São Silvestre de Lisboa que foi a minha centésima prova. Ainda não consegui escrever sobre o assunto, mas será para breve!

A todos os que estão por aí, votos de um fantástico ano, a todos os níveis!

Assim que me passar a preguiça volto a treinar. Raio do frio e, sobretudo, da humidade que voltou a despertar o asmático que há em mim. Há-de passar, também, que há muitas provas pela frente e algumas têm "Maratona" no nome!

"We will be victorious" ouço enquanto escrevia esta linha final. Soa-me bem!

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Vida de um corredor

E não, não estou a falar dos corredores dos supermercados.
Pronto, vamos substituir por "atleta amador". 

É uma vida muito repetitiva e previsível. Estamos sempre a fazer o mesmo. Todos. Vou meter uma lista de coisas que fiz durante a última semana, por exemplo. Vejam lá bem e metam a mão no ar se  também fizeram o mesmo que eu num ou em vários dos seguintes casos:

- passear pelos sites de lojas online para procurar por material desportivo em promoção
- fazer a inscrição numa maratona
- participar numa prova durante o fim de semana
- procurar por fotos dessa mesma prova
- dar likes, kudos, palmadinhas nas costas e afins ao ver as provas que os nossos amigos fizeram e partilharam

E pronto... é isto!

Pedras no meu caminho?

Guardo-as todas, um dia construo um castelo.

Ora, hoje saí de Alcanena com um pequeno estúdio! Por onde começar a falar do meu regresso a uma prova de trail? Talvez pelo que aconteceu na última que tinha feito: há três anos e meio atrás.
Na altura "...pisei mal uma pedra...". Hoje dei um pontapé numa que me pregou uma valente rasteira!

Quando há uns meses, numa viagem de regresso a casa vindo do trabalho, me inscrevi na prova não sei bem o que me passou pela cabeça. Terá sido o facto de só ter participado em trails cuja inscrição é gratuita? Não sei, lembrei-me disso agora mesmo enquanto escrevia.

Entretanto alguém da equipa reparou que o meu nome estava na lista de inscritos e a partir daí foi uma festa. O N. ia fazer um trail! Passei estas últimas semanas a dizer que a minha ida estava dependente do estado do tempo e se estivesse a chover eu cancelava a inscrição. Até recebemos um SMS da organização para os contactar em caso de desistência... Ai, a tentação! Só que esteve sempre sol nestes últimos dias. Ontem ainda apareceu novo dorsal para o GP Natal e eu ainda insinuei que ficava com ele, mas sofri logo bullying no sentido de qualquer outra pessoa poder aceitar o dorsal, menos eu. Malandros, pá!

(Aqui entre nós que ninguém nos ouve, sabem que o mais provável era eu fazer um belo record pessoal hoje em Lisboa? Isto não é arrogância, é um feeling dadas as minhas provas recentes. Se estou arrependido de não ter feito o GP Natal? Nada!)

Antes do meu trail propriamente dito, o sábado foi passado a seguir a prova de duas colegas - e outros amigos - no Epic Trail Azores. E que orgulho senti com a prestação das nossas duas guerreiras  nos 63km da prova! Que lição de força de vontade e querer! Que stress a ver as horas a passar sem haver notícias da chegada ao próximo PAC. E que festejo foi quando terminaram a prova! Perante isto, o que são 14km?

Com tudo preparado para o dia seguinte lá fui dormir umas poucas horas que passaram rapidamente. Às 7 da manhã já estávamos a começar a viagem que se fez com muito sono. Felizmente hoje não precisei de conduzir. À chegada já tínhamos os dorsais levantados por um colega que tinha passado o fim de semana naquela zona e entrámos no pavilhão para aliviar alguma carga, para tirar umas fotos e para aproveitar a oferta de pequeno-almoço com café quente e pastéis de nata. Não, pessoal, não há disto em provas de estrada...

De ténis de trail e mochila de hidratação às costas lá partimos. E o início foi fantástico, num alcatrão fofinho que me fez soltar um "adoro trails assim!" Valha a verdade, o meu trauma com os trails são as descidas e o facto de ter muito pouca técnica e jeito. Por isso é que tento só me aventurar nos trilhos que conheço aqui na zona. Fora isso é sempre muito porreiro ir no meio da natureza, obviamente!

Ao entrar no primeiro trilho apanhámos logo uma poça de água gigantesca. Vá, grande. "Ehhh, tudo a passar ao lado. Não queriam sujar os ténis não viessem para um trail! Meninos!" - gritou-se lá do fundo, na brincadeira. Ri-me e gostei de ter visto muitos "meninos" como eu a passar à volta em vez de meter o pé na poça. Sem ser isto, os primeiros 5km foram super corríveis, mesmo com alguma lama. Tudo tranquilo que nem se dava pela distância passar. A minha distracção era ver onde metia os pés ao mesmo tempo que ia vendo os ténis da atleta que ia à minha frente gradualmente a mudarem de "cor de rosa vivo" para "castanho lama" passando por todos os tons intermédios.

O ritmo baixou consideravelmente quando chegámos à grande subida que durou uns bons dois quilómetros. Usei-a para pensar em como seria a descida e para perceber se me estaria a sentir tranquilo caso tivesse que descer algo parecido do outro lado da serra. E parecia-me confortável, apesar de TODA A GENTE à minha volta estar a falar da perigosidade que eram as descidas lá à frente sobretudo com as pedras tão húmidas e escorregadias. Fónix, era tudo o que eu não queria ouvir. Íamos com o sol de frente, pelo que raramente tinha oportunidade de olhar em volta devidamente, mas quando conseguia espreitar a vista era verdadeiramente linda. 

A subida foi toda num single track e feita a caminhar. Curiosamente eu vinha a pensar que o meu maior receio era descer num single track onde fosse toda a gente atrás de mim a queixar-se da minha lentidão e inépcia para a coisa. Sim, medos reais causados por acontecimentos reais. De vez em quando alguém perguntava se havia interessados em ultrapassar e em correr e confesso que não me ralava nada porque ia algo irritado por ir sempre naquela pasmaceira. Mal por mal, eu subo de forma bastante razoável e sentia-me com força para isso. Paciência, só deu mesmo para passar lá no topo e atrás de mim vieram logo bastantes outros atletas que afinal também queriam correr. Menos de 500 metros depois chegava o abastecimento.

À medida que íamos subindo, a minha temperatura corporal ia descendo. Estava a ficar cheio de frio, mesmo estando sol e eu indo de manga comprida por baixo. Arrefeci demasiado e precisava de correr para aquecer novamente. Parei um ou dois minutos no abastecimento e aproveitei a boleia de um grupo de atletas para ir com eles a um ritmo agradável. Havia muitas pedras no chão mas dava para correr, até que uma das pedras me pregou uma rasteira.

"Vai com cuidado e não caias!" - era a recomendação que eu trazia. Assim que dei um pontapé na pedra e me senti a meio caminho do chão pensei logo que só ia ficar com uns arranhões que iriam passar despercebidos. Pensei uma asneira cabeluda quando, já sentado no chão, olhei para o joelho e vi que afinal era mais chato. Quem vinha à minha volta parou logo, ajudaram-me a limpar a ferida com água e um rapaz voltou atrás para ir chamar os bombeiros que estavam ali a pouco menos de 300 metros porque tínhamos acabado de sair do abastecimento. Muita gente que passou perguntou como é que eu estava e se precisava de ajuda. Só lhes pedia para não tropeçarem em mim e desviei-me ligeiramente do caminho. Estava no chão mas bem disposto, ora essa.

Foi quando começo a ver alguns dos colegas de equipa que vinham em prova atrás de mim. Entre eles estava a nossa enfermeira que rapidamente avaliou a situação e quando os bombeiros chegaram tomou ela conta da ocorrência. Outros colegas davam-me força e uma achou que era um momento que tinha que ser registado e tirou uma série de fotos, algumas até bastante explícitas que mostram como ficou maltratada a minha perna e do quão bem disposto eu me mantinha. No final, a pergunta dos bombeiros? "Mas você quer continuar?" Tentava eu começar a perguntar o que é que eles me recomendavam quando a nossa enfermeira respondia logo que obviamente que eu ia seguir e outra colega me ajudou a levantar. Seguimos viagem!

Ficámos cinco, mas rapidamente nos separámos e eu fui para a frente mas outra colega ia endiabrada e não a consegui apanhar. Decidi ter calma, deixei-me apanhar e como começou um trilho a descer disse que ia esperar por companhia para me ajudar. Assim foi. Desci devagar e devagarinho. Fomos a puxar uns pelos outros e eles preocupados em saber se eu estava bem. Estava.

De repente, uma surpresa: alcatrão! Oh pessoal, isto é a parte do trail que eu mais gosto! "Cala-te, não digas isso assim, pá!" Com receio que alguém do staff da prova viesse atrás de mim decidi zarpar por ali fora, abri os braços e voei o mais que pude a 3:40m/km. Abram alas que lá vou euuuuuu!

Durou pouco, assim que voltámos ao trilho havia uma série de descidas (algumas feitas de rabo...) e os meus colegas apanharam-me num instante. Era obviamente bom voltar a ter companhia nesta zona mais íngreme onde ainda vimos passar os primeiros classificados do trail longo. Descidas finais feitas, era altura de abrir a passada até ao final. Agradeci o apoio importantíssimo dos colegas, eles mandaram-me seguir até ao fim e assim fiz porque o terreno era à minha medida. Ia sozinho com atenção às fitas e só perto do final encontrei mais atletas. Um casal que tinha passado por mim quando estava no chão e que muito contentes ficaram por me ver acabar.

E acabei, perante a alegria das colegas que me tinham ajudado quando caí e o alívio dos colegas que iam à frente e só ficaram a saber do que tinha acontecido instantes antes quando elas chegaram. Pouco depois chegaram os colegas que me acompanharam nas descidas e lentamente fomos rumando aos banhos. A malta dos 25km e da caminhada haveria de chegar a conta-gotas entretanto e o grupo ia ficando reunido novamente e com apetite para o almoço. Não só o da organização, como também o picnic que tínhamos levado.

Curiosamente, tanto nos balneários como nas mesas, tive bastantes atletas a perguntarem-me como é que eu estava por me terem reconhecido da queda. Ainda fui à ambulância trocar o penso e a ligadura e esqueci-me deste azar durante o resto da tarde. O convívio com a malta foi super porreiro, como era de esperar. A todos agradeço a atenção e a força dada antes, durante e depois da prova.

Agora tenho aqui um penso para mudar e uma pomada antibiótica para colocar para ver se isto volta ao sítio e se não fica infectado. Em princípio não, mas todo o cuidado é pouco. A nossa enfermeira está com algum receio até porque hoje também tenho algumas dores que podem apenas ser do impacto recente como podem ser sinal de mais qualquer coisa. É ir cuidando com juízo.

No meio disto tudo, qual é o veredicto final? Garantidamente que não vou trocar o alcatrão pelo trilho, mas revejo totalmente a beleza de correr pelo meio do monte. Mantenho a minha falta de prática nos trilhos. Para mim se é para correr é sempre a olhar para a frente sem medo de onde estamos a meter os pés. Gostava de ter feito um trail limpo, sem quedas, para ficar com uma memória melhor disto, mas longe de mim estar arrependido de ter feito a prova. Levem-me para o mato de vez em quando (oops, isto não soou tão bem como devia) mas de preferência em zonas que me sejam familiares para eu me sentir mais tranquilo.

Ia dizer que se calhar para o ano faço outro trail, mas com o calendário que já tenho pela frente não sei se isso será uma realidade.

Agora vou ver se recupero. Temos uma série de eventos importantes na equipa nesta altura do ano antes de terminar 2018 com uma festa em grande na São Silvestre de Lisboa. 


Prova nº 99 - Alcanena Trail - Serras de Aire e Candeeiros 2018 - 14km - 02:10:00

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Em boa companhia

Uma pessoa combina há semanas ir treinar com outras pessoas muito especiais. Marca-se um treininho de recuperação da Meia Maratona dos Descobrimentos, escolhe-se o lugar, combina-se o ritmo e fica tudo apalavrado.

Depois chega-se ao dia e... não, ninguém desmarcou! O que aconteceu foi que o treino foi feito com uns Adidas Solar Boost nos pés. Pura coincidência, mas uma coincidência daquelas boas.



O treino em si foi tudo menos calmo como idealmente planeado. Houve séries e escadas e cenas que me fazem recordar que sou pouco atlético, pouco flexível e muito desengonçado. Ainda estou a pensar se os glúteos só vão doer amanhã ou se eu fiz tudo de forma tão incorrecta que nem sequer chegam a doer.

A companhia foi agradável como esperado. É sempre bom passar para a vida real quem nos acompanha virtualmente. Obrigado! E sim, isto dos ténis foi fixe mas foi apenas a cereja no topo do bolo!

Mas... falando dos ténis... fiquei  logo agradavelmente convencido quando me foi dito que os Solar Boost são os seguidores dos meus Energy Boost - os tais que estão a pedir reforma do topo dos seus 1000kms - portanto se eu me dou bem com uns iria adorar os outros. E assim foi, gostei mesmo deles! Veremos o que se segue... O Natal está mesmo aí, não é? 

Por outro lado tenho ali uns Joma StormViper II que ganhei e que ainda não saíram da embalagem e que estava a contar serem os meus companheiros em Madrid. Já que a marca é espanhola e tal, pode ser que ajude. 

Mas... Adidas...!


segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Maratona de Valência

Não, caros leitores, não fiz a Maratona de Valência. Participo em muitas provas, mas ainda não tenho o dom da omnipresença, pelo que não conseguiria estar nos Descobrimentos e em Valência ao mesmo tempo. Notem que eu digo que ainda não tenho... 

O que foi omnipresente na minha semana foi o acompanhar dos dias finais de preparação para a prova e de todas as sensações boas e não só que isso acarreta. As borboletas no estômago, as ansiedades, o querer que a prova comece e não querer que ela termine para se desfrutar do ambiente e da festa, mas ao mesmo tempo querer terminar e cruzar a meta.

Acompanhei, sobretudo, a preparação do João Lima que foi a Valência concluir ontem a sua décima, juntamente com o Vítor e a Isa que atingiram a mesma marca. E estava no sábado à tarde a trocar umas últimas mensagens de apoio com ele quando entrei no Instagram e vejo... isto:


Ali está o nome do João no mural de atletas inscritos para a prova. Mas... Espera lá... 
Pois é, quis o destino que eu estivesse também a acompanhar o Fábio Lima e há a coincidência, na qual eu nem tinha pensado antes, de ambos terem o mesmo apelido e ali terem estado lado a lado.

Depois terminaram a prova bem distantes, um ligeiramente abaixo das 3:30 e o outro um pouco acima das 4:50, mas ambos verdadeiramente felizes e com muitos motivos para se sentirem orgulhosos com o seu desempenho. É essa também a beleza da prova rainha!

Ao João, ao Fábio, à Isa e ao Vítor deixo aqui os meus sinceros votos de parabéns por terem completado mais uma Maratona e um agradecimento por serem os atletas e as pessoas que são que nos inspiram para continuar neste mundo. Acompanhem-nos também nas suas aventuras. Prometo que não se vão arrepender!


O regresso às origens - Descobrimentos 2018

"Tu já descobriste a tua fórmula para o sucesso: é não treinares durante a semana!"

Foram estas as palavras que eu ouvi quando disse, ao telefone, qual tinha sido o desfecho da Meia Maratona dos Descobrimentos. Na verdade, apesar de não andar desmotivado para correr, ando super preguiçoso. Depois de amanhã faz um mês desde a Maratona do Porto e desde então eu fiz três provas (Luzia Dias, Meia de Évora e a Meia dos Descobrimentos hoje) e UM treino! Um mísero treino que me correu super mal. Isto é algo que tem obrigatoriamente que mudar porque já não me vai ser possível colher mais frutos do trabalho feito pré-Maratona - e que, já agora, continuo a dizer que foi algo incompleto para o que queria originalmente.

Continuando... Corria o ano de 2014 quando uma certa e determinada pessoa me disse que estava na hora de fazer uma Meia Maratona. Eu disse logo que sim, sem ter bem noção daquilo em que me estava a meter. Fui e terminei feliz da vida com um tempo acima das 2:17. Voltei lá no ano seguinte para ir bater o meu record pessoal na distância. E em 2016, quando me sentia forte para repetir a dose, apanhei uma chuvada tal que foi o ponto de partida para uma prova que me correu mal. Em 2017 fui apoiar alguns colegas e fiquei na meta a fazer reportagem fotográfica. Em 2018 voltei ao lado de dentro da estrada. Nota-se que esta prova, também por ter sido àquela onde me estreei na distância, me é muito querida.

A tal falta de treinos, aliada a uma forte dor no peito do pé desde 5a feira deixavam-me apreensivo. Por outro lado, tinha-me sentido confortável em Évora apesar de ter perdido gás na parte final. Sabia que ia precisar de chegar à zona da partida para entrar no espírito da prova e ver como me sentia. E assim foi. Levantei quase todos os dorsais da equipa, combinámos as boleias e hoje de manhã lá estava, qual Pai Natal, a dar sacos de prendas aos colegas que comigo foram nesta aventura. Um pequeno aquecimento desde o carro até à zona do CCB, uma longa espera na fila para o WC e um aquecimento final a caminho da partida. Por falar em WC, desta vez funcionou tudo na perfeição assim que acordei, ao contrário da semana passada. Muitos atletas chegavam também em cima da hora, mas ainda houve tempo para umas fotos. Como fomos estacionar em sítios diferentes, acabámos por só fazer foto da grupo no final e, mesmo assim, ainda faltaram dois elementos.

Comecei bem, a tentar impor o ritmo que tinha planeado para esta prova. Estava muita gente mas dava para circular bem sem grandes problemas de trânsito e foi uma altura onde me cruzei com várias caras conhecidas. O normal, portanto, ao mesmo tempo que também piscava o olho a quem encontrava em sentido inverso na prova de 10km.

Dois quilómetros até Algés e dois quilómetros de regresso até à zona da partida. E sabem porque fui tão rápido no km4? Havia imensa gente a assistir e a aplaudir. Neste primeiro retorno deu logo para ver a Inês nos 10km e a Inês nos 21km, para além da maioria da malta da equipa. Fiquei contente que para mim os retornos são quase sempre passados a olhar para o outro lado da estrada. A partir daí atentem bem no meu ritmo certinho a 5:25m/km que se haveria de repetir ao longo de vários quilómetros. Foi um misto de ter metido na cabeça que era o ritmo a que queria terminar a prova com o facto de ter apanhado boas lebres involuntárias ao longo do percurso. Uma delas é a... Inês que corre por uma das várias equipas dos bancos do nosso país e outra era uma atleta com a camisola dos Évora Night Runners, mas cujo nome não sei, sendo que também não a encontro na classificação final. Deve chamar-se Inês, de certeza. Lá fui, fui, fui... E notei que, tal como na Luzia Dias, estava menos comunicativo. Poucas eram as vezes em que interagia com outros atletas, mas ia sempre atento a quem me rodeava. Queria mesmo manter-me naquele grupo de atletas que iam a um ritmo semelhante ao meu e estava a cumprir à risca os planos que trazia, não na manga, mas na mão. Sim, na mão.



Ora bem, o meu record na Meia vinha do Douro Vinhateiro em Maio deste ano com um tempo de 1:54:56, o que dava uma média de 5:27m/km. Assim sendo, na noite anterior tinha escrito na mão os parciais aos 5, 10 e 15km para um ritmo de 5:25m/km e a comparação com o record do Douro. "E foste escrever na palma da mão que é logo um sítio onde transpiramos muito?" - perguntou-me um colega quando lhe mostrei uma espécie de borrão que tinha no final da prova. De acordo com o meu padrão de aprendizagem, escrever é uma boa maneira que eu tenho de assimilar conhecimentos. Acima disso, sou uma pessoa muito visual, portanto as 50 vezes que olhei para a mão antes de ir dormir fizeram com que tivesse acordado sabendo de cor e salteado que tinha que passar com 27, 54 e 1:21 para estar com tempo de record pessoal. Para minha agradável surpresa, passei sempre abaixo do que tinha escrito. Yes! A motivação estava sempre em alta!

Tive receio do empedrado a partir da zona do Cais do Sodré até ao Terreiro do Paço. Achei que estava a perder velocidade, mas percebo agora ao ver no Strava que até aumentei um pouco ritmo nessa zona. Ia super focado e com muito cuidado para não pisar em falso. O gel já tinha sido tomado pelos 9km e se calhar tinha um efeito psicológico positivo, para além de ter cumprido a sua função original. 

Passo a passo, quilómetro a quilómetro, as pequenas metas iam sendo ultrapassadas. Agora o foco era rumar a Santa Apolónia para novo retorno. Ouço gritar o meu nome algumas vezes, grito um ou outro nome também mas o mais natural era esticar o braço para dar uns high-5 ou simplesmente para acenar ou levantar o polegar. Ora agora vamos para trás e dar um saltinho ao Rossio. Até tive suores frios por me lembrar que foi lá que a minha prova "terminou" em 2016. Desta vez tudo correu pelo melhor e o quilómetro 14 mostra isso. Incomodou-me que numa zona tão cheia de gente apenas 4 ou 5 pessoas tivessem reagido à nossa passagem mas como já estava à espera que assim fosse segui viagem de olhos postos na estrada, no relógio e no que faltava para terminar a prova. Ansiava pelos 15km para confirmar que continuava com alguns segundos de margem até ao final. E estava! Agora a luta era cada vez mais intensa com as pernas que estavam a sentir-se muito massacradas. Tenho cada vez mais a confirmação que foi a última prova feita pelos meus Adidas Energy Boost que estão à beirinha dos 1000km. Falarei disso num post em breve. A cabeça, essa, sabia o que queria, sabia ao que ia e tudo iria fazer para cumprir com o objectivo. Estou a cinco quilómetros de bater o meu record pessoal na Meia Maratona! Percebi que tinha perdido uns segundos no abastecimento - não por ter parado, mas porque estava a tentar apanhar um gel da prova que é igual ao que uso mas acabei por apanhar uma barrinha. Meti-a no flipbelt e tirei de lá o segundo gel que levava. Não consigo correr destas barras enquanto corro. 

E agora? Consigo aguentar-me até ao final? Tive dúvidas porque o relógio marcava sempre o mesmo. 5:25m/km... Estaria avariado ou eu tinha metido o piloto automático? O grupo que ia à minha volta era diferente mas igualmente certinho no ritmo. Éramos quase sempre os mesmos pelo que as minhas referências estavam bem identificadas. A única vez que ia perdendo a concentração foi quando me deixei apanhar por uma conversa mesmo atrás de mim em que um atleta motivava duas outras colegas e a conversa girava em torno do seu eterno desejo de fazer striptease de forma profissional ao mesmo tempo que a ___ (inserir um nome feminino, imagino que seria a sua mulher) gostava de aprender a dança do varão pelo que ele ainda lhe ia oferecer um voucher para umas aulas. Eu ri-me por dentro, mas não por fora porque o oxigénio tinha que ser bem gerido.

Foi aqui que passou por mim o Fernando Andrade que eu tentei acompanhar durante umas centenas de metros mas não mais que isso. Ele "deixou-me" junto a um casal onde ele dizia à mulher que ela estava novamente com aquela respiração orgásmica que não era apropriada para correr portanto ela tinha que a controlar. Oh pá, não me façam rir! Mas obrigado pela distração, com isto tudo o ritmo continua igual. Já contaram o número de quilómetros feitos a 5:25m/km?

Eu já só pensava em chegar ao vigésimo quilómetro e ele aproximava-se a passos largos e decididos. Passando nessa marca com cerca de 1:48 era o ataque final à meta. Não me surpreende que o último quilómetro tenha sido o mais rápido. Lembrei-me de tanta coisa. Das lágrimas de alegria em 2014, do record em 2015, do sofrimento em 2016. E embalei pela Praça do Império até ao fim! Não havia cá dores de pernas nem as dores no pé durante a semana. Havia um querer enorme em bater o meu melhor tempo e, eventualmente, baixar para o minuto 53. Ali sim, num último ímpeto era o local ideal para puxar pelo público. Ainda vi os meus colegas de equipa que já tinham terminado. Na realidade, o grupo que foi é muito forte e só um terminou atrás de mim. Descobri entretanto que, tal como a atleta dos Évora Night Runners foi a fazer de minha lebre, também eu fui a lebre deste meu colega que me foi a seguir até aos 12km, altura em que não conseguiu aguentar o andamento. Agradeceu-me imenso no final porque conseguiu bater o seu record pessoal com a minha ajuda involuntária. Porreiro!

A passagem pela meta foi rápida. Lembro-me vagamente de festejar mas nem sei como. Fiz pose para o fotógrafo da praxe que lá estava e encostei-me ao gradeamento. Feliz, muito feliz. O tempo do cronómetro e o tempo do relógio confirmavam claramente o record pessoal, mas não me garantiam se tinha descido ao minuto 53. Seria à justa.

O reencontro com os colegas foi excelente. Quase todos levavam recordes pessoais para casa, podíamos ir festejar após o regresso e assim fizemos. O brinde foi com minis, mas o sucesso foi da Meia!

Foi a quarta vez que marquei presença na prova e o meu histórico é este:









Foi também a terceira vez - uma delas obviamente na estreia - que bati um record pessoal aqui! Só não o consegui em 2016. Hoje foi a minha 22ª Meia Maratona. Esqueci-me por completo de mencionar a efeméride dos vinte e um 21kms em Évora.

O último mês e meio tem sido um fartote de coisas boas: record em provas de 20km, record na Maratona, uma experiência num pódio de escalão em 5km e record da Meia Maratona. Agora era giro bater o record dos 10km no fecho do ano numa prova pouco propícia a isso como a São Silvestre de Lisboa. Tentar não custa e sonhar não paga imposto!

O resto do dia ficou marcado pelo rescaldo desta prova mas também pelo saber de notícias vindas de terras de nuestros hermanos! Sobre isso também falo noutro texto.

Já sabem... para a semana estou inscrito num trail em Alcanena. Wish me luck...! 
 

Prova nº 98 - Meia Maratona dos Descobrimentos 2018 - 21km - 01:54:02

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Correr e comer...

... são duas palavras que se escrevem quase da mesma maneira. Acredito que não seja coincidência!
 
Nesse sentido, Évora é um local perfeito para se fazerem ambas! Não foi, portanto, surpresa que eu tenha ido fazer a Meia Maratona pelo quarto ano consecutivo, mantendo-me como totalista na prova. Em itálico, porque descobri recentemente que num dos anos fiz a prova com o dorsal de um colega de equipa que não pôde comparecer. Já nem me lembrava disso e foi um ligeiro balde de água fria. Sou totalista de forma oficiosa, mas por causa disto nunca serei de forma oficial. Fica aqui também a nota para juntar à discussão sobre participar em provas com dorsal alheio.

Confesso que, apesar de tudo, não estava com muita vontade em ir. Nenhuma razão em particular, circunstâncias da vida, talvez. Ou apenas parvoíce porque quando o despertador tocou às 6:00 não precisei de muito para saltar da cama e às 7:00 conforme combinado já estava o grupo todo reunido para arrancarmos. A viagem fez-se de forma tranquila e com chuva ligeira - o regresso foi com um temporal, mas não tão violento como o que apanhámos depois do Porto - que ainda caia quando chegámos ao estacionamento habitual. Os dorsais foram levantados de forma rápida e ficámos com bastante tempo para queimar que foi passado em amena cavaqueira num dos cafés próximos da partida. Cafézinho tomado, idas ao wc, tudo em ordem. Quase, porque da minha parte não ficou o serviço feito na totalidade, o que se veio a revelar muito incómodo a certa altura da prova.
 
Foi no café que percebi que a nossa enfermeira de serviço afinal não ia fazer a Meia Maratona, mas sim os 10km. Isso significava que desta vez eu seria o único elemento a fazer os 21km, dois fariam os 10km e o grosso do grupo estava presente na caminhada. Isso dava-me alguma pressão extra e azo a promessas de que se eu demorasse muito a terminar a malta ia pegar nos carros para irem andando para o restaurante e eu teria que ir a correr até lá. 'Tá bem... Também gosto muito de vocês!

Regresso aos carros para terminar de equipar, escolher os casacos certos para a chuva (que iria desaparecer antes do início da prova), tirar umas últimas fotos e lá fomos até aos pórticos de partida. E aqui tenho que fazer um comentário de algo que me incomodou e que parece ser cada vez mais habitual em provas. O speaker estava bastante animado e ia dando os agradecimentos finais nesta que foi a última prova do ano do circuito Running Wonders. Até aqui, tudo bem. Mas no momento em que disse que estavam presentes 6000 pessoas eu achei completamente descabido. Já vi que terminaram a Meia 604 atletas e os 10km 703 atletas. Aqui estão 1507 e garantidamente que não havia 4500 pessoas na caminhada. Também duvido muito que estivessem 6000 inscritos e que para aí metade não tenham aparecido. Este exagerar do número de participantes nas provas chateia-me. Desabafo feito.

Vamos é correr antes que chova! Os primeiros quilómetros no centro de Évora são complicados. As ruas estreitas, muita curva e contra-curva, empedrado, mais empedrado, sobe e desce. Um Urban Trail, ouvi eu de outro atleta. Senti foi menos atropelos e, mais importante, sentia-me bem pelo que fui andando a um ritmo agradável, mesmo quando se começa a subir pelo zona exterior das muralhas. Até achei que estava a ir demasiado depressa. Não sabia eu o furacão que aí vinha após o quarto quilómetro. Estou eu tranquilo nos meus pensamentos e a começar a ver que a malta da caminhada estava a começar a aparecer em sentido contrário quando alguém me dá o braço e me puxa. Era uma amiga, aquela que há uns tempos me chamou estúpido por ter desistido no Douro Vinhateiro naquela altura fatídica da minha vida. E fomos na conversa durante largos quilómetros, apenas interrompidos pelo facto de ter conseguido ver o nosso grupo de caminhada e termos feito uma grande festa!   
Ora, esta amiga é uma máquina. Daquelas que em dia sim faz tempos do caraças, mas que hoje me disse que ia mais tranquila porque estava toda lixada (mensagem original censurada) por causa do treino muito rápido feito ontem. Disse-me que ia comigo porque eu ia a um ritmo agradável. 5:30m/km, boa? Pronto, já tenho companhia, mas se ela acelera dá cabo de mim. E como se pode ver, os quilómetros seguintes foram bem rápidos. Íamos na conversa, em amena cavaqueira sobre provas, dilemas entre trail e estrada, a menos motivação dela para a estrada por sentir que está a perder velocidade portanto com mais vontade de dar prioridade ao trail. E eu confirmei que sentia que estava com dificuldades em reduzir o tempo aos 10km, mas que quem me tira o alcatrão tira-me tudo, portanto tenho-me sentido mais confortável nas provas mais longas. E fomos, e fomos, conversámos imenso e os quilómetros iam passando. Novamente no ritmo ideal, até porque a estrada inclinava um pouco para cima. Apanhámos novamente a malta da caminhada, desviei-me da estrada para me fazer à foto em modo aviador, de braços bem abertos e sorriso rasgado. Ela percebeu que aqueles breves momentos significavam uma motivação extra e continuou sempre a puxar por mim para nos mantermos juntos. Ela disse que nunca fez uma Meia acima das duas horas, eu respondi que queria tentar fazer Évora abaixo das duas horas pela primeira vez. Vamos ajudar-nos mutuamente! Assim fomos até meio da prova. Nessa altura ela já ia uns metros à minha frente e dois atletas tinham metido conversa com ela sobretudo quando ela gritou o meu nome e eu prontamente respondi a confirmar que estava perto. Ainda tentei puxar por mim, mas aos chegar ao abastecimento dos 10km ela já estava a ficar mais longe e ir atrás dela era escusado. Máquina é máquina! Via novamente no final onde demos um enorme abraço e ela me pediu desculpa por não ter esperado por mim. Qual desculpa, qual quê? Obrigado e mantém-te sempre assim, porque quando se tem bom coração a cor da camisola que representamos é irrelevante.
Parei uns segundos no abastecimento para beber isotónico. Tenho que tentar parar com esta mania, mas beber naqueles copos em andamento é virtualmente impossível
 

Baterias carregadas e um tempo de uma hora certinha aos 11 quilómetros, altura em que tomei um gel. Só preciso de fazer uma hora nos restantes 10km e a coisa fica feita. Tentei manter o ritmo anterior e até acelerei um pouco quando encontrei um atleta de Leião e meti conversa com ele. Estiquei-me um bocado e tive que abrandar, mas foi pena porque ir a falar com alguém estava a fazer-me bem. Nesta zona mais afastada da cidade sabia que íamos fazer uma espécie de quadrado. Mais um menos dois quilómetros e viramos à esquerda, a mesma coisa a seguir e novamente e repete outra vez até fechar os quatro lados, pelo que o meu objectivo era sempre chegar à próxima viragem à esquerda. Infelizmente tive mesmo que voltar a parar no abastecimento seguinte, aos 15km. Foi aqui que comecei a sentir o peso e o desconforto de não ter feito tudo o que devia no wc antes da prova.
Respirei fundo e tentei abstrair-me disso. Ia mais devagar que antes, mas mesmo assim a um ritmo controlado que me permitia gerir o tempo que tinha ganho até ali. Infelizmente não foi possível continuar assim até final. O quilómetro 19, onde havia um último abastecimento, foi mais complicado e tive mesmo que caminhar um pouco. Foi aqui que o objectivo de tempo para a prova se esfumou. Ainda tentei ganhar um ânimo final ao reentrar em Évora, mas aí foi o empedrado que me tirou as esperanças finais. Caraças que ao fim de quatro anos aquilo continua a custar. Nesta fase já me tinha cruzado algumas vezes com um atleta em que ou passava ele ou passava eu e antes da placa dos 20km ele pergunta-me se agora vamos a correr até ao fim. Disse-lhe que sim, só que não. Paciência, as pernas já não davam para muito mais. 

Engane-se quem pensa que eu estava desanimado com este rombo final no ritmo. Ainda deu para uma animada troca de palavras com um elemento da organização e para lhe dizer que a subida até ao Giraldo continua demasiado íngreme e com muito empedrado. Ficou a promessa de resolverem a situação para o ano. Deixe estar, se não tratarem disso eu venho cá na mesma comer sopa de cação.

E pronto, agora é só virar à esquerda para aqueles 500 metros finais até à meta que parecem ter 10 quilómetros. Um dos meus colegas veio ter comigo para um apoio final. O resto da malta está ali em cima, à direita. E a corda? Onde é que está a corda para me puxar? De alguma forma lá consegui subir aquela montanha até passar a meta com um ar de pura alegria. Nem percebi bem o tempo, mas pouco interessava. Vamos é almoçar, pá!

Fotos finais, abraços finais e muitos sorrisos. Mais uma prova feita e as dificuldades dos últimos quilómetros já estavam esquecidas. Enquanto descíamos para o estacionamento já ia todo contente a dar força a quem ainda acabava a prova. O sorriso transformou-se em ligeira preocupação quando me de uma valente câimbra quando estava a alongar. Nunca me tinha acontecido de forma tão intensa! Felizmente quem tem uma enfermeira como a nossa, tem tudo. E ela tinha uma ampola de magnésio que, por acaso, não tinha tomado antes da prova e deu-me para ajudar. E ajudou.
 
Vamos almoçar! E fomos, apesar da dificuldade em dar com o caminho certo tal era a quantidade de estradas ainda cortadas. O almoço demorou praticamente tanto tempo como a minha prova e devo ter recuperado todas as calorias que perdi. Oh meus amigos, come-se tão bem no Alentejo. E bebe-se igualmente bem. Deve haver por aí fotos, algumas até passíveis de causar algum embaraço. Felizmente eu faço sempre questão de reservar o lugar do pendura nos regressos pós-prova.

Não fiz abaixo das duas horas. Não melhorei o meu tempo em Évora por 21 segundos.
Chateado? Nada disso! Corri, comi e diverti-me. Enquanto for assim está tudo bem.
Venha a próxima, a Meia Maratona dos Descobrimentos.
 
 
Prova nº 97 - Meia Maratona de Évora 2018 - 21km - 02:02:31

sábado, 24 de novembro de 2018

Oh pá...!

Na mesma noite, quase ao mesmo tempo, fico a saber que:
 
- vamos mesmo ter companhia para a aventura em Madrid. Havia muitos comentários a mostrar interesse, mas agora já há mesmo confirmações e há cada vez mais gente na calha para se juntar. Para quem guardou segredo da inscrição durante um mês e meio e estava a planear apenas revelar a notícia na véspera da prova, agora estou muito contente por saber que não estarei sozinho. Vamos a isso, malta!
 
- há outra grande amiga minha que está a preparar-se para fazer a Maratona do Porto em 2019. Em dois dias consecutivos duas enormes amigas deste mundo partilham esta notícia comigo. Caramba, querem matar-me do coração? Fazem-me isto no ano em que eu não estou a pensar em ir ao Porto? Está-se mesmo a ver que tenho que repensar os planos...

domingo, 18 de novembro de 2018

Pódio

Começar o texto logo com este título estraga um bocado o suspense, não é? Mas, mais uma vez, a coisa já se soltou por essas redes sociais fora, portanto...

Andei um ano com esta prova secretamente debaixo de olho, depois de no ano passado ter visto as classificações e a vitória do meu amigo Zatopek no seu (e meu) escalão. Olhei, olhei, vi os resultados no geral e meti na cabeça que ia tentar uma brincadeira em 2018. Ele nem sequer está em Portugal, portanto... A certa altura o meu maior receio era que a prova coincidisse com a Maratona do Porto, mas rapidamente percebi que não havia esse risco. Passei, portanto, um ano a pensar nisto quase tanto como pensava no Porto.

Ah e tal, o gajo é modesto e diz que gosta de correr porque é fixe e pelo convívio e mais-não-sei-o-quê, mas afinal é fanático por isto das medalhas e não dizia nada a ninguém. Ora bem, antes de hoje, em 95 provas eu apenas tinha ficado na primeira metade da classificação em 24 delas. E em provas de 10km de média dimensão fiquei duas vezes dentro dos primeiros 200 classificados. Bem bom. Isso e um terceiro lugar - por erro da organização - numa das edições da extinta MEO Urban Trail. Nunca na vida irei ganhar nada mais sério, portanto no dia em que percebi um pequeno vislumbre de poder fazer uma gracinha, tentei. Garantidamente que para o ano isso já não acontece.

A única vez que falei na prova foi quando um colega de equipa se tentou inscrever e eu lá estava como responsável pela equipa porque já o tinha feito antes. E mesmo assim, nem lhe disse que "só" ia fazer os 5km. Comentei isso mais tarde, mas sem fazer grande alarido. Ele também nem achou estranho eu optar pela prova curta num evento que tem prova de 10km, mas como o percurso não é sequer muito plano e eu vinha da Maratona... Hoje, depois de aquecermos, ele e o resto dos amigos que foram connosco seguiram para o pórtico da partida dos 10km e eu pedi para fazer a foto de grupo naquele momento porque ia para o pórtico dos 5km que era noutra rua. Todos acharam estranho, perguntaram se eu estava bem, se estava lesionado, se eu estava a brincar, se... se... 

"Não, venho da Maratona e tenho duas Meias de seguida, hoje venho só para relaxar um pouco. Fiquem tranquilos."

Na partida confirmei que estava pouca gente. Tentei ler os rostos, o físico e os dorsais de quem por ali estava para perceber se teria muita gente do escalão. Já tinha encontrado vários amigos antes da prova, um dos quais "subiu" este ano para o meu escalão e também ia para os 5km. Pronto, ele faz 40' aos 10km, portanto...  Tentava também esquecer o péssimo treino que fiz na 5a feira com a equipa. Respiração não acalmava, pernas não reagiam, cabeça não funcionava. Aproveitei a "desculpa" de ficar com o grupo mais lento para conseguir sentir-me minimamente útil naquele dia e num treino de 10km só ao fim do sexto é que a coisa lá estabilizou. Enfim, não foi uma semana fácil, portanto...

Hoje a ideia era simples: correr o mais depressa possível, aguentar-me nas subidas e voar nas descidas. A chuva parou antes da prova, havia apenas que tentar evitar as imensas poças de água no chão. Relógio pronto e, de repente, deu-se a partida. O speaker estava mais próximo do pórtico dos 10km e na nossa zona, numa rua uns 300 metros mais à frente, não se ouvia nada. Não sei se ter aquecido ajudou, mas o que é certo é que disparei rápido e, sendo poucos, longe de atropelos. Obviamente que os verdadeiros craques voaram bem mais depressa atrás do carro-relógio e eu foquei-me em seguir a Luzia Dias, anfitriã do evento, que no ano passado tinha feito 24 minutos. Hoje fez abaixo dos 22, daí que a meio da prova eu tenha deixado de a ver por perto.

As partidas em separado foram, disseram-me, uma novidade em relação aos anos anteriores. Isto fez com que ainda antes do primeiro quilómetro estivesse a malta dos 10 a passar por nós. Ou, pelo menos, pelos não-tão-rápidos, tipo eu. O que foi porreiro para mim foi que tanto a minha malta, como outras caras conhecidas me iam desejando força quando me ultrapassavam. Eu agradecia e naqueles breves metros tentava ir na peugada deles, algo que só consegui fazer mais ou menos na altura em que deixei de ver a Luzia. Foi bom porque foquei precisamente no meu colega de equipa que ao passar por mim me disse que era só mais esta subida dura e depois era tranquilo.

Devo ter olhado umas duas ou três vezes para o relógio. Independentemente do que ele dissesse, a única opção era ser rápido e manter o ritmo até à meta. Naquela altura já era quase impossível perceber quem estava para os 5 ou para os 10. Como a partida tinha sido quase inesperada e este relógio tem uma contagem decrescente (que me irrita um pouco e não dá para tirar) quando se inicia um treino, só começou a contar uns 50 metros após o início e como não havia placas de distância não valia a pena fazer grandes contas.

Ia conseguindo visualizar na estrada aquilo que tinha visto no mapa em relação ao percurso e quando percebi que estava perto de entrar no último quilómetro ouço uma voz conhecida. Mais um amigo (e conterrâneo) que vinha para os 10km e se colou a mim. Houve aquele momento sempre estranho, como acontece quando, por exemplo, nos despedimos de alguém à saída do escritório e depois vamos ambos para o mesmo lado. Ambos desejámos bom resto de prova um ao outro. Dissemos até já. Ele diz-me que a minha está quase a terminar e... vamos lado a lado o resto do tempo. Só na separação para a minha meta é que deixámos de ir juntos. Foi porreiro para ter ali companhia para a parte final.

Desvio para a meta e está feito. Abaixo dos 24 minutos, vejo por alto. Ok, nem sequer é o meu melhor tempo aos 5km, mas o percurso é sinuoso e os outros dois registos que tenho de prova são em provas que foram maioritariamente planas e/ou a descer. O speaker vai dando força a quem chega e diz que já há resultados online em tempo real no site. Não tenho telemóvel comigo, ficou no carro. Não tenho as chaves do carro. Eu espero. Encontro o vencedor da prova - outro amigo - e fico à conversa com ele. Começo a dar umas voltas à zona da chegada em ritmo de descompressão enquanto espero pelo resto da malta, até que vejo outro amigo que me diz que falhei o pódio por um segundo. Fosga-se, para não dizer pior. Foi o atleta que chegou à minha frente. Paciência, tento novamente para o ano.

Vai chegando a malta dos 10km, uns mais rebentados que outros e vamos até aos carros para mudar de roupa enquanto esperamos pelas cerimónias do pódio. Encontro o tal rapaz que agora me faz concorrência de escalão e ficamos imenso tempo à conversa sobre esta e outras provas. Conhecemo-nos há uns dois anos na B2Run porque ambos ganhámos um passatempo para ir correr pela equipa da Rádio Comercial e ficámos amigos deste então. Coisas boas disto do running e tal. Ele até me pediu desculpa por me ter "tirado" um lugar no pódio.

Regressamos à zona da chegada, eu já com o telemóvel na mão a ver as restantes classificações. Temos mais dois elementos às portas do pódio na prova de 10km: um 6º e um 7º. Bom esforço malta. Até que chamam o meu nome! O quê? Estava mesmo ao lado do organizador do evento que ia chamando os atletas e pergunto-lhe se chamou o meu nome. Confirma. Mas no site não estou no top-3, digo-lhe. Mas essas são classificações provisórias, as que eu tenho são certas, portanto...

Subi ao pódio com um ar quase incrédulo, mas muito bem acompanhado. Só quando fomos mudar de roupa aos carros é que tinha confessado ao pessoal a minha secreta esperança e o meu objectivo escondido por trás de uma inscrição para fazer "apenas" 5km. Malandro, dizem-me! 

E pronto. Adorei estar lá em cima. Foram 30 segundos, talvez um pouco mais. A mim pareceram-me passar demasiado depressa, mas tentei aproveitá-los ao máximo porque tão depressa - ou nunca mais - não tenho esta oportunidade. Fotos e mais fotos. Consegui, venho com o pescoço um pouco mais dorido que o habitual por causa do esforço extra, mas esta medalha já ninguém me tira!



Melhor ainda a seguir. Afinal aquele 6º de escalão também era 3º. O 7º é que era mesmo 7º.
Regresso a casa e pronto. Nada mais há a fazer.

Como já aqui disse antes: hoje foi bom, mas amanhã começa tudo de novo.



Prova nº 96 - Corrida Luzia Dias 2018 - 5km - 00:23:38

sábado, 10 de novembro de 2018

2019

Está cumprida uma comprida semana de descanso pós-Maratona. Ok, ainda não voltei a correr, portanto até isso acontecer ainda estou em fase de ressaca. Mas uma ressaca boa, desta vez, ao contrário dos outros anos em que toda a bolha de excitação da Maratona rebentou numa onda de cansaço, preguiça e, acima de tudo, uma sensação de vazio pós-prova. Este ano não, este ano ainda tenho objectivos nas provas que me faltam fazer. Um deles é fazer a prova de trail na qual estou inscrito e lutar contra a vontade de me baldar na véspera se estiver a chover copiosamente. Adiante...!

2019 está já ao virar da esquina e já estou inscrito em três provas, para além de ter também renovado a inscrição no troféu das localidades cujo calendário para Oeiras começa ainda este ano. Até ao fim de Abril o meu, supostamente famoso, Excel está assim:



Ainda faltam algumas provas ali pelo meio cujas datas não estão confirmadas. A Scalabis, por exemplo, que deve ser no fim de semana antes de Madrid e na qual gostava de continuar a marcar presença. Para o resto do ano há ideias, há planos, algumas incertezas mas, sobretudo, muito tempo para decidir o que fazer.

Para a semana há nova prova, portanto agora é voltar aos treinos. Hoje não. Amanhã também não. 2a feira, ok?


segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Maratona do Porto 2018

Concluí ontem no Porto a minha terceira Maratona, mas fui menos feliz que no ano passado. Seis minutos e quarenta e um segundos menos feliz, para ser mais preciso, pois foi esse o tempo que tirei ao meu record que trazia de 2017! Nem vale muito a pena guardar suspense até ao fim, tendo em conta que já tinha partilhado o resultado nas minhas restantes redes sociais. E mesmo que não o tivesse feito, no domingo quando a malta se sentou para almoçar e eu tive finalmente disponibilidade para ligar o wi-fi no telemóvel já tinha recebido duas mensagens de parabéns pelo record! Obrigado por isso! Quem corre sabe bem a importância do apoio que vem de fora, mas vocês não têm noção do quanto isso me ajudou ontem a chegar ao fim. Obrigado, 42,195kms de obrigados!

Seis minutos e quarenta e um segundos menos feliz? Claro, quanto mais tempo corro mais feliz fico!

A aventura para o Porto começou praticamente na altura em que tinha terminado a Maratona do ano passado. Já sabia que iria voltar e aproveitei a típica promoção de fim de ano para fazer a inscrição, mesmo que o preço fosse um pouco superior e que a pasta party tivesse sido à parte em vez de estar incluída. Sabia também que iria comigo à prova um grande amigo e colega de equipa, pelo que o fim de semana iria ser em excelente companhia e com muito apoio das respectivas famílias do lado de fora do gradeamento!

Ultrapassando algumas questões logísticas inesperados com o hotel - este ano foi tudo muito estranho - lá chegámos à Alfândega para levantar os dorsais, beber daquele espírito e acabar com o reforço de hidratos de carbono. Foi também aí que comecei a ver muitas caras conhecidas o que ajuda sempre. Aliás, a primeira cara conhecida que vi até foi o João Lima na estação de serviço da Mealhada. 


Muita brincadeira e boa disposição, muita ansiedade e lá fomos até Matosinhos fazer o check-in, relaxar um pouco, jantar e dar um curto passeio antes de regressar à base para preparar tudo para as emoções do dia seguinte. Eu não dispensei a tradicional foto nocturna à Anémona.



A minha preocupação era sobretudo uma: a que horas ia começar a chover? Isso ia fazer toda a diferença! Fazer 10km à chuva é bem diferente de fazer 42. As previsões iniciais diziam que só chovia a partir do meio-dia, depois a actualização dizia ser a partir das 9h e eventualmente a partir das 7h. Já sabia que não ia escapar a uma boa molha.

A manhã acordou sem chuva, mas ela apareceu durante o pequeno-almoço. Já agora, o hotel que é pequeno estava carregado de atletas como nunca vi nos últimos anos! Fomos os últimos a sair, mas ainda a tempo da prova. Tínhamos marcado foto de equipa às 8:30 com a restante malta presente, mas à hora que chegámos não estava lá ninguém portanto tirámos nós e acabámos por nos cruzar com o restante pessoal durante os retornos da prova. E lá fomos, uma dupla da maratonistas, a nossa ET na Family Race e o resto da falange de apoio na caminhada, mas a fazer uma maratona por fora e a dar high-5 sempre que possível a quem passava enquanto esperavam por nós.

O plano que tínhamos era mais ou menos simples e ia adaptar-se ao longo dos quilómetros. O meu colega, Gajo da ET, é um gajo com pouco juízo no que diz respeito a gerir esforço portanto estipulou que se ia agarrar a mim até meio da prova e depois logo se via como se iria sentir para a segunda metade. Eu agradeci a companhia - e o elogio relativamente ao meu juízo - e aproveitei também para ir ligeiramente mais rápido do que planeado nessa fase, mas nada que fosse ter grandes implicações negativas no cansaço final. Relativamente à companhia, fiz as contas e nas três maratonas que tenho no currículo apenas fiz cerca de 32 quilómetros sozinho. Ou seja, sem nenhum colega de equipa ao lado.

O ritmo que eu tinha em mente era a rondar os 5:50m/km, mas se fosse a 5:45m/km também não era mau de todo. Depois de uma fase inicial a ganhar posição no pelotão passou por nós a bandeira das 4:15 e fomos confortavelmente atrás dela até que quase sem querer a ultrapassámos com relativa facilidade. Percebemos que ou fomos nós que aceleramos um pouco ou ela tinha reduzido o ritmo e estava também a estabilizar o andamento. O que é certo é que fomos bastante tempo à frente e sempre de olho no outro lado da estrada quando apareceram os primeiros retornos. Conseguimos ver parte da malta da equipa, para além de mais malta amiga. Rapidamente estávamos nos 5kms à procura da nossa claque que encontrámos sem problemas apesar da quantidade de gente ali presente. Tudo tranquilo, ambos a um ritmo saudável para as nossas ambições. E quando acelerámos na descida até foi ele a comentar isso, ao que eu respondi que sabia mas que já voltávamos ao planeado. A ida até ao porto de Leixões e regresso à rotunda da Anémona fez-se num ápice, novamente entre bom ambiente, procura de amigos e colegas e sorrisos. Recordo-me que a certa altura ouço algo - que já nem me lembro o que foi - vindo de dois atletas atrás de mim e a minha reacção imediata, sem olhar, foi: "Temos Pernetas por perto, chegou a festa!" "É isso mesmo!" ouvi em resposta. Bem antes disso também já tinha visto o Carlos nos quilómetros iniciais. Outra cara que é sempre um prazer rever. Mais tarde haveria de encontrar a Dora a quem desejei força, sem ela fazer ideia de quem eu era, suponho eu. Mas essa é uma das belezas disto de correr, sobretudo numa Maratona. 
Encontrámos a ET, seguimos em direcção à Anémona, o João Lima passou por nós e desejou-me força para me tornar tri-maratonista. Pequenos momentos que muita importância teriam lá mais para a frente. Chegámos ao ponto de separação das provas, vamos lá fazer mais 30 quilómetros que os primeiros 12 passaram a voar.

Como habitual, nota-se logo que algo mudou. Menos atletas em prova, menos público na estrada. Não que o apoio tivesse desaparecido, mas as zonas de Matosinhos, Parque da Cidade e Anémona têm sempre uma moldura humana brutal. Agora a interacção era mais com colegas de estrada. A chuva - sim, já tinha começado a chover - afastou naturalmente algum pessoal, mas o Porto nisto não desilude e quem lá estava fez sempre os possíveis para dar força aos atletas. Portugueses, estrangeiros, não interessava!

Nós continuávamos ao nosso andamento, nada de novo. Mesmo. Ele ainda me perguntava se não estávamos a ir muito depressa para o que eu queria e eu ia olhando para o relógio para confirmar que aquilo que ele marcava batia certo com o que as pernas sentiam. Um pequeno início de cansaço era amenizado com o segundo gel, também dentro do planeado. Ele também tinha uma estratégia de gel que correu bem. À beira da estrada havia malta num café a quem eu pedi imperiais. Não tinham, mas havia finos! Esqueci-me de onde estava e ele corrigiu-me no imediato. À nossa frente um atleta tinha o telemóvel no bolso dos calções com a luz do flash ligada. Quando o alertámos ele solta um "Fogo, tenho um pirilampo no rabo, carago!" Agora metam sotaque do norte nesta frase e estamos no ambiente certo. Carago! 
Em sentido contrário vimos os primeiros classificados, batemos palmas e comentava-se o ritmo frenético a que vão. E recordámos o vídeo da passadeira a simular a velocidade do record do mundo da Maratona batido em Berlim e a impossibilidade de fazer sequer um quilómetro àquele ritmo, quando mais 42!

A segunda fase da prova estava a terminar. Passagem aos 20km, a confusão habitual naquele abastecimento que é o primeiro a ter reforço sólido. Consegui tirar duas embalagens de gel para substituir os que tinha tomado. O facto do gel oficial da prova ser exactamente aquele que tomo facilitou esta questão e deixou-me muito mais tranquilo. A passagem pela ponte Dom Luís é sempre um marco da prova. É preciso algum cuidado na zona antes da ponte porque o empedrado a descer pode causar alguma escorregadela inadvertida, sobretudo com as condições climatéricas de ontem. Já disse que estava a chover? Ele avançou um pouco e eu tive cuidado extra ali. Depois começo a ver o mar de gente habitual e não me contive nos gritos, nos pedidos de palmas e de barulho. Tive imenso retorno, malta a gritar o meu nome, malta a dizer-me que quando eu passar de regresso ao Porto ali estarão para apoiar novamente. E fiz um sprint tão grande para o apanhar no meio desta loucura que fiquei sem fôlego, mas valeu muito a pena. Nem eu sabia o quanto, naquela altura! Agora era uma altura em que teríamos que tomar uma decisão e ela aconteceu sem sequer falarmos. À passagem pelo pórtico da Meia Maratona eu abrandei ligeiramente o ritmo e ele seguiu no mesmo andamento. Isto foi tão natural que ele nem se apercebeu. O nosso trabalho de equipa em conjunto terminava aqui: ele tinha mantido o juízo durante metade da prova para não rebentar muito cedo e eu tinha feito uma meia maratona em boa companhia e ia agora fazer a outra meia até à meta a tentar continuar a gerir o esforço. Ele só rebentaria aos 33km, mas a marretada foi bem mais suave do que ele temia. Eu rebentei aos 26/27km. Pois.
Ainda antes disso vieram momentos engraçados. No espaço de um ou dois minutos tive um atleta do Correr Lisboa a desejar-me força e chamando-me pelo meu apelido! Logo a seguir alguém que me incentivou através do nome da equipa e atrás dele outro atleta que me chamou pelo primeiro nome. Confesso aqui que não reconheci nenhum destes três atletas e fiquei à nora enquanto ia ouvindo estes incentivos "anónimos". Da mesma forma, vi também o outro maratonista da equipa que ia bem, juntamente com outro amigo nosso que estava a lutar contra uma gripe e posteriormente o André que fez uma marca excelente na sua prova!

Decidi também dar uma de apoiante anónimo e quando vi a Susana passar gritei-lhe um "Força Unicórnio!" Apoio nunca é demais, pois não?

Com isto vinha o abastecimento dos 25km onde fiz uma pequena pausa para hidratar, respirei fundo e segui!

E quebrei. Foi um misto de muita coisa: pés frios, esforço extra por causa da chuva e do empedrado, não sei, foi tudo junto. Gelou-se-me tudo, desde o coração à cabeça, passando pelo resto do corpo. E o pior foram os fortes espasmos que comecei a sentir no joelho direito. Tentei continuar a correr, mais devagar, mas em breve tive que caminhar pela primeira vez. E os espasmos iam e vinham. Quando desapareciam ganhava forças e esquecia, mas quando voltavam ficava assustado. E ao quilómetro 27 da minha terceira Maratona pensei pela primeira e única vez que não iria conseguir acabar.

Só pensava em voltar a atravessar a ponte e logo se via o que ia fazer depois disso. Caminhei um pouco, alternei com corrida ligeira e ia dizendo ao joelho que estava a ser parvo. Decidi que não iria passar a ponte a andar, porque aquilo havia de ter imensa gente ainda a apoiar. E assim foi. O que eu não esperava foi ter-me sentido tão emocionado com o apoio do público nessa altura. Tentei conter as lágrimas - que haveriam de cair um pouco mais à frente - e cerrei os dentes! Esta Maratona era para acabar! E quase sem dar por isso estava no abastecimento dos 30km. Excelente! A minha meta já era pensar de abastecimento em abastecimento e ir fazendo o resto em blocos de 5kms. Ganhei ainda novo ânimo ao ver o marcador de ritmo das 4:15 a passar do outro lado e o meu colega de equipa logo atrás, com talvez um quilómetro de vantagem para mim. Não estou assim tão mal, pensei! Siga...! Siga durante um quilómetro, porque os dois seguintes foram praticamente a caminhar depressa. Tempo suficiente para apanhar uma conversa entre dois atletas, uma das quais polaca e que completou no domingo o seu 42º aniversário tendo decidido celebrá-lo a correr precisamente uma Maratona. Agarrei-me a exemplos de motivação como este para me manter focado. Ao meu lado passavam dois atletas e um deles dizia que "se isto fosse fácil qualquer pessoa fazia".
Voltar a passar junto à ponte Dom Luís deixou-me novamente emocionado com o apoio contínuo que existia e o cheque-mate deu-se no túnel da Ribeira. Podia estar a passar o Chariots of Fire ou a música do Rocky como nos anos anteriores, mas estar a passar o Don't Stop me Now dos Queen fez-me soltar as lagrimitas que eu andava a conter. Malandros, pá! Ganhei força, ganhei alento! Os espasmos no joelho direito tinham desaparecido, mas agora era a perna esquerda que estava com queixas, talvez a compensar. Nada que me impedisse de continuar a correr. Não era a 6:00m/km, era a 7:00m/km! Não ia era parar! Don't stop me now!

Quando percebi que já via o abastecimento seguinte no horizonte nem acreditei. Eram só mais 5 quilómetros, porque na minha cabeça os dois últimos iam ser feitos com o coração e não com as pernas. Voltei a hidratar com o isotónico da Prozis. Fora dos abastecimentos andei sempre com uma garrafa de água na mão que ia trocando ao chegar a um novo. Foi aos 35km que vi a Dora. E quando retomei a corrida passa o marcador de ritmo das 4:30. Ora, apesar dos vossos desejos e previsões de 4:15, a minha ambição era terminar próximo das quatro horas e meia e seguir ali com companhia parecia-me perfeito para me aguentar. Até pensei que se estivesse bem depois no final ainda ia acelerar mais para acabar à frente.

Está bem, está... Um quilómetro e pouco junto à bandeira e não aguentei mais. Vamos caminhar novamente e esquecer esta coisa do tempo final. Na verdade, desde os 27km que eu nem sequer sabia se ia acabar, portanto estar ali tão perto já era uma vitória. Se tivesse que fazer em 5 horas, fazia. Maratonas há muitas! Seja como for, foi um balde de água fria ver fugir com a bandeira de tempo os objectivos propostos, independentemente do meu sub-consciente saber que me falharam muitos quilómetros na preparação. Voltei a quebrar psicologicamente e meti na cabeça que ia a caminhar o resto que faltava e que se lixe. 

Olhei para o relógio e fiz contas só para ver quantas mais horas ia deixar o pessoal preocupado na meta. A chuva forte que caia deixava-me em pânico. Comentei no final que esperava até que não estivesse ninguém à minha espera e que eu só queria é que estivessem abrigados e/ou no conforto do hotel. Eu haveria de ir lá ter depois. Mas ter olhado para o relógio deu-me o click final de motivação que me faltava. Contas rápidas ao quilómetro anterior diziam-me que se fizesse os restantes quilómetros até à meta a um ritmo de 8:00m/km iria terminar com 4:40! Como era possível quando a bandeira dos 4:30 já tinha ido embora há tanto tempo? A bandeira dos 4:45 devia estar a apanhar-me a qualquer instante. Olhei para trás e não vi nada que indicasse isso. Então ainda consigo fazer um tempo bom? 
Ao mesmo tempo que fazia estas contas pensava que tinha o pessoal a seguir-me pela aplicação e que um quilómetro tão lento ia deixar todos preocupados - confirmou-se, aquele quilómetro deixou o pessoal na meta em pulgas! E não era só o pessoal na meta, era toda a gente que tanto apoio me deu ao longo destes meses! Não era uma questão de desiludir ninguém, não queria nem podia era deixar ninguém apreensivo. Agarrei-me a toda a gente que conheço, a todos os amigos do mundo das corridas, levei-vos a todos comigo! Estavam ali ao meu lado!

E quem é que apareceu também ali ao lado? Um casal no passeio a dar força aos atletas. Na altura eu ia isolado e lá veio a senhora gritar por mim e pelo nome da equipa com uns valentes "Vamos lá"! Era a mesma senhora que há dois anos exactamente naquele sítio me disse que eu ia com demasiada roupa e o senhor que estava ao lado foi o que no ano passado nos gritou por ali que chegar tão longe era para campeões. Foi incrível! E foi novamente com a lágrima a querer cair que lhes gritei energicamente que "Vocês são os maiores, carago! São os maiores!"

Impossível parar depois daquilo! A partir dali foi sempre a correr, excepto por uns segundos no abastecimento dos 40kms. Mais dor, menos dor, mais cansaço, menos cansaço, tinha uma meta à minha espera. E eu só pensava que se fosse ver o pessoal junto ao gradeamento então ia cruzar a meta a chorar copiosamente porque não ia aguentar. Olhava de relance para o relógio para confirmar que a matemática não me tinha enganado. A chuva tornou-se intensa a certo ponto mas nem isso me ia parar, já tinha transformado todos os infortúnios em entusiasmo, todas as dificuldades estavam a uma curta distância de serem ultrapassadas! Para ajudar ainda há um atleta de uma equipa da zona de Sintra que se meteu comigo para dizer à colega que ele ia a rebocar até à meta que isto agora era um tirinho. Olha aqui o N. fresco e fofo ao fim destes quilómetros todos. Eu sorri e disse-lhe que comparado com as provas do troféu das localidades, isto da Maratona era uma brisa.

Passar o quilómetro 40 foi o melhor momento daquela epopeia até ao final. Os dois últimos quilómetros são para fazer sem parar e sempre a acelerar até ao fim. Dei um high-5 à placa dos 41kms e o meu rosto já era todo ele um sorriso rasgado! Ouvir os sons que vinham do speaker naquela zona e ver o recinto da chegada ali tão perto não deixava margem para qualquer dúvida: aquele tipo que teve medo aos 27kms ia conseguir terminar a Maratona! E em grande parte graças ao apoio que veio de fora!

Subida até à meta, quase sem ninguém junto ao gradeamento, mas isso não me fazia esmorecer. Ali à frente consegui ver a claque de apoio que se tinha acabado de colocar estrategicamente segundos antes depois de verem na aplicação que eu estava a chegar. Não houve lágrimas! O que houve foi um grito de satisfação onde libertei tudo aquilo pelo qual passei nesta epopeia. Curva final rumo à meta, novo grito, agarro-me ao símbolo da equipa na camisola e passo a meta em euforia total com um libertar final de emoções de braços bem erguidos no ar. Consegui! Consegui, carago! E agarro-me ao gradeamento a chorar durante uns segundos. Bateu forte, mas passou rápido.

Fui buscar a medalha e ainda soltei um YES de alegria que fez com que a senhora que me ia dar a medalha me tivesse dado os parabéns e pedido um abraço!



A chuva era intensa, ainda fui buscar uma cerveja que nem bebi na totalidade. Agarrei nas ofertas, na t-shirt de finisher e fui ter com o pessoal que estoicamente aguardava por mim. O meu colega fez menos 15 minutos que eu e decidiu que não queria ir andando até ao hotel antes de eu chegar. Obrigado!

No final, depois de um banho quente, tivemos uma muito merecida refeição de francesinhas que nos encheu o estômago. A alma, essa, já estava bem cheia! 



O regresso a casa foi tão ou mais atribulado que a prova em si. Quatro horas de viagem pela auto-estrada debaixo de um dilúvio tal que nos tirava qualquer visibilidade e nos obrigou a vir a não mais que 70km/h durante mais de metade da viagem. Felizmente tudo correu bem no final.

Está feita a terceira Maratona, cheia de altos e baixos, tal como tem que ser. Depois da emoção há-de chegar a altura para analisar mais a frio tudo o que correu bem e mal durante estes últimos meses para depois afinal a estratégia para a quarta.




Prova nº 95 - Maratona do Porto 2018 - 42km - 4:33:49